Resenha – Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo – David Foster Wallace

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Creio que a primeira vez que vi o nome de David Foster Wallace impresso na capa de um livro foi numa edição de The Pale King. Devo inicialmente ter me interessado pelo título por imaginar que se tratasse de um livro de fantasia medieval, ideia que logo se mostrou equivocada. Provavelmente, ao pesquisar sobre o autor, descobri que ele deixou uma obra-prima – Infinite Jest – e que era aclamado como um dos grandes romancistas americanos das últimas décadas. E que, infelizmente, cometeu suicídio em 2008, o que contribuiu sobremaneira para elevá-lo ao posto de um autor “super cult”.

Deixei-o de lado, afinal, seus livros ainda não haviam sido traduzidos para o português. Enquanto sua obra-prima trata-se de um livro imenso (1104 páginas), The Pale King, um romance inacabado, não me atraía.

Quase dois anos se passaram e vi que a Companhia das Letras lançou uma coletânea de ensaios do escritor americano, esta ora resenhada. Quando fui pesquisar sobre os ensaios, não me animei. Acabei cedendo à curiosidade e pedi o livro por conta da parceria com a editora, mas estava certo de que seria apenas “uma leitura para colocar no meu currículo”. Eu não gostaria do livro. Lembro de ter lido que David Foster Wallace era comparado a James Joyce e mesmo a Thomas Pychon, por conta de sua escrita intrincada e quase inacessível. “Deve ser um pedante, um arrogante”, pensei. O título do livro já não ajudava. Que jogo de palavras mais esnobe este “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”!

Aí lembrei da figura do escritor – sua cara de cantor de banda de rock, seus quase dois metros de altura – e tive certeza: este é um livro que vou me arrastar muito pra ler. Vai ser difícil vencê-lo.

O primeiro ensaio é aquele que dá nome ao livro. David Foster Wallace foi convidado por “uma revista classuda da Costa Leste” a cobrir a Feira Estadual de Illinois, uma daquelas feiras tipicamente do interior americano, onde caipiras competem para ver quem tem a vaca mais enfeitada, a maior abóbora ou quem faz o mais estranho bolo de cenoura. Tudo isso em proporções épicas, claro. Wallace assume desde o início que aquele será um trabalho pobre enquanto jornalismo, mas que mesmo assim ele tentará entregar algo de interessante.

Demorei um pouco a engrenar, mas fui me acostumando ao seu humor fino e às suas frequente autocríticas. Wallace não tem mesmo pena de si, e não usa isto como recurso literário. Adianto aqui que de tudo o que me chamou a atenção nos seus ensaios, foi a sua sinceridade o que me conquistou. Nestes ensaios, você realmente consegue ouvir a voz do autor.  Ele fala das suas limitações, das suas fobias (muitas, incluindo uma inédita “semiagorafobia”), das suas neuras. Tudo com muito bom humor.

Sua capacidade de descrever é notável, e muito contribui para que os ensaios sejam uma leitura deliciosa:

 “Outro entupidor de artérias: Orelhas de Elefante. Uma Orelha de Elefante é uma extensão de massa frita em óleo do tamanho de uma capa de LP, besuntada com uma camada generosa de manteiga açucarada com canela, uma espécie de torrada de canela do inferno, moldada realmente de fato como uma orelha, surpreendentemente apetitosa, no fim das contas, mas enjoativamente macia, com a textura de uma carne adiposa e de inegáveis proporções elefantinas – ninguém além dos obesos mórbidos faz fila para comprar as Orelhas.”

Descrevendo algumas crianças:

“Os proprietários das vacas são crianças de fazenda, crianças profundamente rurais de municípios nos confins do mundo, tais como Piatt, Moultrie, Vermilion, todos campeões de Feiras Municipais. Estão compenetradas, nervosas, infladas de orgulho. Trajes rurais. Cabelos bem curtos, cor de palha. Elevado número de sardas per capita. São crianças notáveis por um certo tipo de mediocridade rockwelliana clássica dos Estados Unidos, produto de dietas balanceadas, trabalho árduo e sólida educação republicana.”

Claro, o principal neste ensaio e no seguinte – sobre um cruzeiro – é o que ele escolhe nos contar, os detalhes que seu olho crítico não deixa escapar. Na feira, nós o acompanhamos em visitas a porcos, cavalos, ovelhas, no grande espaço de alimentação, com filas quilométricas e, principalmente, nos brinquedos que proporcionam “Experiências de Quase-Morte”, algo completamente incompatível com a sua natureza:

“Para mim é como pagar para se envolver num acidente de carro. Não entendo qual é o sentido; nunca entendi. Não é uma coisa regional ou cultural. Acho que é uma questão de constituição neurológica básica. Acho que o mundo pode ser dividido direitinho entre quem se empolga com a indução controlada do terror e quem não se empolga. Não acho o terror empolgante. Acho aterrorizante. Um dos meus objetivos de vida básicos é submeter meu sistema nervoso à menor quantidade de terror possível.”

 O segundo ensaio – Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer – é semelhante ao primeiro em sua natureza: trata-se de um relato de mais de 120 páginas de um cruzeiro de luxo de sete noites pelo Caribe, também a pedido de uma revista (só para eu não esquecer, o primeiro ensaio tem 80 páginas e ao final você compreende o porquê do título). Achei o segundo ensaio ainda melhor que o primeiro. É mais divertido e você conhece Wallace bem melhor, porque, como falei anteriormente, ele é muito sincero e transparente. Tenho que comentar que foi aqui que o nó na garganta com que terminei a leitura começou a aparecer. É que fui percebendo que caramba, David Foster Wallace era um cara legal! Muito legal, um cara, como diria alguém alhures, “super do bem”. Não é um gênio metido, enfurnado em seu próprio mundo e que se julga acima dos hábitos desprezíveis do americano médio. Ele realmente critica esses hábitos, mas com muito bom humor, e não se nega até mesmo a participar de concursos ridículos a bordo do navio. Eu lia o ensaio e me perguntava, lamentando: “Por que ele se matou?”

Uma das características marcantes na literatura de Wallace são suas generosas e frequentes notas de rodapé (em alguns casos há notas de rodapé dentro das notas de rodapé), todas, entretanto, necessárias e colocadas de um modo que não amarram a leitura.

“O Capitão Nico109 não venceria nenhuma medalha de oratória com seu inglês, mas fornece um genuíno festival de dados concretos. Ele tem mais ou menos a minha idade e altura, mas é tão bonito que chega a ser ridículo, 110 uma espécie de Paul Auster extremamente malhado e bronzeado.

109 O Nadir tem um Capitão, um Segundo-Capitão e quatro Oficiais-Chefes. O Capitão Nico é um desses Oficiais-Chefes; não sei por que ele é chamado de Capitão Nico.

110 Outra coisa que aprendi neste Cruzeiro de Luxo é que nenhum homem pode ter melhor aparência do que a obtida num uniforme branco de gala de oficial naval. Mulheres de todas as idade e níveis de estrogênio desmaiavam, suspiravam, estremeciam, piscavam, grunhiam e vibravam durante a passagem de um desses oficiais gregos resplandecentes, um fenômeno que, imagino, não ajudava nem um pouco os gregos a serem humildes.”

Este ensaio está repleto de situações impagáveis, como a descrição do próprio Wallace  para a sua derrota no xadrez para uma menininha prodígio (ele até que joga razoavelmente bem, no seu próprio julgamento), cuja mãe, sem dúvida, era uma daquelas tiranas do xadrez. Ou a aposta unilateral do professor de pingue-pongue do cruzeiro (de quem ele sempre ganhava), que insistia que após um certo número de vitórias ele (o professor) ganharia o cobiçado boné do Homem-Aranha, acessório sem o qual David Foster Wallace não jogava. Além, é claro, da sua já citada capacidade de descrever as coisas:

“São o tipo de homem que parece estar fumando charutos mesmo quando não está fumando charutos.”

Ou, falando do café:

“E o café do Café Windsurf – que borbulha alegre de torneiras em imensas cafeteiras de aço escovado – o café é simplesmente o tipo de café que faria você se casar com alguém capaz de prepará-lo. Em geral eu tenho um limite firme e neurologicamente imperativo de uma xícara de café, mas o café do Windsurf é tão bom e o trabalho de decifrar as imensas manchas rorschachianas das minhas anotações da Palestra Sobre Navegação é tão exaustivo que nesse dia acabo excedendo o limite, e excedendo muito, o que pode ajudar a explicar porque as horas seguintes deste registro estão meio caleidoscópicas e dispersas”.

Ou falando de mulheres que usam roupas de malhação na academia do navio:

“E nessas máquinas há pessoas usando elastano que me inspiram uma vontade enorme de levar para um cantinho e recomendar da forma mais diplomática e amorosa possível que nunca usem elastano.”

Os dois ensaios acima ocupam mais de metade do livro. Há ainda outros completamente diferentes:

Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante, no qual ele fala do humor em Kafka a partir de um miniconto seu (este aqui);

Pense na lagosta, no qual Wallace discute a respeito do possível dilema ético de ferver lagostas vivas para satisfazer nosso paladar;

Isto é água, um tocante discurso de paraninfo que realmente me deixou com o nó na garganta em definitivo. Wallace fala sobre tolerância, sobre ser uma pessoa melhor para si e para os outros para ser mais feliz.

“Pois aqui está uma outra verdade. Nas trincheiras cotidianas de uma vida adulta, não existe isso de ateísmo. Não existe isso de não venerar. Todo mundo venera. Nossa única escolha é o que venerar. E se existe uma ótima razão para talvez escolher venerar algum tipo de deus ou coisa espiritual – seja Jesus Cristo ou Alá, YHWH ou uma deusa-mãe wiccan, as Quatro Verdades Nobres ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que praticamente todas as outras coisas vão devorar vocês vivos. Quem venerar o dinheiro e os bens materiais, quem buscar neles o sentido da vida, nunca terá o suficiente. Nunca terá a sensação de que tem o suficiente. É a verdade. Quem venerar o próprio corpo, beleza e encanto sexual sempre vai se achar feio, e quando o tempo e a idade começarem a deixar marcas morrerá um milhão de mortes antes de finalmente ser enterrado por alguém. De certo modo, todo mundo já sabe disso – está codificado em mitos, provérbios, clichês, máximas, epigramas, parábolas; no esqueleto de toda boa história. O grande truque é conseguir manter a verdade na superfície da consciência em nossas vidas cotidianas. Quem venerar o poder vai se sentir fraco e amedrontado, e precisas de cada vez mais poder para conseguir afastar o medo. Quem venerar o intelecto, ser visto como inteligente, vai acabar se sentindo burro, uma fraude na iminência de ser desmascarada. E por aí vai.”

Por que ele escreveu isso para aqueles alunos? Para que eles pudessem “chegar aos trinta, ou quem sabe aos cinquenta, sem querer dar um tiro na cabeça”.

E ele mesmo fez algo similar ao se enforcar… Não, ele não estava sendo hipócrita. David Foster Wallace viveu vinte anos, segundo seu próprio pai, lutando contra a depressão. Depois de tentar um novo método, caiu na depressão novamente e, ao retornar ao seu antigo medicamento, descobriu que ele não mais surtia efeito, o que deve ter sido desesperador.

O texto final é um brinde para quem gosta de tênis. Descobri que além de gênio e de ser um gigante de cabelos compridos com cara de roqueiro, David Foster Wallace foi jogador quase profissional de tênis. Em “Federer como experiência religiosa” ele acompanha a final de Wimbledon de 2006, um dos grandes jogos da história do tênis, entre Federer e Nadal. Ele reverencia Federer, explicando porque vê-lo jogar é quase uma experiência religiosa. Só lendo para ver.

Terminei o livro um pouco triste, mas os motivos já foram expostos. Nada a ver com o livro em si. Soube que a Companhia das Letras está traduzindo Infinite Jest. Não vejo a hora de ler, assim como, bem antes disso, conferirei seu outro trabalho já traduzido para o português, o livro de contos Breves entrevistas com homens hediondos.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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4 Respostas para “Resenha – Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo – David Foster Wallace

    • Obrigado pelo elogio, Monique. Não sei se ele escreve ficção tal como escreve não ficção. De qualquer maneira, imagino que mesmo com as inevitáveis diferenças, gostarei da prosa dele.

  1. Fiquei com vontade de ler esse livro de não ficção de David Foster Wallace. Não sabia que havia um livro desse autor traduzido por aqui. O autor não estava na minha lista de leituras, acabei descobrindo-o aqui e indiretamente através de recomendações no Goodreads. O que me atraiu para a leitura desse tijolão foi uma resenha negativa (http://www.edrants.com/the-infinite-jest-review-that-dave-eggers-doesnt-want-you-to-read/) sobre Infinite Jest curiosamente escrita por Dave Eggers mesmo autor do prefácio da edição americana de 2001. O autor fanfarrão (picareta é pesado, não é mesmo?) da resenha elogiosa a Infinite Jest prescreve a leitura como um remédio a um doente, um livro de auto-ajuda. Quando concluí o prefácio lembrei-me da introdução à versão portuguesa de Naked Lunch (Refeição Nua, Alucinações de um drogado, William S. Burroughs), em que o responsável pela resenha desnecessariamente alerta o leitor contra o uso abusivo das drogas pelos personagens, algo como “não façam isso em casa crianças”. No livro de DFW, o resenhista faz outra recomendação na parte final, não tão inútil quanto a do livro Refeição Nua, mas inadequada em termos de literatura, mais apropriada para a auto-ajuda. Na resenha negativa de Infinite Jest ao menos temos ideia do que vamos encontrar pela frente. Comecei a ler Infinite Jest há alguns dias – ele é repleto de histórias paralelas, microcontos, centenas de personagens, notas de fim de livro, histórias fantásticas (a que trata do independência do Quebec é uma das minhas favoritas, mas há tantas outras). Obrigado e desculpe por me alongar tanto na resposta. Abraços.

    • Infinite Jest está na minha lista, Ricardo. Vou conferir a resenha no Dave Aggers.

      O Breves entrevistas com homens hediondos também já foi traduzido.

      Abraços!

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