As Wesleyanas 1

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Texto escrito em 04/10/2013

De pé, os cotovelos apoiados no balcão, aguardo a reprodução de três livros que, a despeito do gosto acre, terei que devorar com volúpia nos próximos vinte e nove dias. Ao meu lado, uma mulher de trinta anos que a) cabelos pintados e escovados, b) maquiagem impecável (porém levemente exagerada para aquela hora da manhã), c) calça jeans e blusa básica preta (uma improvável manifestação de discrição) e d) quantidade de beleza estritamente suficiente para não ter seu nome colocado na coluna “feias” em caso de ser entrevistada por um recenseador politicamente incorreto não escondem seu ar ordinário briga pelo telefone com o irmão. Ela censura-o por ter ido levar, na noite anterior, depois de horas de bebedeira, uma moça que ele nem estava comendo até o outro lado da cidade, correndo risco desnecessário. Aproveitava a ligação para justificar-se: apesar de ter dito horas atrás, com todas as letras, que queria que o carro virasse e ele morresse enquanto embarcava naquela aventura, ela amava o irmão, de verdade, e ele sabia muito bem disso. Ela também esperava a cópia de um livro, e usara o nome de uma professora para tentar apressar o funcionário.
Atrás de mim, uma bela moça negra de cabelos sou negra sim, com orgulho, espanta-se com a amiga, que está tão mais magra, meu Deus!, que magreza é essa!, ao que a moça responde alto, para que todos na fila escutem, que esteve internada, repete, esteve internada, mulher! Primeiro com uma crise de gastrite, depois com uma gripe que se aproveitou de sua debilidade. Ambas lamentam as provas que hão de vir.
Cercado por alunos, lembrei-me de uma cena ocorrida um pouco mais cedo: rumo à universidade, parei numa prosaica padaria de subúrbio, onde ajudantes de pedreiro e outros trabalhadores revezavam grandes pedaços de pão com manteiga passados na chapa e risadas sonoras, provocadas por lembranças da noite anterior – alguns recordavam a cachaça que haviam tomado, outros o time que ganhara, outros ainda, com um leve ar de quem faltava com a verdade, as mulheres que haviam comido. Enquanto comia o meu pão com requeijão, que eu revezava com goles de suco de laranja, chamou a minha atenção um estudante com farda do IFES que estava sentado sozinho, com uma apostila numa mão e uma latinha de cerveja na outra. A perna cruzada, o óculos de aro grosso, o cabelo comprido e meio desgrenhado, tudo aquilo compunha uma cena por demais afetada. Ele praticamente gritava “Eu sou um jovem intelectual incompreendido no meio de selvagens, mas não dou a mínima para essa merda!”. Pareceu-me um homossexual que estava ali apenas para atrair a atenção daqueles homens grosseiros, mesmo que fosse uma atenção belicosa. Mas esta é só uma impressão preconceituosa minha, caro leitor, não lhe dê a menor atenção. O que recordei, aliás, nem foi esse pensamento meu, mas o que ocorreu logo depois de eu ter notado o jovem: o funcionário da padaria, um sujeito de pele negra e ar zombeteiro, olhou para mim rindo e fazendo sinais a princípio ininteligíveis. Fiz uma expressão “que é que há?” e ele aproximou-se um pouco, o sorriso safado ainda nos lábios. Indicou discretamente o rapazola a quem me referira e sussurrou:
– Olha ali: como gosta de estudar aquele…
Fiz-me de desentendido e perguntei se poderia ir direto ao caixa pagar a conta ou se ele me entregaria uma ficha listando o que eu havia consumido.
Avanço um pouco no tempo e já deixei a UFS. Passo por um carro de polícia, uma caminhonete. Na caçamba, um policial de pé apoia-se com a mão esquerda no estribo e segura um fuzil na mão esquerda, apontado para o chão. À sua frente, sentados no chão, dois delinquentes sem camisa. Pelo aspecto pueril, podem ainda ser menores. Enquanto ultrapasso o carro, um dos adolescentes, o cabelo artificialmente louro, encara-me com a boca semiaberta, quase sorrindo. Drogas, penso. Ódio, penso. Alívio, penso.
No sinal, fico feliz por não ter sido abordado por nenhum daqueles meninos malabaristas.

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3 Respostas para “As Wesleyanas 1

  1. Lembro que, à época, fiz algum comentário sobre o conteúdo, já que, este tipo de formato obriga-nos a comparações morais ou identitárias. No caso em pauta, os medos são diferentes, as irritações são diversas. Mas o estilo confessional, em fluxo, me agrada bastante. O que não implica necessariamente numa “não-ficção” (risos). Gosto muito desse tipo de texto, disse-te antes e repito agora. (WPC>)

  2. Relendo o texto, a interpelação justificativa acerca do julgamento de valor sobre o rapazola afetado talvez fosse desnecessária: particularmente, nesse tipo de texto, a ausência de “metalinguagem” torna a coisa mais intensa, seja quando dramática, seja quando engraçada, seja quando tudo se mistura… Como é o caso, penso! (WPC>)

    • Digamos, Wesley, que o texto foi calculado, mas nem tanto. Lembro que me dei conta de que naquele dia em especial, em que fugi à rotina casa-deixar crianças e esposa na escola-trabalho-pegar crianças e esposa-casa-trabalho-casa, me dei conta de que a soma de diversos pequenos fatos poderiam ter algum valor. Jornalístico? Literário? Não sei bem. Sei que senti-me compelido a escrever e assim o fiz. A divagação não foi caso pensado, foi exatamente (ou quase exatamente) como apareceu no papel. Não sei bem o que me levou a escrever o mea culpa, mas uma vez posto no papel (no computador, de fato), não achei conveniente tirar.

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