Resenha – As Aventuras de Pinóquio – História de um boneco – Carlo Collodi

pinoquio

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Tenho dois filhos, uma menina de dois anos e um garoto de nove. Quero que eles tenham um amor aos livros igual ou superior ao que eu tenho. Vejo que o exemplo influencia muito: eu e minha esposa estamos sempre com um livro nas mãos, seja lendo ou estudando, e isso já se reflete nas crianças. É comum uma cena em que os quatro estejamos “lendo”. As aspas estão aí porque, naturalmente, minha filha ainda não foi alfabetizada. Isso não a impede, entretanto, de manejar com desenvoltura as revistinhas da Turma da Mônica, que chegam todos os meses em casa. Sempre que André pega uma revistinha para ler, Beatriz o imita nos mínimos detalhes, até forjando uma risadinha aqui ou acolá, para indicar que entende o que lê.

Meu papel não se restringe à influência passiva: apesar de deixar André livre para escolher os livros que ele quer ler – que, nessa fase, são as séries Diário de um Banana e, em especial, As Aventuras do Capitão Cueca – procuro volta e meia escolher um livro para ler junto com ele, ou orientá-lo numa ou noutra leitura. Foi assim, à revelia dele, que comprei As Aventuras de Pinóquio tão logo vi o livro na estante de uma livraria. Escolhi o livro basicamente por dois motivos: a história de Pinóquio é um clássico da literatura legitimamente infantil e a edição que eu comprei é da Cosac Naify, que traz sempre, como “itens de série”, um projeto gráfico soberbo, traduções do original, ilustrações preciosas, além de algum texto sempre excelente sobre a obra.

André, assim que falei que havia comprado aquele livro para ler com ele, não escondeu, na sinceridade típica das crianças, sua frustração. Mas foi apenas uma primeira impressão ruim. No mesmo dia começamos a leitura e lemos sete dos trinta e seis capítulos. Fiz questão de parar num capítulo que deixou alguma resolução pendente. André foi dormir empolgado e curiosíssimo. Assim avançamos rapidamente e logo concluímos esse que merece o título de clássico com todas as letras. Como escreve Italo Calvino no posfácio, é estranho pensar que Pinóquio tenha cem anos, porque de um lado, não se consegue imaginar um Pinóquio centenário; do outro, acaba sendo natural pensarmos que Pinóquio tenha existido sempre – não é possível imaginarmos um mundo sem Pinóquio.

Eu não lembro nada do filme da Disney, por isso não posso afirmar se aquela versão cinematográfica é fiel ou não ao romance. Mas o fato é que eu não conhecia nada da história do teimoso, travesso e ingênuo boneco de madeira. E não é uma história exatamente curta. Apesar do formato pequeno, a edição da Cosac Naify tem 343 páginas, o que pode assustar os pequenos leitores. Mas, a julgar pela reação do meu filho, posso dizer que os pais fazem um investimento certo se resolverem comprar este livro para seus filhos.

O texto é deliciosamente bem humorado. Apesar de haver momentos de “drama”, especialmente quando Pinóquio é levado a refletir sobre seus erros, o que prevalece são as situações cômicas. Um exemplo já no início: o diálogo entre Mestre Cerejo, que achou o pedaço de pau falante, que mais tarde se tornará Pinóquio, e Geppetto, seu velho amigo.

– Bom dia, mestr’Antônio – disse Geppetto. – Que faz aí sentado no chão?

– Estou ensinando tabuada às formigas.

– Bom proveito!

– Que o traz aqui, compadre Geppetto?

– As pernas. Mas saiba, mestr’Antônio, que venho aqui para lhe pedir um favor.

– Pois aqui estou, pronto para servi-lo – replicou o marceneiro, pondo-se de joelhos.

– Tive hoje uma ideia na cachola.

– Diga lá.

– Pensei fabricar para mim mesmo um boneco de madeira; mas um boneco maravilhoso, que saiba dançar, lutar esgrima e dar saltos-mortais. Com esse boneco quero dar a volta ao mundo, em busca de um pedaço de pão e um copo de vinho, que lhe parece?

– Muito bem, Pamonha! – gritou a vozinha de sempre, que não se sabia de onde vinha.

Ao sentir que o chamavam de Pamonha, o compadre Geppetto ficou vermelho como um pimentão de tanta raiva, e, virando-se para o marceneiro, disse enfurecido:

– Por que me ofende?

– Quem o ofendeu?

– Você me chamou de Pamonha!…

– Mas não fui eu.

– Está achando que fui eu?! Pois eu digo que foi você.

– Não fui eu!

– Foi sim!

– Não fui!

– Foi!…

E acalorando-se cada vez mais, passaram das palavras aos fatos, e, agarrando-se pelos cabelos, andaram se arranhando, se mordendo e se engalfinhando.

Terminado o combate, mestr’Antônio viu em suas mãos a peruca amarela de Geppetto, e Geppetto percebeu que tinha nos dentes a peruca grisalha do marceneiro.

Como havia falado, Pinóquio é bem travesso. E teimoso. E ingênuo. É impressionante como ele consegue se meter em confusão, uma atrás da outra. E sempre por conta da sua ingenuidade e da sua teimosia. Dentre as inúmeras confusões em que se mete o bom boneco, ele dorme com os pés num braseiro, é roubado por uma Raposa e um Gato golpistas, que o convencem a plantar umas moedas de ouro que ele ganhou num terreno onde nasceria um pé de moedas de ouro, é perseguido por assassinos (uma das melhores sequências do livro, sem dúvida), é capturado para trabalhar como cão de guarda num galinheiro, torna-se um burro (!), é pendurado numa forca e fica como morto, é engolido por uma baleia… Enfim, não falta ação no livro. Fica evidente o caráter educativo da história. O autor, enquanto conta uma história divertida, quer ensinar que as crianças devem estudar, ser obedientes, não confiar em estranhos, e muitas outras lições. É inevitável vislumbrar nuanças religiosas na obra: Pinóquio é o estereótipo do pecador cristão. Sempre que escapa de uma das incontáveis encrencas em que está sempre se metendo, ele se arrepende profundamente, promete mudar e faz inúmeros compromissos de mudança de vida: agora vai ser um menino obediente, vai escutar seu pai, vai estudar etc. etc. Mas essa conversão não dura um minuto. Logo Pinóquio se mete em outra enrascada e logo se arrepende e esse ciclo parece não ter fim. Há sempre alguém dando uma segunda chance ao boneco: o grilo falante, a boa fada, seu pai Geppetto.

Meu filho percebeu essas lições por si só. Ao final de cada aventura ele me dizia: – Papai, a lição deste capítulo é essa, essa e essa, né?

Pinóquio é um clássico que não envelheceu. Suas lições também não deixaram de ser importantes: mentir traz consequências além do crescimento do nariz; não ir à escola podem não tornar você um burro no sentido literal, mas certamente vai complicar a sua vida. Independentemente da intenção da publicação, é certo que Carlo Collodi criou uma história divertida que todos deveriam ler.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

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2 Respostas para “Resenha – As Aventuras de Pinóquio – História de um boneco – Carlo Collodi

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