Resenha – Do que eu falo quando eu falo de corrida – Haruki Murakami

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Há algum tempo eu flerto com a prática da corrida. A atividade física que mais gosto de praticar (e gosto muito mesmo!) é jogar futebol ou futsal. Se dependesse de mim, eu jogaria todos os dias. Mas futebol é um esporte coletivo, e nem sempre é fácil juntar quinze ou mais pessoas que mantenham o compromisso de não só ir todos os dias, como chegar no horário (que para quem tem trabalho, esposa e filhos acaba sendo ingrato, como cinco da manhã). A corrida, pelo contrário, não exige quase nada: um par de tênis e um lugar para correr, que pode ser uma rua pouco movimentada, um parque, a praia, um calçadão. Você não precisa esperar por ninguém, não precisa, portanto, ter um horário fixo, ninguém vai questionar seu desempenho, a não ser você mesmo. Para mim, contudo, a diversão proporcionada nem se comparava àquela que obtenho jogando futebol. O flerte começou, na verdade, por razões utilitárias: eu queria perder peso e manter-me numa forma física minimamente aceitável, para quando houvesse um jogo eu não fizesse feio.

Por essa razão – e por uma tendência que tenho a não perseverar em meus projetos – sempre estava abandonando e retomando a corrida. Até que no ano passado participei da minha primeira corrida, por um acaso – passei os primeiros quatro meses do ano estudando na George Washington University, em Washington, e um colega do curso me falou da tradicional corrida que é realizada no dia de São Patrício, a St. Patrick’s Day 8K. Faltava cerca de um mês e eu teria que começar quase do zero, mas ele me convenceu de que seria possível e acabamos treinando juntos. Participei, terminei num tempo razoável e cruzar a linha de chegada teve um sabor agradável (não como marcar um gol, mas um sabor diferente, mais íntimo, de superação pessoal). Quando voltei ao Brasil logo participei de outra corrida, desta vez de 10 km, mas até o final do ano, por desleixo, fui abandonando a prática e só em dezembro, após cair a ficha em relação ao meu peso – meu recorde pessoal negativo – é que resolvi retomar minhas corridas diárias. Dentre as coisas que faço para me animar, para me manter motivado, estão ler sobre o assunto, fazer planilhas, pesquisar sobre corridas das quais posso participar.

Voltando ao tempo que estava nos Estados Unidos, lembro que naquela época me chamou a atenção nas livrarias um livro cujo título remetia ao clássico de George Orwell vilipendiado pela Globo. O livro, naturalmente, era 1Q84, de Haruki Murakami. Não conhecia o autor e acabei não pesquisando nada sobre a obra, que deixei de lado. Lembro também que em algum ponto impreciso do ano passado vi em alguma livraria virtual o anúncio desse livro. A primeira associação (infeliz, vejam só!) que fiz foi com o filme O que esperar quando você está esperando, que não vi e não verei, mas que remete, a um livro sobre – óbvio – gravidez. Não sei por que cargas d’água fiz essa associação, mas nem preciso explicar que qualquer interesse que eu poderia ter pelo livro foi reduzido a zero.

Mais um bom tempo depois – e aí já estamos em 2013 – eu vi o livro 1Q84 numa livraria. Folheei-o sem maior interesse e acho que na orelha do livro consta que o autor – respeitadíssimo e etc. e tal – havia escrito esse bendito livro sobre corrida.

Isso sim chamou a minha atenção. Imediatamente pesquisei na internet e descobri que sim, Haruki Murakami, autor de grandes obras como 1Q84, Norwegian Wood e Kafka à beira-mar, era também adepto da corrida, tendo participado de mais de vinte maratonas. Nesse livro ele relata não somente como se tornou corredor, mas também como essa prática diária – ele diz no livro que nos últimos vinte anos foram pouquíssimos os dias em que ele não correu, e que sua média de quilômetros por mês é bastante estável – se reflete também na sua vida e na sua escrita. Eu não apenas gosto de literatura. Gosto de ler o que os escritores escrevem sobre o ato de escrever. E se isso vem num livro que ainda falará de corrida, melhor ainda.

Como eu estava justamente nessa minha nova fase de corredor, não pensei duas vezes e encomendei o livro ao meu irmão, que estava viajando e que acabou me presenteando com esse e com o 1Q84 (que irmão bom que tenho!!!! :-D).

Do que eu falo quando eu falo de corrida é bem curto, com 152 páginas. Li de uma vez só. Não sei se o assunto pode interessar a quem não goste de praticar atividades físicas, mas imagino que sim. O autor tem um estilo simples, direto, elegante, que torna a leitura fluída e prazerosa. Mas do que Murakami fala quando fala de corrida? Não espere encontrar um guia para participar de uma maratona ou o segredo que fará você se apaixonar pela corrida, a ponto de passar mais de vinte anos correndo.

Murakami escreve o livro enquanto se prepara para uma corrida e vai relembrando como tudo começou. Como era sua rotina quando tinha um bar de jazz, como decidiu se tornar escritor e como começou a correr para se manter em forma. Em um determinado ponto do livro ele diz que muitos o questionam a respeito da sua força de vontade, que deveria ser imensa para correr por tantos anos a fio. Ele explica que não se trata disso, já que não haveria vontade que resistisse à prática de uma atividade com a qual ele não se identificasse. Ou você começa a gostar, diz ele, ou não continuará a correr.

Um dos pontos mais presentes no livro é o confronto de Murakami com a sua nova fase de corredor. Antes, diz ele, eu corria sempre evoluindo. Meu tempo na próxima maratona – ele corre uma maratona por ano – será muito provavelmente melhor que o tempo da maratona do ano passado, a não ser que aconteça algum imprevisto. Essa tendência foi se confirmando à medida que ele foi se dedicando mais ao esporte, treinando melhor e se tornando um corredor mais experiente. Mas aí a idade começou a pesar e por mais que ele se dedicasse, permanecia estagnado ou, pior, seus tempos pioravam. Foi um baque, diz ele, mas após quase abandonar a corrida (ele passou a se dedicar bastante ao triathlon), decidiu voltar com outra mentalidade, encarando a corrida com menos seriedade.

Murakami, assim, aproveita o mote corrida – que integra uma parte significativa de sua vida, já que não só ocupa pelo menos uma hora do seu dia, como determina muitas de suas viagens – para filosofar e falar sobre a vida, sobre a velhice e, claro, sobre seu ofício de escritor.

Ele afirma não ser daqueles escritores inspirados, de quem parece jorrar uma fonte infindável de ideias. Ele se qualifica mais como um escritor fundista ou mesmo um escritor maratonista (apesar de em nenhum momento ele usar claramente essa expressão). Seus livros são escritos a partir de sua disciplina, paciência, perseverança. Não há grandes arrancadas, e ele se diz feliz de não depender delas, já que caso viessem a faltar algum dia, ele teria que parar de escrever. Como ele é um operário, um escritor que escreve todos os dias, que obedece a uma rotina rigorosa também nesse ponto, pode ser que hoje não consiga escrever muito, nem amanhã, mas depois de amanhã ou daqui a uma semana algo vai brotar.

Do que eu falo quando eu falo de corrida me deixou com muita vontade de correr e de escrever. Não é um livro de autoajuda ou que tenha como objetivo deixar uma lição, um ensinamento, mas mesmo assim é possível extrair bastante coisa dele.

Um dos motivos de orgulho de Murakami em relação à corrida – tanto que ele fecha o livro lembrando isso – é que em todas as corridas de que ele participou, jamais ninguém o viu ter que caminhar. Mesmo correndo lentamente, quase caminhando, ele nunca deixou de correr.

Acho que essa é a principal lição deixada pelo japonês.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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5 Respostas para “Resenha – Do que eu falo quando eu falo de corrida – Haruki Murakami

  1. Oi de novo!
    Conheci esse livro ontem (creio eu) no Skoob e só não o adicionei porque prezo ler ao menos um livro de determinado autor que esteja na minha lista de leitura p/ só depois ler outro dele, se por acaso eu gostar do primeiro (deu pra entender?), regra que já quebrei, mas nem é esse o assunto… E o livro que está na minha listinha (super enorme) de Murakami é aquele que vc citou 1Q84. Tentei ler bem poucas sinopses dese livro. Só quis saber a premissa básica do básico dele. Inclusive, quero ler a sua resenha de 1Q84, viu?
    Interessante que eu nem pensei em Do Que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida como um livro de autoajuda em momento algum.
    Enfim, se eu gostar de 1Q84 leio esse =)

    • Como falei no texto, 1Q84 já tinha me chamado a atenção e acabou, de maneira muito bem-vinda, chegando às minhas mãos. Não pretendo ler agora por saber que se trata de uma trilogia cujos dois volumes seguintes ainda não foram publicados no Brasil, o que pode gerar uma angústia grande de querer saber como continua a história.

      Mais uma vez, obrigado pela visita e volte sempre por aqui!

  2. Pingback: 1Q84 – Livro 1 – Haruki Murakami | Catálise Crítica

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