Semana Especial: Mergulhe em Neil Gaiman – Deuses Americanos – Resenha

banner_parceiros

De 26/06 até 03/07, a Editora Intrínseca está promovendo a semana “MERGULHE EM NEIL GAIMAN“, por conta do lançamento do aguardado O oceano no fim do Caminho, mais novo romance adulto do escritor inglês. O Catálise Crítica, parceiro da Intrínseca nesta semana, relembra uma das grandes realizações de Gaiman: Deuses Americanos. Quem lê esta obra-prima da fantasia quer mais é conhecer outras histórias que Neil Gaiman tem a contar. Por isso, convido você a ler a resenha abaixo e deixar seu comentário.

Quem comentar este post de hoje até o dia 03/07, às 23h estará concorrendo a um exemplar de O Oceano no fim do Caminho!

Isso mesmo! Quer ganhar o novo livro de Neil Gaiman? É só deixar seu comentário no final do post e esperar até o finalzinho do dia 03/07, quando será divulgado o resultado do sorteio.

Lembro apenas que comentar mais de uma vez não aumentará suas chances no sorteio. 😀

Chega de papo! Confiram abaixo a resenha sobre Deuses Americanos (publicada originalmente em 04/12/2012):

 

deuses-americanos-3-ed

 

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Neil Gaiman ficou famoso pela série de quadrinhos Sandman, mas seu portfólio inclui, além dos quadrinhos, roteiros de filmes, biografias de bandas (seu primeiro livro foi sobre a banda Duran Duran), crítica literária, contos e romances.

Deuses Americanos é seu romance mais premiado (venceu o Hugo e o Nebula, tradicionais prêmios na área de fantasia), e provavelmente é o mais ambicioso trabalho do escritor inglês.

A premissa é a seguinte: quando os Estados Unidos foram colonizados, os ingleses, irlandeses, poloneses, africanos, enfim, cada um dos povos trouxe suas crenças, seus deuses, suas superstições, que se encontraram com as crenças dos nativos. Na visão de Gaiman, a fé dessa gente os acompanhou de maneira personificada. Diversos deuses vieram da Europa, da África, da Ásia, onde eram adorados, para ser esquecidos aos poucos na América. Em seu novo habitat poucas pessoas lhes rendiam louvor, lhes ofereciam sacrifícios, lembravam-se de seus nomes em suas orações.Com isso os deuses foram se enfraquecendo. Eles, que vieram poderosos de seus antigos lares, agora viviam como os humanos, ganhando a vida, muitas vezes de forma miserável, com trabalhos algumas vezes honestos, outras vezes nem tanto. Acabaram engolidos pelo gigante americano, pelo monstro de tecnologia e eficiência, que despreza as tradições e cospe nos velhos valores. Os velhos deuses passaram a ver seus altares esvaziados, enquanto os altares dos novos deuses recebiam todo tipo de oferta. Surgiram assim os novos deuses, os deuses americanos: o rádio, a televisão, a internet, o jornal. Deuses ainda ébrios pelo poder recém-adquirido e que acham que não há mais espaço para os velhos deuses. Vislumbra-se, num horizonte perigosamente próximo, um confronto: o novo versus o antigo.

Gaiman possui uma prosa direta, simples, mas bastante elegante. Em sua narrativa há espaço para um humor requintado, para uma dose razoável de suspense e aqui e acolá algumas amostras de ação. Mas se há algo que me pareceu característico em Deuses Americanos é que não há urgência no seu modo de contar a história, mesmo considerando-se que dentre os fatos que ele narra, pode estar incluído o fim do mundo – ou algo parecido.

O centro da narrativa de Deuses Americanos é Shadow, um homem grande, bastante grande (característica que é percebida e lembrada por quase todos os personagens que cruzam seu caminho). O livro começa com Shadow prestes a sair da prisão e reencontrar sua esposa. Ele tem um pressentimento bem leve de que algo não está certo, de que aquela ansiedade para deixar a prisão, aquele sentimento de que finalmente sua vida vai recomeçar podem ser o prenúncio de que nem tudo vai dar tão certo assim.

Depois de uma série de surpresas, que é melhor não revelar por aqui, Shadow acaba trabalhando para um homem misterioso autodenominado Wednesday. Seu trabalho inclui pequenos golpes, dirigir, pegar algumas coisas pesadas, conversar com deuses… Durante essa jornada com Wednesday, Shadow tem conhecimento dos planos dos novos deuses e do que Wednesday, um dos antigos (é só verificar seu nome para ver quem ele é), planeja fazer em retaliação. Shadow encara com estranha e inesperada naturalidade todas essas histórias, inclusive os bizarros encontros com as mais diversas divindades. Um desses encontros, um dos mais interessantes, envolve um truque de prestidigitação com a lua e uma aposta arriscada num jogo de damas.

Como expliquei acima, Gaiman não tem pressa. Há um confronto por vir, e ele adianta algumas coisas, cria a expectativa de que logo veremos ação. Mas ele está preocupado em contextualizar. Às vezes interrompe a narrativa para contar uma pequena história que se passou há duzentos anos ou que se passou na noite anterior, a dois mil quilômetros de onde Shadow está.

Gaiman investe tempo para dar vida a Shadow. Nós o vemos criar e perder amizades, fazer boas ações, comprar pão, passar frio, negociar um carro, tomar uma cerveja, querer morrer, querer viver, rejeitar uma refeição… Em tudo isso, todavia, há um domínio narrativo. Percebemos que não se trata de “encher linguiça”. Gaiman tem tudo na mão. Sabe exatamente que história quer contar e como quer contá-la. A seguir um trecho que ilustra bem essa preocupação do autor, bem como o espírito da prosa do livro:

– Deixe eu falar uma coisa – disse o senhor Nancy. – Pode passar muito tempo até a próxima refeição. Se alguém oferece comida, você aceita. Eu não sou mais tão jovem quanto era, mas posso dizer… nunca perca a oportunidade de mijar, comer ou dar um cochilo de meia hora. Está entendendo?

– Estou. Mas não estou com fome mesmo.

– Você é grandão – disse Nancy, olhando nos olhos cinza-claro de Shadow com seus olhos velhos cor de mogno. – Um pedaço de mau caminho, mas eu preciso falar, você não parece muito inteligente. Você lembra meu filho, que é tão imbecil como se tivesse comprado sua burrice numa liquidação de dois por um.

– Se não se importar, vou considerar isso um elogio.

– Ser chamado de idiota como um homem que dormiu até tarde na manhã que estavam distribuindo cérebros?

– Ser comparado a um membro da sua família.

O senhor Nancy amassou a cigarrilha no cinzeiro, depois tirou um ponto de cinza imaginário de suas luvas amarelas.

O resultado é um livro cuja leitura é deliciosa. E se tudo parece sem explicação em alguns momentos, à medida que o livro vai chegando ao fim, vemos como tudo (ou quase tudo) se encaixa. Disse quase tudo porque a quantidade de ganchos é imensa. A impressão é que Deuses Americanos pode servir como a matriz de um gigante universo. O livro estabelece o cenário, o ambiente, e a partir daí Neil Gaiman pode trabalhar histórias quase independentes, sem ter que escrever um “Deuses Americanos 2”. Isso é tão verdade que Gaiman já fez isso. Em Coisas Frágeis, coletânea de contos publicada no Brasil em dois volumes, há alguns contos ambientados no universo de Deuses Americanos. Em Os Filhos de Anansi, Gaiman conta a história dos filhos de Anansi (ohhhhh!!!!!! É mesmo?), uma das divindades que aparecem em Deuses Americanos.

E por falar em deuses (a história é sobre eles, lembram-se?), é impressionante a quantidade de divindades descritas por Gaiman. O trabalho de pesquisa deve ter sido intenso, o que, aliado à fértil imaginação do escritor inglês, resultam em uma constelação de deuses que ocupam os mais diversos espaços. Apenas para citar um exemplo, a Rainha de Sabá é aqui uma deusa que trabalha como prostituta e encontra uma maneira mais do que original de ser adorada e de receber oblações e sacrifícios.

Deuses Americanos é um livro que diverte bastante. Apesar de longo, não há altos e baixos: a narrativa é bem construída e todo o processo de leitura é agradável. Depois de ter gostado bastante de Coisas Frágeis, consolido a opinião de que Neil Gaiman é um dos mais hábeis inventores de histórias fantásticas que conheço.

P.S.:  Uma notícia interessante que acabei de descobrir: A HBO está prestes a iniciar a gravação da série American Gods. Há diversos rumores, como um que diz que a previsão é de seis temporadas, mas o próprio Gaiman confirmou em uma entrevista bem recente que os últimos detalhes contratuais já estariam fechados e ele mesmo participaria da elaboração do roteiro. É só aguardar!

Minha Opinião:

5 estrelas em 5

Anúncios

15 Respostas para “Semana Especial: Mergulhe em Neil Gaiman – Deuses Americanos – Resenha

  1. Ainda não li nenhum livro dele (não me joguem nas fogueiras!), quem sabe agora seja a hora! hehe 🙂

  2. Deuses Americanos é Maravilhoso. Lembro de ter achado em um Sebo antes da reedição. Esse livro valia muito.. paguei no meu R$150,00. Melhor dinheiro investido em livro. Muito boa a resenha! Vc precisa conhecer um pouco de Mitologia para aproveitar o livro por inteiro! Show de bola!!

    • É como escrevi na resenha e não me canso de repetir: Deuses Americanos é impressionante de tão bom, imaginativo e viciante. A vontade que dá é que o livro não acabe, que vire algo como Game of Thrones, com quatro, cinco volumes. Obrigado pela visita, Julio. Volte sempre ao Catálise!

  3. Adora a imaginação do Neil Gaiman,por enquanto só li alguns quadrinhos do Sandman e Coisas Frágeis.
    O Oceano no Fim do Caminho já está na minha lista de desejados *.*

  4. Neil Gaiman é o cara. Sou muito, muito fã.

    Como comentei no ” livros com efeito UAL! ” , Deuses americanos , sem dúvida, foi um que me deixou, literalmente, paralisado… Neil já tinha me surpreendido com “Lugar Nenhum” ( primeiro romance que li dele ) e com seus contos ( macabros, nosenses e doces ) em “Coisas Frágeis”, mas DEuses Americanos, sem dúvida, é sua magnum opus.

    Foi através dele que conheci os quadrinhos e simplesmente fiquei vidrado na nona arte, Sandman é uma obra que indico a qualquer um, mesmo pra quem não lê quadrinhos. É um obra universal e atemporal.

    Espero muito que ganhe o livro , ficaria imensamente feliz 😀

    • Alguem aqui leu o “Belas maldições – as belas e precisas previsões de Agnes Nutter” com o Terry? Assustador tambem!!

  5. Ótima resenha! Fiquei com muita vontade de ler Neil Gaiman. Já tinha este livro em minha lista, mas não imaginava do que se tratava (e achei interessante a ideia dos novos Deuses!). Fiquei curiosa quanto ao Deus a quem o nome “Wednesday” se refere… Sou muito iniciante em mitologia, ainda…
    Espero mais resenhas de literatura fantástica!
    Torcendo para ser sorteada. 🙂

  6. O primeiro contato com Neil Gaiman foi através de Sandman. Sempre que eu procurava alguma HQ para ser, falavam nesse Sandman e eu me sentia péssimo em não saber do que se tratava, dei um googlada e baixei o primeiro arco da HQ, também vi que Neil Gaiman também tinha escrito alguns livros, mas não me interessei…
    Eis que virei um super fã de Sandman e comecei a pesquisar novamente sobre o autor e em uma bela promoção do Submarino, por 30 ou 40 reais… não lembro do preço… Comprei Lugar nenhum, Deuses Americanos, Sinal e ruído e Mr. Punch.
    Só tenho a dizer que Deuses Americanos é genial, li bem devagar, 75 paginas por dia, só para não gastá-lo rsrsr E quanto ao novo livro, já o li, não chega a ser como Deuses Americanos, mas Neil Gaiman é Neil Gaiman, o seu ritmo está lá, a sua sutilidade e a magia encarnada no universo próprio de Gaiman.

  7. Nunca ouvi falar ou li algum trabalho do Gaiman, mas lendo essa pequena crítica sobre “Deuses Americanos” me dispertou uma vontade imensa de lê-lo agora!!!! Mas, “conheci” Gaiman quando vi o livro “O Oceano no fim do Caminho”, a capa e a sinopse se encaixaram de uma forma que me deixou MUITO instigado. Preciso ler, agora! Já! HAHAHAHAHAHHA

    Além de ficar sabendo um pouco mais sobre Neil, de quebra achei esse sorteio. Espero ganhar para saciar esse desejo de Gaiman. 😛

  8. Adoro Neil Gaiman! Ele faz parte do meu ranking de divindades literárias. Já li toda a obra dele publicada no Brasil, quer dizer, quase toda, só falta “O oceano no fim do caminho”. Que venha para minha estante!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s