Resenha – Serena – Ian McEwan

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Quando vi Desejo e Reparação, filme dirigido por Joe Wright, fiquei completamente boquiaberto com o final. Ao descobrir que a película era a adaptação de um livro, senti uma pontadinha de tristeza: aquele final foi todo pensado, planejado, elaborado para ser lido, não visto numa tela de cinema. O impacto da descoberta é certamente muito mais intenso no livro que no filme, mesmo que este último não deixe de ter seus muitos méritos. Fiquei, desde então, aguardando ansioso o momento de ler Reparação, o que fiz no ano passado (escrevi aqui um post sobre o livro).

Tornei-me instantaneamente fã de Ian McEwan. Em Reparação ele manipula a história e os personagens como um habilidosíssimo artesão, e a reverência que ele demonstra com a literatura, a homenagem que ele faz ao poder das palavras são tocantes.

Após ler Reparação, li uma pequena novela do autor inglês, The Comfort of Strangers, da qual não gostei, conforme registrei aqui.

Agora chegou a vez de Serena, livro mais recente escrito por McEwan. Conta uma história que se passa nos anos 70, em Londres, e que mescla romance, literatura e guerra fria.  A protagonista, Serena Frome, é a jovem filha de um bispo anglicano que estudou matemática em Cambridge e acabou sendo recrutada para trabalhar no MI5, o serviço secreto inglês. Apaixonada por literatura (mesmo sendo uma “leitora dinâmica”) ela é selecionada, por conta disso, para participar de um projeto típico da guerra fria: para combater as ideias comunistas, o MI5 quer secretamente financiar autores talentosos que escrevam em favor do capitalismo. Em meio a algumas paixões, Serena envolve-se com o escritor que recrutou, Thomas Haley, e se vê no dilema de manter viva uma mentira justamente para aquele que ela julga ser seu grande amor.

Para quem já leu Reparação, como eu, é inevitável a sensação de déjà vu e e também inevitável “adivinhar” o final do livro lá pelo meio da história. Isso aconteceu comigo e tirou boa parte da emoção. Eu prosseguia curioso apenas para saber se eu realmente tinha acertado na mosca. E acertei.

Enquanto em Reparação o final é devastador, tirando seu chão, a impressão que tive é que Serena é a reparação de Ian McEwan para Reparação: talvez ele tenha achado que pegara pesado demais e quis fazer uma história de amor na qual o amor vence.

De qualquer modo, Serena é um livro interessante, bem escrito, cheio de literatura dentro da literatura e que vale muito a leitura, especialmente se você não leu Reparação. Mas não se trata (pelo menos não foi o meu caso) daquele livro que deixa uma marca. Tão rapidamente como li o livro (dois dias foram suficientes), sei que me esquecerei dele.

Apenas um acréscimo, por conta de uma daquelas coincidências literárias interessantes. Terminada a leitura do livro 1 de 1Q84 (sobre o qual escrevi aqui), fui à livraria comprar o livro 2 (sobre o qual também escrevi aqui). Comprei Serena por encomenda de um irmão para presentear outro irmão. Resolvi iniciar a leitura de Serena antes do livro 2 de 1Q84 para ler antes de enviar para meu irmão. Finda a leitura, parti para o livro de Murakami, que também terminei.

A coincidência? Os livros são incrivelmente parecidos na maneira como retratam a literatura. Vejam abaixo:

– Em ambos há um escritor talentoso à espera de uma oportunidade – Tengo e Thomas Haley;

– Os dois escritores recebem a encomenda de escrever alguma coisa que a princípio não é de seu interesse;

– Os dois recebem proposta de apoio financeiro para se dedicarem exclusivamente à escrita, mas essa proposta tem segundas intenções;

– Ambos fazem sucesso com o primeiro livro que escrevem;

– Em ambos os livros os autores recorrem ao expediente de inserir literatura dentro da literatura – em 1Q84, Tengo lê alguns contos para Fukaeri ou para seu pai e o narrador conta com detalhes a trama de A crisálida de ar à medida que Aomame lê o livro. Em Serena, a própria Serena lê três contos escritos por Thomas Haley e ocupa-se em analisá-los;

– Principalmente, em ambos os livros a literatura que os dois escritores – Tengo e Thomas Haley – produzem altera significativamente a própria realidade (de maneira distinta, mas inquestionável).

Eu fiquei tão intrigado com isso que fiquei pensando qual livro teria sido escrito primeiro, por imaginar que um dos autores tivesse “colado” a ideia do outro, o que não é uma hipótese muito boa, já que são grandes escritores que constantemente provam seu talento. De qualquer sorte, para meu alívio mental, Serena foi publicado em agosto de 2012, enquanto 1Q84 (que na minha opinião é bastante superior ao livro de McEwan) foi publicado no Japão entre 2009 e 2010.

Eu tornei-me fã de McEwan após a leitura de Reparação. Preciso confessar que após a leitura de The Comfort of Strangers e de Serena tornei-me um pouco menos fã.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.

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