Resenha – Nova Antologia do Conto Russo (1792-1988) – Organização de Bruno Barreto Gomide – Parte II

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Depois de ler O Zen e a Arte da Escrita, de Ray Bradbury, escrevi aqui que fiquei com muita, muita vontade de escrever. O problema é que não consigo parar de ler no meu tempo livro. Resolvi continuar a leitura da Nova Antologia do Conto Russo, da Editora 34. Seguem abaixo comentários sobre mais oito contos (para conferir os comentários sobre os oito primeiros contos do volume, clique aqui):

Viagem com um niilista (1882) – Nikolai Leskov

Um conto que a princípio poderia parecer bem datado por retratar uma situação política extrema vivida naquela época, mas que acaba se revelando bem atual:

Um grupo de homens viaja num trem noturno e, animados pela bebida, começam a conversar. Um deles, um diácono, alerta para o perigo que todos correm com os possíveis ataques dos niilistas (membros de organizações terroristas) vindos de qualquer lugar. Então aparece um homem que aparenta ser justamente um niilista e senta-se no vagão onde eles estão, a certa distância. No banco ao seu lado, uma mochila suspeita que ele se recusa a guardar no compartimento de volumes.

Os outros passageiros começam a imaginar mil coisas e a armar algumas formas de desmascarar o suposto niilista e prendê-lo na próxima estação, mas acabarão se surpreendendo.

Não figura entre os meus contos favoritos da antologia, mas vale bastante a leitura pela prova da atualidade da literatura e pelo estilo discretamente bem humorado do autor.

Abaixo um exemplo da prosa refinada de Nikolai Leskov, descrevendo a aparência do niilista:

Em suma, algo semelhante a um cabrito montês heráldico. Eu não digo um leão heráldico, mas precisamente um cabrito montês heráldico. Se estais lembrados, eles são representados, nos cantos dos brasões aristocráticos, da seguinte maneira: no meio, um elmo vazio com viseira, ladeado por um leão e por um cabrito montês, virados para ele e com os dentes arreganhados. A figura do segundo é toda inquieta e afilada, como se ‘felicidade ele não procurasse e da felicidade não fugisse’”.

Importante frisar que esta última parte, sobre a felicidade, é, segundo Nota do Tradutor, verso do poema “A Vela”, de Iúri Liérmontov, que não consegui encontrar de maneira nenhuma na internet.

Contos do major Gorbiliov (Primeira noite) (1884) – Mikhail Saltikov-Schedrin

Um conto curtíssimo e bastante interessante sobre um homem que jura que jogou cartas com o diabo.

O sonho de Makar (1885) – Vladímir Korolienko

Dessa segunda leva de oito contos que escrevi este é o meu favorito. Lembrei-me, enquanto lia, de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, sem a ênfase no humor escrachado. Nesta história, há uma dose de humor, mas ele é bem mais discreto. Não duvido, por sinal, que o escritor paraibano tenha lido este conto nalgum momento em sua vida.

O sonho de Makar conta a história de Makar, que, segundo o autor, é um daqueles homens para quem tudo dá errado. Ele vive – ou tenta sobreviver – na região siberiana, convivendo com gente grosseira e lutando a cada dia por um pedaço de pão e um litro de vodca diluída. Ele, como é comum à gente daquele lugar, está sempre pensando em vodca, mas seus recursos são limitadíssimos. Certa noite tem uma ideia para conseguir a bebida e sai de casa. Vejam que singelo diálogo dele com sua esposa:

 – Aonde vai, diabo? Quer virar uma vodca sozinho outra vez?

– Calada! Vou comprar uma garrafa. Amanhã beberemos juntos – deu-lhe uma palmada tão forte no ombro, que ela perdeu o equilíbrio e, ardilosamente, respondeu com uma piscadela. É assim o coração feminino: ela sabia que Makar sem dúvida a enganaria, mas cedia ao encanto do carinho do cônjuge.

Ele consegue a garrafa, mas, é óbvio, bebe sozinho. Volta para casa e recebe uns safanões de sua esposa. Resolve verificar, ainda durante a noite, umas armadilhas que preparara para pegar raposa. Tem uma briga com um vizinho desafeto e perde-se na floresta, sem gorro nem luvas, bêbado, cansado e tremendo de frio. Desfalece e tem a plena certeza de que morreu. Aí acontece a reviravolta no conto. Ele encontra o antigo pope da aldeia (uma espécie de padre, pelo visto) e este leva-o para seu julgamento. Makar teme, porque sabe que sempre foi meio trapaceiro, para tentar compensar as injustiças da vida.

Não vou adentrar muito mais no conto, mas a conclusão, com a autodefesa de Makar é tocante.

Acredito ser este até agora o meu favorito de todos os dezesseis contos que já li, não apenas pela temática religiosa, que muito me atrai, mas pelo poder da prosa do autor, que me transportou para a Sibéria e me fez tremer de frio, sentir o gosto amargo da vodca adulterada e temer pela sorte de Makar.

O inquérito (1894) – Aleksandr Kuprin

Outro conto muito belo e tocante. Narra a história de um julgamento militar. Um soldado é acusado de roubar as botas de outro soldado, além de alguns trocados. Sua punição, se condenado, será cem açoites. O subtenente Kozlovski, encarregado de conduzir o inquérito, é novato o exército não foi capaz de roubar toda a sua sensibilidade. Ele consegue a confissão do rapaz, mas choca-o o fato de o jovem não parecer ter consciência do que fez nem do que o aguarda.

O conto basicamente acompanha a angústia do subtenente com o desenrolar dos fatos.

Ariadne (1895) – Anton Tchekhov

Um homem conta a um companheiro de viagem seus infortúnios por ter se apaixonado por uma moça de extrema beleza, mas que é incapaz de um amor de verdade. Tchekhov consegue, em um conto, nos entregar três personagens vivos: Chamókhin, o moço apaixonado, um proprietário de terras que vive numa confortável condição financeira, Ariadne, a irmã de seu vizinho de propriedade, um aristocrata falido. Ariadne não aceita que não tem dinheiro e para viver conforme suas ambições manipula o jovem Chamókhin e Lubkov, o terceiro personagem, um homem casado e com filhos, que vive endividado, mas que sabe aproveitar a vida.

Chamókhin ama Ariadne, diz ele, há bastante tempo e ela sabe de seu amor, porém, por mais que a moça até demonstre algum esforço em corresponder o sentimento, não consegue amá-lo de verdade. Ele é um romântico que não sabe como lidar com os aspectos práticos do seu amor. Eis uma boa dica de como funciona o amor na cabeça do pobre Chamókin:

É claro que uma mulher é uma mulher e um homem é um homem, mas será que de fato tudo isso é assim tão simples em nossa época como era antes do dilúvio? Será que um homem culto, dotado de uma mentalidade complexa, deveria explicar sua atração pelas mulheres apenas pelo fato de que as formas do corpo dela são diferentes das formas do seu? Oh, como isso seria horrível! Eu prefiro pensar que o gênero humano, ao lutar contra a natureza, lutava também contra o amor físico, como contra um inimigo, e que se ele não a derrotasse, de qualquer maneira conseguiria enredá-la numa teia de ilusões de fraternidade e amor; para mim, ao menos, não se trata de uma projeção de meu organismo animal, como o de um cão ou de uma rã, mas o verdadeiro amor, e cada abraço é inspirado por um ímpeto puro e cordial e pelo respeito à mulher. De fato, a aversão ao instinto animal gestou-se ao longo de séculos, por centenas de gerações, tenho essa herança em meu sangue e faz parte de meu ser; mas se agora eu idealizo o amor, será que isso não é tão natural e aceitável em nossos dias quanto o fato de que minhas aurículas são imóveis e de que eu não sou coberto de pelos? Ao que me parece, assim pensam quase todos os homens cultos, de maneira que, hoje em dia, a ausência no amor de elementos morais e poéticos já é considerada como uma manifestação de atavismo; dizem que é um sintoma de decadência e de demência. É verdade que, ao idealizar o amor, nós presumimos que haja naquelas a quem amamos qualidades que frequentemente elas não têm, o que se torna para nós fonte de constantes erros e de constantes sofrimentos. Mas é melhor, creio eu, que seja assim; isto é, é melhor sofrer que conformar-se com o fato de que uma mulher é uma mulher e um homem é um homem.”

O conto é movimentado. Chamókhin e Ariadne mantém uma relação cheia de indiretas, mas que não se concretiza porque Chamókhin não identifica um verdadeiro sentimento de amor na moça. Lubkov aparece e movimenta tudo: eles acabam passando longas temporadas na Itália, gastando muito dinheiro e Chamókhin sofre, sofre, e vai percebendo como realmente sua musa é.

Um conto magistral e delicioso de ser lido. Não se poderia esperar outra coisa de Tchekhov.

Luz e Sombras (1896) – Fiódor Sologub

Este é um conto meio estranho, cheio de simbolismo. Conta a história de Volódia Lovlióv, um menino de doze anos que se encanta com um livrinho que ensina a fazer sombras com as mãos. O que parecia uma inocente diversão começa a atrapalhar a sua vida, a ponto de baixar as suas notas na escola. Sua mãe, que tenta demover o filho daquela obsessão com as sombras, acaba sendo hipnotizada por elas. Ambos pensam até em mudar de casa, mas em certo momento, Volódia diz à sua mãe:

“- Há paredes em todo lugar.”

Não é um conto que tenha me encantado, mas ainda assim foi uma ótima leitura.

O abismo (1902) – Leonid Andrêiev

Este é o mais chocante de todos os contos que li até agora. Veio imediatamente à minha lembrança o desagradabilíssimo filme Irreversível, de Gaspar Noé. Dois jovens belos, ricos e bem vestidos passeiam num bosque próximo à cidade, apreciando o entardecer. A luz é rubra e aconchegante, e ressalta a beleza e a pureza de ambos. No primeiro parágrafo o autor descreve esse crepúsculo com tal habilidade que me deixou sem palavras:

Em algum lugar ao longe, uma versta ou mais, o crepúsculo vermelho arrancou o tronco alto de um pinheiro e ficou ardendo no meio do verdor como uma vela num quarto escuro; o caminho à frente foi coberto por um ataque rubro, e agora cada pedra dele lançava uma sombra comprida e negra, e os cabelos da moça brilhavam em forma de uma auréola dourada e vermelha, atravessados pelos raios do sol. Apenas um fio de cabelo fino e crespo, separado dos outros, ondulava e esvoaçava no ar como uma teia de aranha.”

Os jovens estão apaixonados um pelo outro e cada momento ali é mágico, especialmente quando o jovem oferece a mão para ajudar a moça a atravessar uma parte mais acidentada do caminho. O toque dos dedos é suficiente para ambos divagarem e perderem em pensamentos cada vez mais românticos.

Este clima idílico, contudo, logo é quebrado quando eles percebem que o sol se pôs e eles estão ainda bastante longe da cidade. Na verdade, parecem estar meio perdidos. O moço tenta passar segurança para a jovem, mas eles começam a cruzar com algumas mulheres suspeitas, cuja proveniência ele conhece, mas de quem a pura moça nada desconfia.

Eles passam por três homens rudes que lançam para o casal – especialmente para a moça – olhares maldosos. O que se segue, apesar de não haver nenhuma descrição gráfica, é muito perturbador. Não sei se isso se dá justamente por eu saber que estou lendo um conto russo escrito há mais de cem anos, e toda essa forma de violência, tão banal hoje em dia, ser inesperada num cenário como o da história. Mas fico pensando o impacto desta narrativa quando ela foi publicada.

Fiquei curioso demais para conhecer mais da obra de Leonid Andrêiev. Não porque eu goste deste estilo de escrita, mas porque ele foi exitoso no seu objetivo: transportou-me para aquele bosque e enfeitiçou-me com aquele sol rubro para, logo em seguida, mostrar como são escuras as trevas.

Depois do baile (1903) – Lev Tolstói

Neste conto magistral, um homem conta uma aventura romântica que ele teve há mais de trinta anos. Ele era apaixonado pela filha de um militar e estava num baile na casa dela. Como no conto de Tchekhov (e em vários outros desta coletânea), o homem faz questão de ressaltar o que é estar apaixonado para um homem verdadeiramente civilizado e culto: não se trata do corpo, do desejo sexual, mas do encantamento, do mais puro dos sentimentos. Várienka, sua amada, encantava a todos naquele baile, e ele foi privilegiado por dançar a noite quase inteira com ela. Ele lhe deu uma pluma de seu leque, dirigiu-lhe sorrisos, olhares, retribuiu sua atenção. Ele foi para casa o mais feliz dos homens. Um momento em particular ficou gravado em seu peito: a dança de Várienka com sue pai, aquele militar empertigado e elegante, tão parecido com a filha, e que denotava dignidade a cada movimento da dança.

O jovem não consegue dormir ao chegar em casa, quando o dia já estava quase amanhecendo, e resolve sair para fazer uma caminhada. Chega até um campo militar, onde presencia o castigo de um soldado. Ele não sabe o que o soldado fez, mas tem consciência de que é muito provável que ele merecesse aquele castigo. Mas o que o chocou foi ver que quem conduzia com arrogância e crueldade a cena era o pai da moça, aquele cuja dignidade o impressionara horas atrás.

A força desta cena, narra o jovem, acabou matando o belo amor que ele nutria por Várienka.

E o conto termina sem uma conclusão mais veemente, tendo-me deixado um pouco atônito. Sem dúvida, um golpe de mestre de Tolstói, que sabe exatamente o que contar e o que não contar.

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