Resenha – 1Q84 – Livro 1 – Haruki Murakami

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Provavelmente pela natural influência que sofremos por sermos ocidentais, a literatura oriental nunca me interessou muito. É evidente o erro que isso representa na minha formação literária e o prejuízo ao me privar de tanta coisa boa. O primeiro livro que li de um japonês foi Never Let me Go, de Kazuo Ishiguro (sobre o qual escrevi aqui no blog), um japonês bem “fajuto”, para falar a verdade. Apesar de ter nascido em Nagasaki, ele se mudou para a Inglaterra ainda aos seis anos de idade, e Never Let me Go foi escrito em inglês.

Como falei no post sobre Do que eu falo quando eu falo de corrida, a primeira vez que vi o nome de Haruki Murakami foi nos Estados Unidos, quando vi 1Q84 numa estante. Não me interessei tanto pelo livro por imaginar se tratar de uma mera paródia do clássico de George Orwell.  Recentemente descobri o livro de Murakami sobre sua experiência como corredor, li e gostei demais. Meu irmão acabou me dando de presente tanto o Do que eu falo quando eu falo de corrida como o livro 1 de 1Q84. Como gostei demais da prosa de Murakami, resolvi ler logo o 1Q84, mesmo quase certo de que me arrependeria, já que a história está dividida em três volumes, com apenas dois publicados no Brasil (o terceiro, conforme informação que recebi da própria Alfaguara, via Twitter, só sairá no segundo semestre, pois ainda está em estágio de tradução  – para a minha felicidade, direto do original japonês). Dito e feito. Li o primeiro e imediatamente comprei o segundo, que devorei ainda mais rapidamente. Agora fico como aquela criança que ganha um pirulito e, tão logo dá a primeira lambida, derruba o doce na areia.

Antes de falar propriamente de 1Q84, acho que é apropriado falar um pouquinho de Murakami. Ele também não deve ser tomado como o exemplo mais puro do escritor japonês. Desde cedo ele foi muito influenciado pela cultura ocidental, em especial a música e a literatura. Seu primeiro emprego foi numa loja de discos e por alguns anos foi proprietário de um bar de jazz. Seus livros trazem essa referência sempre de maneira bem explícita, como é o caso de um dos seus maiores sucessos, Norwegian Wood, título de uma música dos Beatles.

Segundo o próprio Murakami, ele começou a escrever aos 29 anos. Teve a inspiração de escrever um romance enquanto assistia a uma partida de baseball. No livro Do que eu falo quando eu falo de corrida, Murakami tenta deixar claro que ele não é daqueles escritores que têm um estalo e concebem toda uma história genial de uma só vez. Ele se define como um escritor maratonista: o segredo da sua escrita é a perseverança e a disciplina. Escreve todos os dias, sem exceção, assim como corre. Devagar e sempre, construindo as histórias, esculpindo personagens, desenhando mundos.

1Q84 é apontado como sua obra mais grandiosa. Dividido em três volumes, está centrado nas histórias de Aomame e Tengo, dois jovens de vinte e nove anos cujos destinos pouco a pouco vão se cruzando. Aomame é uma assassina profissional que elimina alvos bem específicos e de uma maneira única, desenvolvida por ela, que também é fisioterapeuta e massagista profissional. Tengo é um professor de matemática que tem como projeto tornar-se escritor. Já tem alguns romances prontos, mas ainda não foi publicado. Sabe, contudo, que logo chegará a sua vez.

Aomame está a caminho de um hotel, onde eliminará mais um alvo, quando se vê obrigada a tomar um atalho por conta de um gigantesco congestionamento. A partir dessa decisão ela começa a ver sinais quase imperceptíveis, mas que uma vez identificados tornam claro que ela não está mais no mesmo mundo que outrora. Algo mudou. Ela crê que foi transportada para uma dimensão paralela que ela batiza de 1Q84 (o livro se passa no ano de 1984).

Tengo, por sua vez, trabalha para um editor e recebe dele uma proposta arriscada: uma jovem de dezessete anos escreveu um livro originalíssimo, com um imenso potencial. Está, entretanto, mal escrito, como se a jovem realmente não soubesse escrever. Komatsu, o editor, propõe que Tengo reescreva o livro para que a moça possa ganhar um prêmio literário. Tengo quer recusar, mas a história o seduz de uma maneira que ele se sente compelido a reescrevê-la. Essa decisão acaba se consolidando a partir do momento em que ele conhece Fukaeri, a jovem escritora. Belíssima e dona de um comportamento bem diferente – para começo de conversa, ela faz as perguntas sem dar às frases a entonação típica das perguntas – ela aceita que ele reescreva a história e, à medida que as coisas vão avançando, Tengo percebe que o único perigo não é ter a sua fraude descoberta. Aquela estranha narrativa sobre o povo pequenino e a crisálida de ar parece estar mais ligada à realidade do que ele gostaria.

Dimensões paralelas, povo pequenino (uma espécie de duendes superpoderosos), crisálida de ar… A primeira impressão pode ser de que esse seja um livro muito louco. E, em parte, essa é uma impressão acertadíssima. Mas engana-se quem acha que vai encontrar uma prosa intrincada. Murakami sabe criar personagens e as ações sempre partem do cotidiano de cada um deles. Suas descrições são tão vívidas que fica fácil visualizar mesmo as situações mais absurdas, como a existência de duas luas no céu ou pequenos seres saindo da boca de uma cabra e tecendo uma crisálida (ou um casulo, para ser mais preciso) do ar.

A maior parte da narrativa é composta do cotidiano de Tengo e Aomame. Ele dá aulas de matemática, escreve seu romance, cozinha, se encontra uma vez por semana com sua namorada (casada, com dois filhos), juntos ouvem jazz, jantam, fazem sexo. Aomame dá aulas numa academia, visita uma velha senhora em quem faz massagens relaxantes, sai em média uma vez por mês à procura de homens para ter uma noite de sexo (seu tipo preferido é o homem de meia idade, com início de calvície e com um bom formato cranial).

Não há atropelos, não há movimentos bruscos. Tudo ocorre como se não houvesse momento mais apropriado para que aquilo acontecesse. Murakami tem total controle sobre sua história, sobre seus personagens, sobre suas memórias. O cenário criado por ele, as emoções, as sensações, as imagens, tudo é descrito numa prosa clara e vibrante. E as comparações que ele usa… Impossível não lembrar de Faulkner e de McCarthy.

Vou citar apenas alguns exemplos aleatórios, escolhidos à medida que eu localizá-los no livro.

– Tengo reflete sobre quão rápido acabaram seus poucos relacionamentos com ex-alunas suas:

“Quando Tengo saía com essas garotas cheias de energia, que haviam acabado de ingressar na faculdade, ele não conseguia ficar sossegado. Sentia-se desconfortável. Era como brincar com filhotes de gato: de início, é divertido, legal; mas, um tempo depois, se torna entediante.”

– Aomame observa seu próprio corpo, consciente de suas qualidades e defeitos:

“Todos os dias, ela se mirava no espelho totalmente nua para examinar cuidadosamente sua condição. Não significava que era fascinada por seu corpo.  muitto pelo contrário. Seus seios eram pequenos e, ainda por cima, assimétricos. Os pelos pubianos pareciam capins pisoteados por soldados em marcha. Toda vez que ela se olhava no espelho não podia evitar uma careta.”

– Tengo refletindo sobre uma lembrança que não sai de sua mente de quando ele ainda era um bebê:

“No entanto a lembrança era acompanhada por uma vívida sensação de realidade. Havia nela algo de tátil, com peso, cheiro e profundidade. Era uma lembrança firmemente aderida na tela de sua consciência, como um marisco grudado ao casco de um navio. Por mais que tentasse, era impossível arrancá-la ou desgrudá-la.”

– Tengo está desassossegado:

“Mas, não importava o que Tengo fizesse, ele não conseguia se concentrar. Passava o dia insatisfeito, com um incômodo desassossego, como se tivesse engolido um pedaço denso de nuvem.”

Infelizmente (ou felizmente, já que a história ainda vai durar bastante), 1Q84 é dividido em três partes. O primeiro livro é primoroso, uma história viciante, que obriga o leitor a buscar o segundo livro, sobre o qual escreverei em breve.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5.

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7 Respostas para “Resenha – 1Q84 – Livro 1 – Haruki Murakami

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  5. Procurava por uma crítica ao livro para criar algum tipo de fagulha para ler. Eis que acho seu Blog. Parabéns pelos textos (li outros artigos), imagens, design do site. Continue com esse excelente trabalho, engrandecedor!

  6. Cara, muito obrigado. Espero que goste como eu gostei da trilogia. E continue visitando o blog e confira também os vídeos do canal O Lugar do Livro.

    Abraços!

  7. Crítica impecável, difícil achar uma resenha tão boa quanto a sua. Me deparei com o seu blog quando estava pesquisando justamente uma resenha de 1Q84 livro 1, já li, mas como faz tempo e comecei a ler o Livro 2 somente agora, precisava de algo para relembrar o primeiro. Sua resenha caiu como uma luva. 🙂

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