Resenha – A Hora da Estrela – Clarice Lispector

Livro_02

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O que é boa literatura?

Você lê As Crônicas de Gelo e Fogo e fica impressionado com a grandiosidade que George R. R. Martin conseguiu imprimir à história. Impressiona-o como o autor é impiedoso com os personagens: parece-lhe importar somente a história, e nada mais. Ao mesmo tempo, impressionam-no tantos personagens vivos, eletrizantes, empolgantes, como Arya, Tyrion, Cersey, Jon, Bran e tantos, tantos outros.

Você lê Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios e… nossa!, como Marçal Aquino sabe contar uma história! Com o que poderia ser um melodrama, o autor cria algo denso, envolvente, contagiante…

Você lê 2666 e fica boquiaberto com a pretensão de Roberto Bolaño. Quem ele pensa que é para escrever uma história tal que contém mil outras histórias que chegam e vão embora e que mesmo assim conseguem enfeitiça-lo?

Você lê Flaubert e entende o que é a perfeição. As palavras, todas no lugar mais adequado. Os fatos, segundo a ordem mais precisa. As motivações, os adjetivos, as vírgulas, nada poderia nem deveria jamais ser alterado (como eu lamento não poder [ainda] ler Flaubert em francês!).

Aí você lê A Hora da Estrela.

E aí você pensa… pensa… pensa…

Não, você não pensa. Você mastiga. Você sente sua fome literária ser saciada, uma fome quase atávica que você nem sabia que tinha.

Você abre os olhos e vê que os exemplos anteriores, para usar algumas comparações bem toscas, eram como… madeira. Flaubert esculpia lindas, maravilhosas estátuas de madeira, George R. R. Martin constrói cidades inteiras de madeira, Roberto Bolaño faz alguma coisa bela e inominável de madeira. Clarice Lispector produz árvores.

Outra comparação tosca: linguagens de programação. George R. R. Martin brinca com Java, Flaubert, com C++, outro, com Basic. Clarice Lispector cria os algoritmos.

É isso mesmo que quero dizer: é outro nível, é outra realidade.

Não é preciso ser um apaixonado pela literatura para ter ouvido falar de Clarice Lispector, basta ter uma conta no Facebook. Claro que você não vai conhecer Clarice Lispector assim. Eu sempre mantive uma distância meio calculada dessa moça. Dessa nobre senhora. Via e vejo tanta gente idolatrá-la e comprei até alguns livros, mas ainda não tinha lido nenhum. Fiquei tentado a comprar Clarice, (com vírgula no final), de Benjamin Moser, a muito elogiada biografia da autora. Mas não me atrevi, pois não conhecia sua prosa.

Ontem comecei a corrigir essa falha literária no meu currículo. Aproveitei um vácuo e li A Hora da Estrela, que deve ser um dos mais odiados livros da história do vestibular. Não sei aí, onde você mora, mas aqui em Sergipe, por muito tempo este livrinho constava nas listas da federal.

Comecei a ler meio desdenhoso, confesso. Como falei, muita Clarice Lispector no Facebook dá nisso. Não pode ser tanto assim, pensei.

Aí leio o título e a sequência de “ou” e acho meio exagerado. Aí leio a dedicatória e acho muito louco. Aí começo a ler e o primeiro parágrafo já me conquistou inequivocadamente:

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.”

E o segundo parágrafo, também:

“Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.”

E o terceiro ainda começa assim:

“Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.”

E eu comecei a ficar angustiado: como é possível se escrever assim?

O autor, o falso autor – Rodrigo S. M. – diz que vai contar uma história simples, e que tentará contá-la da maneira mais simples possível, apesar de ter que usar palavras.

“A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser mordenoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.”

É assim que sou obrigado a escrever esta resenha: reproduzindo trechos do livro. Ele todo é lapidar. Sabe aquele impulso que você tem de anotar aquela frase perfeita quando você está lendo. Eu sofro deste impulso. E resisti bravamente, porque o livro é todo impulso. Eu precisaria reescrever o livro inteiro no meu celular, o que comprometeria sobremaneira a minha velocidade de leitura.

Voltando – ou finalmente chegando – à história do livro, A Hora da Estrela conta a história de uma moça nordestina. Antes, porém, o autor intromete-se e revela que ele se sente tentado a usar palavras bonitas:

“É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudo substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação, já que palavra é ação, concordai? Mas não vou enfeitar a palavra pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e a jovem poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência. Limito-me a humildemente – mas sem fazer estardalhaços de minha humildade que já não seria humilde – limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela.”

Agora sim, a história: Macabéa é uma moça que perdeu os pais muito cedo, lá no sertão de Alagoas. Ela foi criada por uma tia beata que muito a maltratava. Depois da morte da tia, foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhará como datilógrafa, namorará um metalúrgico e verá uma cartomante ler que sorte grande a espera. Ah! E ela sente dor de dente.

Como Clarice Lispector descreve Macabéa? Leiam o parágrafo abaixo e digam-me se algo mais é necessário para criar/descrever alguém que vive, respira, sente dor:

“A pessoa de quem vou falar é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham.”

Macabéa desculpa-se quando o chefe anuncia sua demissão. Não espera nada da vida e não faz a ela mesma pergunta alguma. É assim porque é assim.

“Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha.”

Preciso terminar por aqui, senão o livro vai todo nessa resenha.

Um lembrete:

“Também esqueci de dizer que o registro que em breve vai ter que começar – pois já não aguento mais a pressão dos fatos – o registro que em breve vai ter que começar é escrito sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me paga nada, refrigerante esse espalhado por todos os países. Alias foi ele quem patrocinou o último terremoto em Guatemala. Apesar de ter gosto do cheiro de esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado. Tudo isso não impede que todos o amem com servilidade e subserviência. Também porque – e vou dizer agora uma coisa difícil que só eu entendo – porque essa bebida que tem coca é hoje. Ela é um meio da pessoa atualizar-se e pisar na hora presente.”

Ao mesmo tempo em que a narrativa de Macabéa é uma falsa história, um mero pretexto utilizado por Clarice Lispector para falar de literatura, essa falsa história nos prende e nos importamos com Macabéa.

Clarice Lispector constrói uma obra contundente, pela qual você não passará incólume.

Não odeia A Hora da Estrela por antecipação. Não queira encontrar nele uma historieta qualquer. É literatura em estado bruto, com cem por cento de pureza. Leia devagar, mas com pressa. Leia de uma vez, mas digerindo.

Macabéa era uma tola, disse o falso autor, mas chorou quando ouviu Una Furtiva Lacrima, cantada por Caruso. Que, influenciável que sou, estou ouvindo exatamente agora.

Encerro aqui o que queria dizer sobre A Hora da Estrela. Lembrei-me agora que já li Clarice Lispector. Quando tinha uns catorze, quinze anos, li, na escola, O primeiro beijo e outros contos e A Paixão segundo G. H.. Lembro de algo? Não. Preciso reler? Sem dúvida.

A Hora da Estrela é um bom livro? Para mim, é mais que isso, me desculpem aqueles que o odiaram porque tiveram que enfrentá-lo por conta do vestibular.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5.

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18 Respostas para “Resenha – A Hora da Estrela – Clarice Lispector

  1. Ler algum livro devido ao vestibular às vezes é tedioso. Já aconteceu comigo, precisei ler um tal de Capitães da Areia para uma prova, e detestei. Visitei o trapiche dos órfãos outra vez, por vontade própria, e me odiei por tê-lo odiado antes.
    Ainda não tive a oportunidade de ler A hora da estrela. Mas essa ótima resenha me convenceu.

    • Concordo plenamente com você escreveu, Jefferson. O que fazem (fizeram no meu tempo) com alguns grandes livros da literatura é imperdoável. Alguns livros, vide Esaú e Jacó, A hora da estrela, são obras que precisam de um momento espontâneo para serem lidos, e não uma imposição num momento tão doloroso e angustiante como é o período pré-vestibular. Parece ser de propósito, semelhante às técnicas utilizadas no filme Laranja Mecânica (ou no Admirável mundo novo): Como fazê-los odiar literatura?

      “Coloque como obrigação de leitura no vestibular!!!!”

      • Exatamente! Pensei que só eu achava que isso fosse proposital. Alimentam a aversão dos mais jovens por esses livros excelentes..enquanto algumas publicações/revistas/jornais formadoras de opinião exaltam algumas obras que querem se passar por material de qualidade. Talvez eu até esteja sendo radical, mas acho que é por esse trilho que o trem anda (ou tenta).
        P.S. Cara, citou Laranja Mecânica…adoro, tanto o livro quanto o filme! 😀

  2. Realmente, é um crime o que fazem com esta mulher maravilhosa com a Clarice, banalizando-a com citações, a ponto de assustar quem estava predestinado a amá-la. Tanto é que, ironicamente, já existe uma “Clarice não disse”, onde são parodiadas pseudo-citações da autora, imitando o seu estilo (risos), mas… Vamos a este livro.

    A HORA DA ESTRELA difere bastante do estilo lispectoriano. tanto é que seus fãs (eu incluído) não consideram este o seu melhor trabalho. Aqui, o que está em jogo é muitíssimo menos a trama de agruras da Macabéa que o ato de escrever, que as dúvidas da escrita, que tanto são caras a ti. Por isso, entendo este teu fascínio empolgado. É um livro excepcional. tenho-o em casa e sinto orgulho disso: o que fizeram com esta obra-prima ao recomendá-lo no Vestibular foi um verdadeiro desserviço literário!

    E, se quiseres seguir lispectoriando, consuma UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES. É o meu favorito dela, mas por motivos pessoais. Tu entenderás!

    WPC>

    • Eu tenho Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres e Laços de Família em casa, intocados. Não tardarei em desfrutar de ambos. E esqueci de comentar na própria resenha a reação paradoxal que tinha enquanto lia: o prazer de ler uma obra-prima e o “desgosto” de, eu, aspirante a escritor, ler algo que jamais serei capaz de realizar, quiçá emular.

      • Leonardo, você disse algo que eu também sinto. É meio frustrante pra mim -que também tento escrever uma coisa ou outra- ler uma obra prima…e saber que jamais conseguirei fazer algo do gênero. Mas como disse Tchekhov sobre Tolstoi, um dia…os máximos escritores já realizaram o suficiente por todo mundo que tenta escrever…isso não ajuda, mas enfim, kkkkkk.

      • É uma verdade, Jefferson. Toda vez que leio algo fora do comum sinto uma tristezinha… É a consciência de não ter, como escreveu a própria Clarice em A Hora da Estrela. Não ter o que? Simplesmente não ter…

  3. Confesso que tbm tenho preconceito com Clarice Lispector por conta do Facebook! Mas lendo sua resenha fica impossível não ficar morrendo de vontade de correr pegar um livro dela pra ler… Acho que terei que me livrar desse preconceito!!

  4. Que bom que gostou de Clarice! Ela foi uma escritora brilhante e singular, tinha uma personalidade incrível! É realmente uma pena o que fazem com ela (e com outros escritores incríveis) no Facebook! Lembro de uma época em que as pessoas publicavam textos água com açúcar no Orkut e diziam que o autor era Shakespeare! É rir para não chorar!

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