Resenha – A cidade, o inquisidor e os ordinários – Carlos de Brito e Mello

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Assim como ocorreu com o ótimo Em breve tudo será mistério e cinza, resenhado aqui, o que despertou a minha atenção neste livro foi seu número de páginas. Numa época em que os autores brasileiros parecem só escrever livros curtos, encontrar uma obra de ficção com 472 páginas não é trivial. Quando vi este livro no catálogo de lançamentos da Companhia das Letras, portanto, fui logo atrás de mais informações. Aí vi que o livro era “um auto moralizante de classe média no Brasil dos dias atuais”, nas palavras do próprio site da Companhia das Letras. Vi que se tratava de uma sátira dos costumes. Resolvi conferir. E A cidade, o inquisidor e os ordinários se revelou um dos mais interessantes livros que li este ano. Algo diferente de tudo que eu já havia lido até então.

Um inquisidor, o Decoroso, chega a uma cidade e começa a julgar seus cidadãos. Seu alvo, porém, não são os criminosos comuns – ele nem se importa com estes. O Decoroso busca os bobos, aqueles que agem sem decoro ou postura. Aquele sujeito que passa o dia todo dentro do apartamento, de cueca, deitado numa cama vendo TV, que deixa a casa bagunçada, e que, na visão do Decoroso, contribui para o aniquilamento do tecido social daquela cidade. Este é o alvo da inquisição. Para localizar os bobos e transmitir a mensagem decorosa, o Decoroso conta com dois auxiliares: o Olheirento e o Apregoador. Um olha, o outro apregoa. Ambos, irmãos, estão pendurados no alto de um prédio, cada um na ponta de uma mesma corda, num equilíbrio precário. E por falar nisso, a punição aplicada aos bobos é dependurar-se do alto de um prédio, de uma antena, enfim, de algum lugar de onde o infrator possa ser visto.

A cidade, o inquisidor e os ordinários é um auto, uma espécie de composição teatral surgida na Idade Média que contém elementos cômicos e intenção moralizadora. Os elementos cômicos estão o tempo inteiro presentes no livro. Quanto à intenção moralizadora, o autor brinca com isso, já que tanto o olheirento quanto o apregoador são, em certa medida, bobos, o mesmo podendo ser dito em relação ao decoroso.

Enquanto busca novos culpados, o Decoroso preocupa-se em vestir-se de maneira impecável, como convém a alguém da sua posição. Também se preocupa com a Impostora, uma mulher que vive disfarçada e se recusa a aceitar a sua autoridade, tendo sempre nos lábios uma tirada provocativa. Estranhamente, o Decoroso não pune mulheres. Seu alvo são somente os homens bobos.

Outro ponto de destaque na trama é que o próprio Decoroso faz questão de ressaltar que aquela não é uma Inquisição religiosa. Deus – ou o Destinatário, como eles preferem chamar – é visto como alguém que pode até existir, mas que há muito ou perdeu seu poder ou simplesmente não liga mais para a humanidade, jamais atendendo as suas preces.

Por se tratar de um auto, não há uma narrativa estruturada de forma clássica. As ações se desenrolam por meio de discursos de diversos personagens. O Decoroso diz o que faz, o Olheirento diz o que vê, o Apregoador apregoa, a Impostora faz algum comentário jocoso, o Bem Composto, o alfaiate, comenta sobre o privilégio que é fazer a toga para o Decoroso, a Bem Amada diz como vive feliz seus dias e assim sucessivamente.

Pode até parecer enfadonho, mas Carlos de Brito e Mello é muito talentoso para compor esses discursos. Vejam o longo trecho abaixo, no qual o Decoroso descreve seu próprio corpo:

“Tenho o corpo que deve ter um legislador justo: magro, firme; nem muito alto, nem muito baixo; cabelos negros repartidos de lado; pele pálida e maciíssima; nenhum pelo no peito; nenhuma barba; orelhas pequenas; olhos cuja cor não se pode bem distinguir porque eu os mantenho quase sempre apertados, como a querer ver com mais acuidade, e encobertos por um leve e incriminador inclinar de cabeça; expressão superciliosa; tenho nariz fino; lábios finos; testa majestosa; queixo pronunciado; dentes limpos de creme dental e das minhas palavras de justiça; dedos das mãos compridos, para apontar bobos; dedos dos pés igualmente compridos; nádegas módicas; pênis augusto; bolsa escrotal proporcional; pernas rijas e sem cicatrizes de tombos e escalavraduras infantis; pés harmoniosos e de planta limpa, sem calos. O único traço de minha aparência que destoa do conjunto dos meus muito adequados atributos de decoroso inquisidor são as minhas bochechas: a despeito de tudo mais ser reto e continente, sou bochechudinho.”

Esta passagem revela o estilo que impera na obra: um bom humor sempre fino, mas ao mesmo tempo bobo.

E olhem só o que o Decoroso diz de um bobo:

“Eis mais um que desmerece os esforços do primeiro macaco a descer de uma árvore e aplicar-se no andar ereto. Ele desrespeita a civilização e me desrespeita. Se essa sua noiva fosse uma espécie mais nobre de Eva, ela não lhe daria uma maçã do pecado, mas uma banana.”

O elemento religioso permeia todo o livro, a despeito da natureza não religiosa da inquisição. Em determinado momento, um personagem chave escreve:

“Não quero ser um valentão contra o Senhor. Quero ser um medroso, um fraco, um pidão, um filho. Seja o Senhor, pois, o valentão, o forte, o concedente, o papai: chute a porta da minha casa, aponte-me o dedo na cara, estapeie-me; empurre-me no chão, escarneça de mim com impiedade sobrenatural; cuspa em mim; arraste a minha pele macia e cuidada até estragá-la na lixação do pior piso desta cidade; trate-me por réprobo, por bastardo e, depois, por querido, por dileto. Some a minha aniquilação à dos amados que o Senhor aniquilou ao amar; então venha me colher como a uma frutificação que, machucada pela mão imensa e brusca do coletor, ainda pode ser comida com alguma delícia.”

Ou esta outra, ainda mais significativa:

“Antes tivéssemos cometido muitos e mais violentos atos imorais, suficientes para que o Senhor nos molhasse com enxofre, numa chuva punidora que mereceríamos por termos descumprido o pacto que nos reunia sob uma mesma lei e sobre uma mesma praça. O Senhor acha que somos bonzinhos? Nós fazemos muitas coisas erradas: praticamos adultério, subornamos guardas, mentimos para o patrão. Venha nos constranger, Senhor! Venha nos humilhar! Venha nos afogar com dilúvio. Venha queimar este torrão municipal com pingos de incêndio, numa grande queimação de reprimenda! Venha nos danar, Senhor!”

O que pensar disso tudo? O que pensar do livro? Trata-se de uma crítica divertida às nossas pequenas e grandes hipocrisias. Religiosidade, respeito humano, ditadura do politicamente correto, superstições, alienação, mentiras, traições, manipulação… Tudo isto está presente neste livro.

Quer tentar algo diferente? Pra mim, pelo menos, A cidade, o inquisidor e os ordinários foi uma leitura diferente de tudo o que eu havia lido nos últimos tempos. Bom por isso, e bom pelo valor em si: é uma história rica, de leitura fluída e que me fez correr atrás do primeiro livro de Carlos de Brito e Mello, A passagem tensa dos corpos.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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3 Respostas para “Resenha – A cidade, o inquisidor e os ordinários – Carlos de Brito e Mello

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