Resenha – Três Contos – Flaubert

tres

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Um coração simples, A legenda de São Julião Hospitaleiro e Herodíade são os três contos dessa edição em que, desnecessário dizer, a Cosac Naify caprichou. Além dos contos há um excelente prefácio de Samuel Titan Jr., esclarecendo bem o contexto em que os contos foram escritos – após enfrentar dificuldades para escrever Bouvard e Pécuchet, fracassos de público e de imprensa com Salammbô e A educação sentimental, perder algumas pessoas queridas e ainda enfrentar o fantasma da falência, Flaubert “não se julgava capaz de escrever uma só frase”.

A ideia dos contos, escreveu Flaubert, mais especificamente quando iniciou o trabalho em A legenda de São Julião Hospitaleiro, era “apenas para me ocupar com alguma coisa, para ver se ainda sei fazer uma frase”.

Para enriquecer ainda mais a edição, o apêndice traz uma compilação das referências do escritor francês aos três contos em suas cartas, um breve resumo da história de São Julião Hospitaleiro conforme consta na Legenda Áurea, além de sugestões de leitura.

Como se pode ver, primor não falta à Cosac Naify.

 

Um coração simples

 un-coeur-simple-615

Este é o conto de que mais gostei. É estranho, contudo, que nada há de extraordinário. Flaubert esconde uma falsa simplicidade. Seu estilo é discreto, nada de grandes arroubos de emoção. Talvez neste conto isso esteja mais evidente, a partir, principalmente, da própria história por ele contada. Félicité, uma moça de baixo nascimento que quase foi feliz, mas acabou passando cinquenta anos na solidão, como criada, vivendo uma vida frugal, até mesmo miserável, mas sem jamais se revoltar e ocupando um legítimo papel de coadjuvante. Flaubert resolve colocá-la em evidência, e o que a princípio poderia parecer maçante, revela, no mínimo, que o autor francês é um mago, um feiticeiro, que nos encanta com suas palavras, metáforas, descrições e diálogos.

Leiam os dois primeiros parágrafos e digam-me se não concordam que este não parece – eu disse não parece! – o mais promissor dos inícios de um conto:

Durante meio século, as burguesas de Pont-l’Évêque invejaram à sra. Aubain sua criada Félicité.

Por cem francos ao ano, ela cuidava da casa e da cozinha, costurava, lavava, passava, sabia arrear um cavalo, engordar aves de criação, fazer manteiga – e continuou fiel à patroa, que entretanto não era uma pessoa amável.

Assim Flaubert descreve Felicité:

O rosto era magro e a voz, aguda. Aos vinte e cinco a nos, davam-lhe quarenta. A partir dos cinquenta, não aparentou mais idade nenhuma; e sempre silenciosa, o porte rijo e os gestos comedidos, parecia uma mulher de madeira, funcionando de maneira automática.

Ele garante, contudo, que “ela, tivera, como qualquer outra, sua história de amor”. Félicité se encantara, em sua juventude, por um jovem de nascimento superior e alimentara esperanças de desposá-lo, o que, naturalmente, jamais aconteceu.

O conto não tem bem um enredo. Acompanhamos alguns anos na vida da casa em que Félicité trabalha. Vemos o amor e a dedicação da criada aos filhos da patroa, que crescem e tomam rumos que não são exatamente aqueles com os quais uma mãe sonharia. Vemos também o amor de Félicité pelo seu sobrinho, um marinheiro que embarca em perigosas aventuras. Vemos, finalmente, o papagaio Lulu, que se torna o grande amigo da criada.

O conto deixa transparecer um ar místico, especialmente na sua conclusão. Parecem interessar também a Flaubert as figuras de caráter intrinsecamente religioso, santo. Não sei dizer se este elemento contribuiu para que eu me afeiçoasse tanto ao conto. Acredito que não, até porque os outros dois contos são centrados em acontecimentos ligados a figuras religiosas e nem assim me conquistaram como este aqui.

Flaubert é um exímio narrador, e a sua capacidade para desenvolver personagens, dar-lhes vida, hálito, cheiro, é desconcertante. Sempre lembrarei com carinho da pobre Félicité.

Apenas uma informação interessantíssima que o próprio Flaubert fornece sobre o processo de criação de Um coração simples:

(…) não consigo aprumar minha História de um coração simples. Ontem, trabalhei por dezesseis horas, hoje, o dia inteiro, e esta noite, enfim, terei terminado a primeira página.

 

A Legenda de São Julião Hospitaleiro

St  julien  l'hospitalier

Antes de iniciar a leitura deste conto, eu já fazia uma boa ideia do que esperar. A Legenda de São Julião Hospitaleiro ocupa papel de destaque no livro que mais me impressionou em 2012: Beatriz e Virgílio (que reli no início desse ano e sobre o qual escrevi aqui).

Em Beatriz e Virgílio, Henry, um taxidermista, pede ajuda a Henry, um escritor de sucesso que enfrenta uma crise criativa, para terminar uma peça de teatro que tem como personagens principais Beatriz, uma mula, e Virgílio, um macaco. Antes de pedir exatamente esse auxílio, ele envia ao escritor uma cópia do conto de Flaubert, com destaque especial para as cenas em que o santo mata com crueldade animais de praticamente todas as espécies existentes.

São Julião, o hospitaleiro (também conhecido como São Juliano), é um santo da Igreja Católica. Sua história, de acordo com a Legenda Áurea, é, resumidamente, a seguinte:

Julião era um jovem que tinha muito prazer nas caçadas. Um dia, quando estava a ponto de matar uma corça, ela falou-lhe, com ar profético, que ele acabaria matando seus próprios pais. Assustado, ele resolveu fugir de casa e desaparecer, para não ver se concretizar aquela terrível maldição. Anos se passaram e ele, depois de se destacar em várias guerras, acabou ganhando de um príncipe a mão de uma castelã-viúva. Após anos de busca, seus pais acabaram encontrando o castelo e conversaram com a esposa de Julião, que os acolheu, dando-lhes a sua própria cama para descansarem, depois de tão fatigante jornada. Julião, que passara o dia inteiro caçando numa floresta vizinha, volta no meio da noite e ao entrar no quarto, vê, na penumbra, um homem e uma mulher deitados em sua cama. Supondo que sua mulher o traía, matou ambos silenciosamente. Ao sair do quarto, encontra a sua esposa e descobre a verdade: a maldição havia se cumprido. Resolve deixar o castelo e abandonar a esposa para tentar expiar a terrível culpa. Ela permanece com ele e ambos se retiraram para as margens de um grande rio onde muitos perdiam a vida. Lá estabelecem um hospital, onde acolhem os pobres e ajudam a quem quisesse atravessar o rio.

Certa vez, muito tempo depois, um homem doente pede, no meio da noite, auxílio para atravessar o rio. Julião ajuda-o e quando o traz para a margem do hospital, percebe que se trata de um leproso e que treme de frio. Julião leva-o para dentro de sua casa e procura aquecê-lo. Só então o leproso revela ser um anjo, que veio trazer a mensagem de que Deus havia aceitado a penitência do parricida, que agora poderia descansar nos braços do Senhor.

Flaubert teria tido a ideia de escrever sobre essa curiosa história a partir de um vitral numa igreja, retratando o santo. O tratamento literário preciso é evidente, e como é de se esperar, muitas liberdades são tomadas. Há um especial cuidado do escritor francês em retratar as caçadas de Julião. A variedade de animais que ele diz terem sido assassinados por prazer pelo futuro santo encheriam a arca de Noé.

No livro Beatriz e Virgílio, Henry, o taxidermista, explica que chama a atenção no conto que Julião leva toda uma vida de penitência por causa do crime contra seus pais. Sua vida de crueldade contra os animais, todavia, sequer pesa-lhe na consciência. Apesar de a profecia – ou maldição – vir da boca de um animal prestes a ser morto, Julião em nenhum momento se arrepende ou pensa no que fez como algo negativo.

Preciso dizer que não consegui captar o que Flaubert pretendeu expressar com isso. Que não é gratuito, é óbvio. No livro do escritor canadense, o raciocínio do taxidermista se faz logo claro. Mas essa é a leitura dele, impossível a Flaubert tantos anos antes.

De qualquer maneira, A Legenda de São Julião Hospitaleiro é mais uma amostra do talento inegável de Flaubert.

Herodíade

rubens1

A história do martírio de São João Batista é bastante conhecida mesmo entre os não cristãos, principalmente pelo seu incrível potencial literário, dada a carga dramática de toda a situação.

São João Batista, que dizia de si mesmo ser “a voz daquele que clama no deserto” denunciava as imoralidades e pecados de seu tempo. Não poupava sequer Herodes, que se casara com Herodíades, esposa de seu irmão. Adúlteros, pecadores, ímpios são os nomes mais doces que João Batista dirige ao casal. Herodes, apesar disso, gosta de ouvir João Batista, talvez por encará-lo como uma figura curiosa, talvez por ser supersticioso e julgá-lo um profeta. Herodíades, por sua vez, nutre um ódio fortíssimo pelo pregador, e quer vê-lo morto.

João está preso nas masmorras do castelo de Herodes e vez ou outra sua voz ainda se ouve. Alguns dos judeus pedem sua libertação, outros, sua morte. Herodes vai contornando essa situação até o dia em que promove um grande banquete, do qual participam diversas autoridades, algumas superiores a ele próprio.

Depois de já embriagado, surge em cena uma moça misteriosa, sensual, que dança como uma deusa. Herodes cobiça-a, e ela sabe como provocá-lo. Faz um espetáculo, circula todo o salão, enfeitiça a todos. Herodes, que não a conhecia, promete-lhe até metade do reino. A moça, que se chama Salomé, já estava bem instruída por sua mãe, Herodíades:

Quero a cabeça de João Batista numa bandeja!

Toda a situação havia sido armada por Herodíades com esse objetivo. Sua filha havia vindo de longe e se mantinha distante dos olhos de Herodes até o momento em que o banquete estivesse no seu ponto máximo. Sabedor da volúpia de seu marido, Herodíades não hesitou em entregar-lhe a própria filha para se livrar de seu inimigo.

Herodes, não querendo voltar atrás diante de tantas testemunhas, ordenou a morte de João Batista e pouco tempo depois sua cabeça chegava numa bandeja e era entregue à jovem Salomé.

Alguns anos depois de Flaubert, Oscar Wilde contou sua versão dessa história a partir de Salomé, em uma peça de teatro que ficou bastante famosa.

A versão de Flaubert, revela o próprio título, tem como centro Herodíades, que, de acordo com a versão original, constante na Bíblia, foi a responsável pela morte do Batista.

O escritor francês mais uma vez capricha em sua história. Indo bastante além do resumido relato bíblico, Flaubert estabelece o clima de tensão que vivia Herodes, ameaçado pelo rei dos Árabes, cuja filha ele desprezara para justamente desposar Herodíades. Herodes espera o socorro dos romanos, mas não é tão simples assim, já que ele também tem seus segredos e há todo um jogo de intrigas em ação. Herodíades, neste aspecto, revela-se exímia jogadora, e a união com Herodes foi apenas mais um movimento dentro da sua estratégia. Há mais problemas que os árabes. João Batista está preso e ainda vivo, o que Herodes faz questão de esconder. Há diversas figuras importantes entre os fariseus e saduceus reivindicando mudanças, privilégios, punições ou recompensas. Há os agitadores e pretensos profetas, dentre os quais é citado Jesus, que ainda não constitui preocupação para o tetrarca. E há Herodíades, que insiste que João tem que morrer.

Herodes organiza um banquete para mostrar seu poder e para mostrar que tem o apoio de Roma, dissipando, assim, parte das tensões reinantes. Recebe a visita de um representante de Roma e, enquanto visitam algumas partes do castelo, são surpreendidos pelos gritos de João Batista, que assim se expressa ao ver Herodíades:

– Ah! És tu, Jezabel! Conquistaste o seu coração com o estalido das tuas sandálias. Relinchavas como uma égua. Ergueste o teu leito sobre os montes, a fim de realizar teus sacrifícios! O Senhor arrancará teus brincos, teus vestidos de púrpura, teus véus de linho, os anéis dos teus pés e os pequenos crescentes de ouro que tremem em tua testa, teus espelhos de prata, teus leques de plumas de avestruz, os saltos de nacara que aumentam tua estatura, o orgulho dos teus diamantes, as essências dos teus cabelos, as pinturas das tuas unhas, todos os artifícios da tua brandura; e faltarão pedras para lapidar a adúltera! (…)

– Deita teu corpo no pó, filha de Babilônia. Faz moer a farinha! Tira o teu cinto, desata a tua sandália, arregaça a roupa, cruza os rios! Tua vergonha será descoberta, teu opróbrio será visto! Teus soluços quebrarão os dentes! O Eterno execra o fedor dos teus crimes! Maldita! Maldita! Morre como uma cadela!

Não é de surpreender o desamor de Herodíades pelo profeta…

Flaubert mais uma vez conduz com maestria a história, trabalhando os personagens, dando-lhes motivações, fazendo-os de carne e osso. Um exemplo disso é a atração de Herodes por Salomé, que ele não conhecia. Em duas cenas ele avista, de longe, uma bela moça. Não vê seu rosto, apenas relances: em um momento, ela, languidamente, estende umas roupas; noutro, passeia por um jardim. O desejo dele cresce rapidamente. Indaga a Herodíades quem é aquela moça, se seria sua criada, mas a mulher permanece em silêncio. Quando enfim Salomé chega à festa, sua dança é mais do que Herodes poderia esperar, e ele já não tem controle sobre si. A descrição da dança, por sinal, é, a meu ver, o ponto mais forte do conto, uma cena memorável.

Nesses três contos fica evidente o poder de Flaubert como narrador e torna-se mais fácil compreender por que James Wood, em seu Como Funciona a Ficção, reputa-o como pai do romance moderno.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

Anúncios

2 Respostas para “Resenha – Três Contos – Flaubert

  1. Pingback: A Hora da Estrela – Clarice Lispector | Catálise Crítica

  2. Pingback: Top 10 – Leonardo | Catálise Crítica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s