Resenha – O Polígono das Secas – Diogo Mainardi

POLÍGONO DAS SECAS

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Um dos males de que eu padecia quando, mais novo, redescobri meu amor pelos livros, ao ingressar na universidade e ter acesso à sua biblioteca, era uma quase compulsão no sentido de terminar um livro e começar a leitura do próximo. Basicamente eu queria acumular livros. Algumas vezes, isso parecia mais importante do que desfrutar o que aquele livro me oferecia. Isso, aliado à minha péssima memória, me levou a ter diversos livros na minha estante do Skoob marcados como lidos – sim eu realmente os li – mas sobre os quais eu não lembro de absolutamente nada. Nesta minha terceira fase de leitor, cada vez mais madura, tenho revisitado muitos desses livros. Algo que eu considerava quase um crime naquela época era reler. Eu via como um desperdício de tempo, já que eu poderia adicionar um novo livro ao meu “currículo” ao invés de rever uma história já conhecida. Algumas coisas mudam, e muitas vezes para melhor. Hoje me sinto impulsionado a reler muitos livros e posso rapidamente elencar três razões principais para isso:

– Eu sei que li o livro, mas não lembro nada a respeito dele;

– Eu sei que li o livro, mas não lembro nada a respeito dele, a não ser uma impressão muito forte de que ele era bom ou mau – deste livro ora resenhado, Polígono das Secas, não ficou sequer a lembrança do momento em que o li, apenas sei que me deixou positivamente impressionado na época – dez, quinze, talvez vinte anos atrás? Para citar um exemplo negativo, preciso reler A insustentável leveza do ser, que ficou registrado na minha memória como um livro de prosa menor, e sei que tal impressão deve ser falsa;

– Eu li o livro, lembro bem dele, mas preciso revisitá-lo – para ficar em três exemplos, cito O Processo, Meridiano de Sangue e, claro, O sonho de um homem ridículo.

Feita esta introdução, duas situações ficam bem claras para você, leitor: este texto é fruto da releitura que fiz do livro de Diogo Mainardi e da minha primeira leitura só restou a impressão de que o livro era muito bom.

Diogo Mainardi, você deve saber, costumava escrever para a Veja. Polemizador de primeira, tem como seu alvo predileto o ex-presidente Lula, aquele mesmo que disse que ler lhe causava azia. A impressão que Mainardi me passa em seus textos de não ficção e nas poucas vezes que o vi no Manhattan Connection é de arrogância. Ele é inteligente, isto é fato, mas é bastante agressivo e arrogante.

Informação um tantinho irrelevante 1: Tenho certeza absoluta de que quando li Polígono das Secas pela primeira vez, não sabia quem era Diogo Mainardi.

Informação um tantinho irrelevante 2: Recentemente li A Queda, um livro-relato de Mainardi, sobre a história de seu filho, vítima de um erro médico na hora do nascimento que resultou em paralisia cerebral. Gostei do livro, apesar de achar que o estilo de Mainardi se sobressaiu demais numa história por si só já bastante rica.

Tachei ambas as informações como um tantinho irrelevantes porque mesmo desgostando do ar arrogante de Mainardi (ainda que eu concorde com boa parte das suas posições políticas), eu releria o livro.

Agora, finalmente, vamos ao livro. Antes, porém, cumpre esclarecer o que é o Polígono das Secas. Segundo o sítio da Codevasf – Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, polígono das secas é:

“Um território reconhecido pela legislação como sujeito a períodos críticos de prolongadas estiagens. Recentemente as Áreas Susceptíveis à Desertificação –SAD, passaram a ser denominadas por força de convenções internacionais (Convenção de Nairobi), de SemiÁrido Brasileiro. Compreende os estados  do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e extremo norte de Minas Gerais e do Espírito Santo.”

O sertão nordestino: a seca, a fome, a morte, o sol inclemente, o sofrimento dos retirantes, as orações, os tipos – o jagunço, o cangaceiro, as benzedeiras, o vaqueiro, as carpideiras, as crianças esquálidas e famélicas – não há expressão artística brasileira que não tenha falado deste cenário: música, cinema, teatro, pintura e, claro, a literatura. De O Sertanejo a Essa Terra, são quase incontáveis os livros que abordam o polígono das secas.

O livro de Diogo Mainardi é mais um? Sim e não. Sim, porque se passa na região que lhe dá título – na verdade, descreve inclusive um itinerário que percorre o polígono das secas do começo ao fim; não, porque o objetivo do livro é destruir a literatura sobre o tema.

Isso mesmo, destruir. A cada personagem, Mainardi pega um dos tipos deste gênero literário, aborda-o a partir dos seus clichês e em seguida subverte-o. Assim, o sertanejo não é, antes de tudo, um forte. Ele se mostra fraco. O sertanejo não é aquele pobre sofredor que apanha, apanha da vida, mas mantém-se íntegro, reto, de moral inabalável. A luxúria, a cobiça, a mesquinhez, a preguiça, tudo isso é apresentado como inerente ao pobre homem com sede e fome, quase sempre divinizado na literatura regionalista.

O livro é bastante curto – 118 páginas – mas isso não impede o autor de abordar diversas histórias: um vaqueiro que carrega seu filho morto até o cemitério; um outro vaqueiro explorado pelo fazendeiro, um rico senador; um jagunço, matador profissional; um sujeito que por sua maldade inata se vê transformado em boi apaixonado; o untor, um homem que anda pelo polígono das secas procurando todas as Catarinas Rosas do sertão para matá-las com um unto amarelado.

Leiam o parágrafo a seguir, que abre o livro e que permite ver o tom zombeteiro que domina a obra:

“O homem está a caminho do cemitério, com o cadáver do filho nos braços, envolto num lençol. De tanto chorar, as lágrimas acabam por ofuscá-lo, de modo que tropeça numa pedra pontuda e rola desastradamente caatinga abaixo. Chama-se Manoel Vitorino. O nome do filho é irrelevante”.

O untor é a metáfora (altamente explicada pelo próprio autor) para sua “vingança” contra a literatura regionalista, que não é literatura, segundo a sua opinião. Para justificar a cruzada do untor, ele volta ao século XVII e conta a história de uma moça que levou um inocente a ser condenado à morte.

Nada faz muito sentido, naturalmente. Há um homem metamorfoseado em boi, há unguentos mágicos, que matam, algumas vezes, cidades inteiras, há jumentos quase imortais, enfim, o livro é uma grande brincadeira. Percebe-se como Diogo Mainardi divertiu-se tripudiando, no seu melhor estilo, a literatura regionalista.

Eu sou um fã confesso da literatura do ciclo das secas. São vários, vários os livros que já li sobre a temática e tenho uma penca deles entre os meus preferidos de sempre, dentre os quais destaco Vidas Secas e Essa Terra. Isso não me fez, contudo, desgostar do livro de Mainardi. Discordo do que ele disse, naturalmente, apesar de achar que nem ele mesmo acredita naquilo. É que ele gosta de polemizar e quer exibir seu talento em fazer isso. Polígono das Secas é divertido demais. Não demorei mais do que uma hora e meia para terminá-lo. Em determinados momentos, a falta de uma trama mais séria passa a impressão de que você vai cansar, mas aí o livro acaba antes que isso aconteça.

Se você desgosta de livros sobre o sertão, leia o Polígono das Secas. você vai se regozijar.

Se você gosta de livros sobre o sertão, leia o Polígono das Secas. Você vai se divertir.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.

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2 Respostas para “Resenha – O Polígono das Secas – Diogo Mainardi

  1. Pingback: Resenha – Em breve tudo será mistério e cinza – Alberto A. Reis | Catálise Crítica

  2. Você leu Urupês, de Monteiro Lobato? Muito antes de Mainardi, Lobato já jogava por terra a visão utópica do sertanejo/caboclo brasileiro.

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