Resenha – A Maçã Envenenada – Michel Laub

a maca envenenada - michel laub

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Dos tantos autores brasileiros recentes, penso que havia duas importantes lacunas no meu “currículo literário”, dois escritores bastante elogiados e cujos livros sempre me chamaram a atenção: Bernardo Carvalho e Michel Laub. Com este texto, começo a redimir-me.

A Maçã Envenenada é o primeiro livro que leio de Laub, mas certamente não será o último. É um livro curto, muito curto, curto demais para o meu “padrão inconsciente” de livros. 119 páginas. Mas é um livro de quem tem talento.

Aqui vão algumas premissas que, se satisfeitas, farão você gostar ainda mais da história:

– É ou já foi fã do Nirvana;

– Nasceu um pouquinho antes de 1980;

– Levou a sério, na juventude, de fora mais ou menos intensa, o velho lema “sexo, drogas e rock n’ rol”, mesmo que, efetivamente, não o tenha posto em prática.

Talvez por não eu não satisfazer nenhuma dessas condições, o livro não tenha me fisgado. A leitura acabou sendo impessoal, não ocorreu a identificação da história do narrador com elementos da minha própria história, o que tornou limitada a minha experiência literária.

Claro, leitor, você há de ter discernimento quanto a esta minha afirmação. Não vá me perguntar, por exemplo: “Se você só consegue se envolver com um livro se houver ligação pessoal com a história, como você pôde gostar tanto de A máquina de fazer espanhóis, uma história sobre um velho viúvo num asilo cercado por outros velhos discutindo ateísmo e a história política portuguesa, por exemplo”?

Simples, meu caro: não se trata de as histórias serem similares à minha história. Fosse assim, escritor nenhum faria sucesso, dada a quase infinidade de histórias distintas que seus leitores têm para contar. Fosse assim, um livro como Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, tecnicamente uma ficção científica, não teria me atingido num ponto vital, fazendo com que cada página se tornasse uma experiência tão pungente e ao mesmo tempo satisfatória.

Não se trata tão somente de coincidência de fatos, mas do espírito da história. Não se trata de dizer “isto também aconteceu comigo”, mas “isto bem poderia acontecer comigo, se eu vivesse no universo deste livro”.

Chega de enrolação! Vamos ao livro:

Um homem conta uma história que marcou a sua vida quando ele tinha dezoito anos. É a história do amor entre um rapaz fã de rock que tocava numa banda de garagem e uma moça meio louquinha, sua primeira namorada de verdade. Com ela, o rapaz descobriu o sexo e, por assim dizer, a vida. Mas não se preocupe: por mais que isso pareça clichê, Michel Laub não cai, em nenhum momento, no lugar comum, no fácil. Ele é um narrador bastante habilidoso e criativo.

Apenas para situar o leitor, A Maçã Envenenada é o segundo volume de uma trilogia que se baseia no impacto que grandes acontecimentos podem ter na vida de alguns indivíduos. Assim, toda a história deste livro gira em torno do suicídio de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana. Enquanto reflete a respeito do que pode ter significado esta tragédia, o personagem principal do romance vai lembrando do show que o Nirvana fez em 1993 no Morumbi, um show polêmico, que Kurt classificaria como o pior show de sua carreira. Por uma série de razões, ir ou não ir a este show tornara-se algo crucial na vida daquele jovem, que brigara com sua namorada e que se via em meio a dificuldades no exército, onde prestava o serviço militar obrigatório.

Anos mais tarde, quando nos conta a história, o narrador não se preocupa em seguir uma ordem cronológica, e aí reside talvez a maior força do livro, do ponto de vista técnico. Michel Laub tem o timing perfeito, sabe exatamente que tipo de informação liberar e quando liberá-la. É por isso que ora estamos lendo sobre detalhes da carreira de Kurt Cobain, para em seguida acompanhar o tempo em que o narrador morou em Londres, voltar no tempo, na época em que ele ainda estava no colegial e ainda ler sobre Immaculée Ilibagiza, aquela famosa moça que sobreviveu ao genocídio de Ruanda passando três meses escondida num minúsculo banheiro com outras mulheres.

Claro, em tudo há um sentido, e Laub tece com exímia habilidade esta história, e consegue (este é outro mérito) nos entregar dois personagens de verdade em apenas 119 páginas. Consegue também um final triste e plenamente condizente com o clima de todo o livro, numa demonstração de coerência que rima bem com a letra de Pitty:

“Eu estava aqui o tempo todo

Só você não viu.”

Derramei-me em elogios ao livro, e ainda digo que ele não me fisgou? Sim. Minha formação familiar, o universo onde cresci, os valores morais e religiosos que já tinha na adolescência não me permitem imergir nesse mundo, sentir as dores daquele garoto. Isso não me impede de dizer que A Maçã Envenenada é um excelente livro, um belo exemplar da literatura nacional contemporânea.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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4 Respostas para “Resenha – A Maçã Envenenada – Michel Laub

  1. Assim, de supetão, o livro não me pareceu cativante, mas estou espantado com a tua avaliação tão poitiva (apesar das justificativas divergentes, com as quais concordo, inclusive)… Ainda sou fã do Nirvana, o que me qualifica em pelo menos uma das premissas avaliativas. Este livro, portanto, será o próximo que pegarei emprestado contigo (risos) – WPC>

    • É mesmo estranho. O livro não me conquistou, pelos motivos que expus, mas é forçoso reconhecer que se trata de um escritor de grande talento contando uma história simples, quase um clichê adolescente. A diferença, o que me fez avaliar tão positivamente o livro foi a forma como a história é conduzida, como ele amarrou bem as referências, como, em tão poucas páginas, somos conduzidos pela vida da personagem e compreendemos o seu drama.

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