Resenha – A Peste – Albert Camus

camus-peste

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Não demorou muito, Artur. Eu disse que iria ler após o término de Crime e Castigo, de Dostoievski, mas como você parecia estar esperando e querendo que mais alguém conhecido lesse, adiantei a leitura e terminei-o neste domingo. Era você num retiro para jovens católicos e eu no meu quarto lendo A Peste, de Albert Camus. E Posso dizer que minha experiência, assim como a sua, na medida do possível – e da comparação, claro – fez-me uma pessoa melhor (pelo menos por enquanto).
A história do livro é simples: uma “cidade vulgar”, Orão, é atacada por ratos agonizantes e em seguida pela Peste. Um número gigantesco de ratos morre todos os dias. Pessoas começam a adoecer. A Peste toma proporções incomensuráveis. Seria esse o fim? Pois bem, vejamos algumas coisinhas:
O primeiro ponto a salientar, e a enaltecer, foi a escolha brilhante do autor em contar a sua historieta através de um narrador, alguém que se diz à parte de tudo e que procurou simplesmente colher informações, documentos e testemunhos de quem experienciou aqueles dias de tormento, ele mesmo um sobrevivente; dessa forma, tudo pareceu muito real, verossímil, tangível. Em suma, poucas vezes estive diante de uma escrita tão honesta, sensata. Ah, outro detalhe. Nunca lera nada de Camus e, por algum motivo que não sei dizer, pensei que a escrita dele fosse rebuscada, difícil, amarrada, enfim. Mas não foi nada disso. A leitura flui maravilhosamente bem. Não parece um romance, com toda a estrutura que conhecemos, mas uma deliciosa crônica. Mas claro, há muitos belos momentos. Cito um em especial:

“Ele sabia o que a mãe pensava e que nesse momento ela o amava. Mas sabia também que não é grande coisa amar um ser, ou que, pelo menos, um amor nunca é bastante forte para encontrar a sua própria expressão. Assim, sua mãe e ele se amariam sempre em silêncio. E ela morreria por sua vez – ou ele – sem que, durante toda a vida, tivessem conseguido ir mais longe na confissão de sua ternura”. (Caramba, pensei na hora: UMA CRIATURA DÓCIL!!!*)

E o livro foi ganhando peso. A trama foi se desenrolando. E mais do que um romance, uma crônica, podemos aqui chamá-lo de estudo, ensaio, como o também mundialmente conhecido, Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago. Uma situação extrema em que vemos humanos sendo enclausurados (há aquele momento de A Peste em que é preciso fechar a cidade: ninguém sai, ninguém entra: engulam-se) e nessa clausura eles terão de aprender a conviver. Daí as personagens vão ganhando forma e peso. Daí cada um deles vai apresentando as suas características e peculiaridades. Daí é que percebemos o quão complexo é o ser humano (algo muito óbvio, claro). Não quero aqui apontar as personagens, falar sobre elas, mas nelas você encontrará de tudo: desde aquele que desacredita em tudo àquele que mantém a sua fé inabalável; desde os aproveitadores aos mais humanos; desde o sempre trabalhador, perseverante…

A minha nota foi 4 de 5 estrelas, e me aproveito desse ponto para explicar o motivo disso: eu não me surpreendi em nenhum momento com a história. Explico. Vejamos, o livro é sobre pessoas, sobre comportamento, vivência, fé, caos, medo, angustias. O livro pega uma situação extrema e trabalha justamente esses pontos e, não sei se vou conseguir ser claro, apresenta aquilo que eu já tinha visto noutras leituras. Leitor, para exemplificar: você já leu ou assistiu Ensaio sobre a Cegueria, já viu Lost, e a série House? Para uma pessoa um pouco mais ligada, percebe, obviamente, que o foco dali não é a doença que deixou todos cegos, os mistérios da Ilha, ou mesmo os casos de doenças raras, mas as atitudes que o ser humano toma (ou a que se entrega) a depender das situações da vida. Enfim, parece meio estranho dizer isso mas o homem se repete. Se eu não tivesse lido ou visto nada parecido com isso, teria dado nota 5 para A Peste. Parece ser bem, bem injusto. Isso não é motivo, você leitor poderia dizer. Mas, novamente, mesmo que o livro seja espetacular, ele continua sendo um livro, e uma das coisas que espero sentir ao término ou no decorrer de uma leitura é aquele “nó na garganta”, ou mesmo aquela coisa que nos deixa “irrequietos”, “coçando por dentro”, “supresos”…

Enfim. Espero que vocês me entendam. Ótimo livro. Leiam e gostem 😀 porque mais do que um relato, para mim, foi meio que um tapa na cara (apesar de eu ainda não acreditar e não ter sido forte o suficiente), ao afirmar que “há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar”.

* “Sou mestre na arte de falar em silêncio, passei minha vida toda conversando em silêncio e em silêncio acabei vivendo tragédias inteiras comigo mesmo.” Dostoievski.

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14 Respostas para “Resenha – A Peste – Albert Camus

  1. Prazer, Rose, seja bem vinda 😀 (novamente?). É um livro para guardar e para a gente usar no dia a dia. Aprender com essa história. Volte sempre, jovem 🙂

  2. Pretendia ler esse livro desde que terminei “o estrangeiro” e me aproximei um pouco do existencialismo. Quando terminar a temporada “Thomas Pynchon” não adiarei mais rsrsrs já que esse a temática do livro realmente me agrada hehe

    • Já que falou em Thomas Pynchon, o que está achando de Contra o dia? Depois de ler Ulisses, penso em me envolver em outra grande empreitada: ler o Gravity’s Rainbow.

      • Não comecei ainda Contra o dia, deixarei para ler depois de Vicio inerente e o arco-iris da gravidade, por enquanto so li “leilão do lote 49”, quando terminar a semana de provas, “arrocho” nesses dois livros kkkl

  3. Achei interessante seu ponto de vista e intrigante quando se trata da psicologia humana sob pressão e em risco de sobrevivência.
    Mesmo sem spoiler já deu pra perceber a temática do livro. Já li e vi o filme, “Ensaio Sobre a Cegueira” e gostei muito.
    Coloquei na minha lista de leitura.
    Obrigado pela resenha!! Foi bastante esclarecedora e bem escrita!!
    Abçs!!

    • Agradecido pela visita, Claudio. Siga-nos e acompanhe o blog e a empreitada do meu irmão com o vlog.

      Ontem comecei Ensaio sobre a Cegueira. Estava lendo um de Assis Brasil, o Beira Rio Beira Vida, sobre a vida difícil das mães e folhas que vivem à margem (em todos os sentidos) do rio Parnaiba, Piauí, mas a leitura estava meio que amarrada. Olhei para as minhas prateleiras e pensei em continuar a releitura(5) de Crime e Castigo, todavia, veio-me uma vontade muito grande de finalmente ler a obra de Saramago. Já tarde da noite, ainda consegui ler rapidamente 60 páginas. Escreverei sobre ele, provavelmete, lá para ser sexta. Eu tenho algumas opiniões formadas a respeito de algumas coisas, e uma delas é: para se viver bem, amadurecer, crescer como pessoa, todo mundo tinha ler ou ver obras que trabalhassem as relações humanas em momentos estranhos, difíceis (vide as obras citadas no texto).
      É isso. Boas leituras 🙂

  4. Gostei muito mais de A PESTE que O ESTRANGEIRO, o que deixou muita gente chocada. Mas não teve como: esta minha atual fase “otimista” tem muito a ver com o que ocorre naquela cidadela, cujo enredo antecipa um mote deveras comum nas obras-primas do José Saramago. Achei este livro absolutamente soberbo! (WPC>)

    • Quanto ao motivo para a não totalidade de tua cotação, lamento que tua insatisfação com a surpreendente trama tenha sido prejudicada por comparações anacrônicas de obras posteriores que imitam descaradamente o que ali ocorre, mas, não vou mentir: isso ocorre com todo mundo. A Indústria Cultural esfacela os clássicos pela diluição de seu impacto através das imitações infindáveis… Cabe a nós buscar os originais! (WPC>)

      • Eu iria comentar justamente isso: você gostou menos da obra porque você leu as cópias delas antes. Não deveria ser esse um motivo para a obra original parecer ainda mais genial?

      • A respeito do “anacronismo”, discordo completamente. Eu e Leonardo estávamos a discutir isso agora. O meu texto, antes de qualquer coisa, é sobre impressões, sensações. É IMPOSSÍVEL (pelo menos para mim que leu outras coisas, viu etc etc) sentir, surpreender-me com a obra. Vamos pegar outro livro, Madame Bovary. O que as pessoas que leram aquilo na época em que foi lançado não sentiu em comparação com a gente que lê isso hoje. Nós nunca saberemos. Nunca passaremos por essas experiências tão fantásticas. Sem dúvida, polêmico, genial. Mas eu não fechei os olhos, não chamei a pobre de safada, adultera. Eu NÃO SENTI ISSO!! Eu não senti o livro A Peste como “deveria” ter sentido porque eu já lera ou vira trabalhos que beberam daquele texto. Vá Artur ler Ensaio sobre a Cegueira, será que ele vai sentir a mesma coisa após ter lido A Peste? Não, não é anacronismo. É constatação. Vamos agora para outras mídias. Hoje quando algo vai ser lançado, se a gente não correr das imagens, trailers, textos, chamadas em Facebooks, você, simplesmente, passará pela experiência do filme pela metade. Agora, agora, para quem assistiu e gostou: como não foi inesquecível a sensação de não saber o que era a “MATRIX”. O filme é de 99? What’s is The Matrix???

        Enfim, hoje, e isso é um problema que você colocou, para variar, perfeitamente bem, a indústria cultural vai arremessando as coisas nas nossas caras. Hoje, a gente sabe de tudo e nem sabe que sabe e quando vai ver a coisa, já sabe.

  5. Sem dúvida sim, Léo. Mas continuo batendo na mesma tecla: apesar de ser uma grande, soberba obra, eu não senti aquela emoção, a minha 5ª estrela sempre será dada pensando nisso, naquele sentimento.

    Pegue as 5 estrelas para o Luz em Agosto, a quinta se justifica pela poesia, originalidade, pela beleza que é a escrita dele. Só quem leu aquelas maravilhosas metáforas sabe do que estou falando. É você sentado numa poltrona, cadeira, e se remoendo ali, se retorcendo por dentro e por fora e só falando ou pensando: CARAMBA!!! CARAMBA!!!! Essa “estrela” eu não encontrei nesse livro. Wesley encontrou.

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