Resenha – O Drible – Sérgio Rodrigues

drible

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Há um bom tempo acompanho os blogs Sobre Palavras e Todoprosa, de Sérgio Rodrigues. No primeiro, ele fala sobre língua portuguesa, desvenda origens de palavras, surgimento de expressões etc. No segundo, fala sobre literatura. Gosto do jeito que ele escreve, e com frequência concordo com suas opiniões.

Há algum tempo descobri que ele é escritor, quando encontrei, num sebo em Brasília, “O homem que matou o escritor”, uma coletânea de contos e seu livro de estreia. Não gostei muito do que encontrei.

Quando soube do lançamento de O Drible, fiquei curioso. Li algumas notícias auspiciosas a respeito do livro e decidi conferi-lo.

O Drible narra a história do relacionamento complicado entre um pai – Murilo Filho, um dos mais respeitados cronistas esportivos do Brasil, comparável a Nelson Rodrigues – e seu filho – Murilo Neto – que viveu sempre à sombra do pai e hoje é um solteirão que vive de escrever baboseiras e de revisar livros religiosos e de autoajuda.

Murilo Neto odeia seu pai (motivos para isso não faltam, vamos descobrindo ao longo do livro). Depois de um longo tempo sem manterem contato, o pai procura-o para informar que está com os dias contados, por conta de uma doença. Começam então a ter encontros constrangedores, já que há inúmeros assuntos que Neto gostaria de abordar, mas não tem coragem. Ele acaba indo ao encontro do pai porque imagina que o velho vai tentar se desculpar por tanta sacanagem que fez com o filho ao longo da vida. Enquanto pescam ou comem salgadinhos, entretanto, Murilo Filho insiste em falar de futebol. Fala do famoso drible de Pelé no goleiro Mazurkiewicz, do Uruguai, na copa de 70, fala de Mário Filho e de Nelson Rodrigues, mas, principalmente, fala de Peralvo, um negrinho da cidade mineira de Merequendu (mesma cidade onde nasceu Murilo Filho), que teria sido maior que Pelé, não fosse uma grande tragédia que interrompeu sua carreira.

O livro vai, assim, alternando episódios da vida de Murilo Filho (sua infância em Merequendu, o início da sua carreira jornalística), de Murilo Neto (seus relacionamentos frugais com caixas de supermercado ou de farmácia, sua participação numa banda de rock de relativo sucesso na época de sua adolescência) e a história de Peralvo, sobre quem Murilo Filho escreveu um livro.

O Drible passa boa parte de sua narrativa instigando o leitor a se fazer várias perguntas: qual o envolvimento de Murilo Filho com a ditadura? Ele era realmente um delator? Por que pai e filho se odeiam tanto? Qual a tragédia que ocorreu com Peralvo?

É um livro que vai “soltando” diversas pontas, de maneira proposital, criando uma grande expectativa pelo desfecho da história. Afinal, tudo vai se resolver ou não?

Aí reside o grande trunfo de O Drible. O final é surpreendente e muito satisfatório. Tudo se encaixa, tudo se explica.

Quando você finalmente saca o que vai acontecer (faltando duas ou três páginas para o final), você pensa: “Caramba!!!!!”

Sérgio Rodrigues mostrou-se habilidoso na hora de compor a narrativa – os episódios que citei anteriormente aparecem no momento certo, e você vai sabendo o suficiente a respeito de cada personagem do livro. Mostrou-se habilidoso no tocante ao “mistério” – apenas no final do livro revelou o grande acontecimento, dando um drible no leitor, isso sem deixar pontas soltas.

Apesar disso, não gostei tanto de O Drible. Ao final da leitura, tentava identificar as razões para isso. A priori, pensara apenas em uma: o estilo de Sérgio Rodrigues não me agrada. E que estilo é este? Aí reside um problema: não sei dizer. O que sei é que a leitura não flui, parece travar. Há um ranço, como se, para brincar com o tema do livro, eu jogasse em grama sintética, e não grama natural. Não fiz uma análise, naturalmente, mas a impressão que tinha enquanto lia era de que havia excesso de orações subordinadas adjetivas explicativas e restritivas. Frases como “Fulano, que faz isso, mas que sempre gostou de dizer isso enquanto pensava aquilo” ou “o fulano que faz isso é sempre inferior ao fulano que faz aquilo” e que deixam o texto arrastado. Como dá pra perceber, esta talvez seja uma crítica totalmente injusta, porque subjetiva.

Mas não é só isso, pensei. Aí lembrei-me de O homem que matou o escritor, cujos contos estão sempre centrados basicamente no mesmo tipo de personagem – escritor de meia idade frustrado/fracassado/ressentido – e encontrei a outra razão:

Murilo Neto não é um personagem que me conquistou. Um escritor fracassado, vivendo uma vida de solteirão, amargo, reclamando da vida, cínico e incapaz de construir um relacionamento… Já vi isso em algum lugar. Por mais que a trama seja bem feita, por mais que o livro aborde temas interessantes, não consigo me importar com Neto, ele não deixou de ser, em nenhum momento, um personagem de um livro.

Lembrei-me agora da leitura (ainda não finalizada) de um livro bastante elogiado: Angústia, de Graciliano Ramos. Passei um pouco da metade e também não consegui gostar do livro, apesar de reconhecer seus méritos. Motivo? O personagem principal é um cara invejoso, ressentido, recalcado, mentiroso, covarde, desonesto, enfim, uma miríade de defeitos que o tornam desinteressante para mim.

Faltando dez páginas para o final, meu cérebro me dizia: este é um livro duas estrelas, segundo meus critérios de classificação. Quando li o desfecho, percebi que valeu a pena ter ido até o final, por isso subi uma estrela. O Drible é um livro que não funcionou muito bem pra mim, mas preciso reconhecer que tem seus méritos.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.

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