Resenha – A Quarentena – J. M. G. Le Clézio

Le_Clezio_A Quarentena

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Comprei este livro num sebo em Maceió, motivado por um impulso. É um livro robusto, da Companhia das Letras, e eu lembrava de ter visto o nome deste escritor entre os ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura. É o típico livro que eu jamais compraria pela internet ou numa livraria, mas ali, no sebo, por um preço bem camarada, pareceu uma boa oportunidade de conhecer um grande autor contemporâneo. Comprei e não tinha a intenção de ler tão cedo, haja vista a imensa lista de livros não lidos que tenho na minha estante (já falei sobre isto aqui). Por aqueles motivos que só a literatura explica, acabei decidindo furar a fila e conferir este livro “sobre o mar, um romance de aventuras, uma meditação sobre a natureza, uma fábula sobre a potência do amor”, como diz a própria contracapa da edição da Companhia das Letras.

Uma versão hiper-resumida do livro seria: Três jovens – Jacques Archambau, sua esposa Suzanne e seu irmão mais novo, Léon Archambau – deixam a Europa, no fim do século XIX, em direção a Maurício, no leste da África. No caminho, uma suspeita de epidemia (cólera ou varíola) no navio faz com que os passageiros sejam deixados temporariamente numa ilha próxima a Maurício, onde escravos indianos fazem o cultivo da cana-de-açúcar. Lá eles passam quarenta dias, o tempo necessário para ver se a epidemia iria matá-los todos ou se eles poderiam ser levados a Maurício sem correr o risco de levar a doença para lá. Estes quarenta dias, entretanto, parecem uma eternidade. Os imigrantes enfrentam a doença, a fome, o medo, a insegurança e enquanto o irmão mais velho, que é médico, luta para salvar o maior número possível de pessoas (incluindo a própria esposa), Léon descobre-se apaixonado por uma indiana chamada Surya, o que modificará toda a sua visão a respeito de seus objetivos e sonhos.

A história é narrada dia a dia, com paciência. Começa um pouco antes do embarque para Maurício, e ficamos sabendo que Jacques e Léon fazem parte de uma importante família de Maurício, os Archambau. Eles voltam para lá com o objetivo de tentar reconstruir os laços que foram quebrados há anos, quando houve um desentendimento entre o patriarca da família e o pai dos dois jovens. Quando ficamos sabendo da doença e acompanhamos o desembarque dos imigrantes na pequena ilha, a narrativa sai do foco de Jacques e começamos a acompanhar todos os passos de Léon. Ele é um grande observador, um jovem um tanto inquieto, que ama profundamente seu irmão e sua cunhada, a quem vê como uma espécie de mãe. À medida que a situação na ilha piora, com o passar dos dias da quarentena, Léon se vê numa situação paradoxal, já que conhece uma moça indiana – Surya – e fica profundamente apaixonado por ela, o que o leva, de certa forma, a amar aquele lugar que deveria ser alvo de seu puro ódio.

Le Clézio não tem pressa. Ele também não faz firulas. Não sei se poderia chamar sua narrativa de uma prosa “clássica”, pois isso poderia trazer uma carga pejorativa, mas o fato é que você lê com naturalidade. Não é preocupação do escritor franco-mauriciano apresentar um estilo inconfundível. Seu foco é a história que conta, ou melhor, a história dos seus personagens, tão vivos quanto é possível que personagens literários vivam.

Li em algum lugar, pesquisando sobre o autor, que é presença constante nos seus livros o tema sedentarismo versus nomadismo. Se de um lado temos Jacques, que passou toda a vida como nômade, e que agora está à procura de voltar ao seu lugar definitivo, suas raízes, em Maurício, do outro temos Léon, que não conhece a terra de seus pais e que se assusta com a possibilidade de se ver preso, sedentário.

Algo que é fundamental ressaltar em A Quarentena é o estranhamento que me causou o universo cultural em que se passa a ação. Século XIX, uma ilha ao lado de Maurício, onde vivem franceses, mauricianos, crioulos, hindus… Em diversos momentos eu ficava sem compreender bem a relação entre esses povos, e houve situações que não entendi bem mesmo findada a leitura. Tudo bem, os indianos de classe baixa, alguns intocáveis, praticamente escravos na ilha, trabalhavam no cultivo da cana-de-açúcar para uma empresa inglesa. Os irmãos protagonistas da história fazem parte de uma família nobre de Maurício, que na época era domínio francês, e onde também havia muitos crioulos. Mas em determinado momento Jacques, o irmão mais velho, orgulhoso de sua linhagem nobre, diz a Léon que seu amor por Surya seria impossível em Maurício, porque lá eles saberiam que Léon era um Archambau e não tolerariam que ele se relacionasse com uma indiana de classe baixa. Meus parcos conhecimentos de história não me permitiram estabelecer se havia similaridades entre o sistema de castas na Índia e a sociedade mauriciana.

O mais impressionante disso tudo? Mesmo com essa dificuldade cultura, a literatura vence! Ela fala um idioma único, acessível a um brasileiro do século XXI.

Confissão nº 01: se eu soubesse que A Quarentena narra uma história tal como a descrevi aqui, não teria comprado o livro.

Confissão nº 02: como eu teria perdido uma grande história, um belíssimo livro!

Ao terminar a leitura, lembrei-me daquela citação famosa e capitular de Graciliano Ramos, presente nas orelhas de seus livros publicados pela Record:

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

Assim é A Quarentena. Apesar de serem vários os momentos de contemplação, de reflexão, apesar de o autor descrever atos aparentemente banais – o ir e vir das vagas, mulheres pescando polvos, um biólogo colhendo e catalogando plantas – nada é gratuito, tudo tem por objetivo dizer. Le Clézio entrou para meu rol de grandes autores, e, vocês vão ver numa das minhas próprias resenhas, não perdi tempo e já conferi outro livro do autor.

A você que tem lido muita literatura “moderna”, e aqui me refiro a livros com linguagem mais ágil, violenta, abrupta, recomendo em especial A Quarentena (naturalmente, recomendo a todos). Dê um descanso à sua leitura, experimente uma prosa bem trabalhada, contemplativa, deliciosa, enfim.

Uma pequena amostra do que o espera:

“Eu sabia que o momento chegara. Era o momento mais importante de minha vida, sem saber era por esse instante que eu embarcara a bordo do Ava, que o comandante Boileau se dirigira a Zanzibar apesar da proibição, e que fôramos abandonados na ilha Plate. Nada era por acaso, assim eu o compreendia. Eu voltara à Quarentena, achara que tudo estava acabado, que não veria mais Suryavati. Logo retornaria ao meu mundo, a Maurício, ou à França. Aqueles dias e aquelas noites, a fumaça das fogueiras em Palissades, a água virgem da fonte, os gritos das crianças na aldeia, a música de Choto, a casa de Ananta, teria podido esquecer tudo. Teria podido tornar-me um Archambau, ter um escritório de negócios na rua Rempart, ir às corridas no Champs-de-Mars, apaixonar-me por uma moça do clube da Sinarquia, escrever poesias em Le Cernéen, artigos vingadores contra o Patriarca na Commercial Gazette, teria podido ser qualquer outro, indiferente, um filho de produtor de açúcar, neto de traficante de negros. Mas…”

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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3 Respostas para “Resenha – A Quarentena – J. M. G. Le Clézio

  1. Concordo com o primeiro parágrafo… e, sem ter lido minuciosamente os demais, para não estragar as surpresas vindouras, já me adianto em concordar com as tuas conclusões pessoais também. Deixar-se descobrir faz um bem danado: viva a Literatura que nos possibilita isso! (WPC>)

    • Quase não tenho dúvidas: este livro conquistaria você, Wesley. Sua narrativa hábil, seus personagens cheios de vida, a sensibilidade do autor, tudo é um convite para mergulhar na ilha Plate e vive a agonia e o êxtase daqueles quarenta dias. Está à disposição, se um dia quiseres conferi-lo.

  2. Pingback: Peixe Dourado – J. M. G. Le Clézio | Catálise Crítica

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