Resenha – Peixe Dourado – J. M. G. Le Clézio

Capa_Peixe_Dourado

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Não são poucas as vezes em que lamento tão pouco tempo para ler tantos autores bons. Você nunca vai poder dizer: já li muito. Sempre aparecerá um espertinho – ou mesmo um desavisado – que citará um clássico indispensável, e você terá que admitir que não leu e ouvirá a inevitável pergunta: Como você viveu até hoje sem ter lido XXXXX?

Eu posso citar inúmeras lacunas na minha vida de leitor, e sei que muitos diriam que algumas delas não seriam simples tijolos ausentes numa parede, mas pedras angulares na formação literária de qualquer sujeito que se julgue amante da literatura. Querem exemplos? Nunca li A Odisseia nem A Ilíada. Nunca li Cem anos de solidão. Nunca li Paulo Coelho. Oops! Isso não é lacuna, isto é mérito. Agora, finalmente, a confissão: Nunca li Shakespeare. Apesar de ter as obras completas do bardo num único volume de capa dura, lindo, em inglês, ainda não coloquei à prova se a verdadeira adoração que Harold Bloom tem em relação àquele que julga “criador do gênero humano” é devida.

Por que tanta divagação para falar do segundo livro que li do escritor franco-mauriciano ganhador do Nobel de Literatura em 2008?

Quem leu a resenha que fiz de A quarentena (aqui), deve lembrar que eu comentei que comprei o livro por acaso, num sebo, e que não tinha a menor intenção de ler tão cedo. Li, gostei demais, e cá estou com mais um livro dele. Eu poderia passar toda a minha vida e não conhecer Le Clézio, como certamente vou passar a vida sem ter lido muitos, muitos autores geniais. Isso dá uma certa angústia, ao mesmo tempo em que me faz querer ser ainda mais criterioso ao escolher que livros ler.

Agora, finalmente, ao livro.

A premissa de Peixe Dourado me conquistou por antecipação. Conta a história de Laila, uma jovem raptada de sua tribo, na África do Norte, quando ainda tinha seis anos, e vendida a Lalla Asma, uma senhora que era ao mesmo tempo sua dona e avó. O nome do livro, Peixe Dourado, se refere ao um provérbio mexicano, que se refere a um pequeno peixe dourado (óbvio) perdido na imensidão do oceano, tendo que lidar com redes, armadilhas, tubarões…

Quando li a contracapa do livro, fiquei atraído imediatamente. Quantos livros eu já havia lido cuja protagonista era uma jovem africana negra ex-escrava? Nenhum, tenho certeza.

O romance é bastante movimentado, com momentos passados no Marrocos, na França, nos Estados Unidos. Acompanha Laila, uma jovem nômade em busca de um lar, de suas origens. Ela encontra várias oportunidades de se estabelecer, mas está sempre inquieta, insatisfeita. Suas raízes falam mais forte, e seu sonho é descobrir de onde ela veio.

Acompanhamos Laila enquanto criança, no Marrocos, até a morte de sua dona/avó. Depois de fazer algumas amizades suspeitas, ela decide ir embora para a Europa. São muitas as aventuras que Laila vive por lá. Conhece outros imigrantes africanos, professores, artistas, aventureiros como ela.

Não é preciso pensar muito para perceber que os dois livros de Le Clézio que li têm muito em comum, especialmente a temática nomadismo/sedentarismo. Além disso, são personagens de culturas diferentes – se em A Quarentena misturavam-se indianos, crioulos, mauricianos e franceses, em Peixe Dourado há Lalla Asma, judia, há africanos de diversos países, franceses, americanos.

Algo que eu preciso destacar em relação aos dois livros, com destaque para esta história de Laila, é a generosidade do autor. Le Clézio é talentosíssimo, não dá para discutir isso. Mas ele praticamente não aprece na história. Ele sabe que a história que ele criou é rica demais, e que seus personagens são vibrantes, vivos, que nós realmente nos importaremos com ele. Por que então aparecer com um estilo inconfundível, com uma prosa artificial, com frases de efeito?

Eu gosto demais de ler Cormac McCarthy, para citar um autor cujo estilo é bem seu e se sobressai às suas incríveis histórias. Mas ler uma prosa mais “pura”, concentrada nos personagens também é importante, leva-nos a prestar mais atenção nos pequenos detalhes da personalidade de gente como Laila, uma moça tão real que é muito fácil visualizar seu semblante triste quando sonha com sua terra natal.

Peixe Dourado é um grande livro, uma obra que não tem a pretensão de revolucionar a literatura. Não. Ela conta a história de uma moça. Uma bela história, tocante e singela, que envolve derrotas e vitórias e que é marcada pela saudade de um lar que talvez nunca seja encontrado.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5

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Uma resposta para “Resenha – Peixe Dourado – J. M. G. Le Clézio

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