Resenha – O Ruído das Coisas ao Cair – Juan Gabriel Vásquez

Capa O ruido das coisas ao cair.indd

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Juan Gabriel Vásquez é um escritor Colombiano, nascido em 1973 em Bogotá. Ele terminou o curso de direito em meados da década de 90. A história de O ruído das coisas ao cair começa neste mesmo período, e conta a história de Antonio Yammara, um jovem professor de direito que costumava passar boa parte do seu tempo livre jogando bilhar próximo à Universidade onde ele ensina. Lá ele conhece Ricardo Laverde, um ex-presidiário que acaba assassinado. A vida de Yammara sofre um profundo e irreversível impacto por conta do assassinato de Laverde, e anos depois da tragédia ele resolve tentar descobrir os motivos do crime.

Antes de falar da história contada no livro, fiz questão de mencionar que Juan Gabriel Vásquez tem algo em comum com o protagonista da história: formaram-se em direito mais ou menos na mesma época. Não encontrei nada que dissesse que a obra apresenta traços autobiográficos, mas inserir elementos de sua própria vida nos livros tem sido uma escolha cada vez mais frequente dos autores. Vide os abundantes exemplos de livros protagonizados por escritores ou por pretensos escritores ou por escritores fracassados. No caso de O ruído das coisas ao cair, Vásquez quis falar daquilo que se tornou a triste marca registrada de seu país: o narcotráfico e suas terríveis consequências. A primeira ideia que me vem à cabeça quando ouço falar da Colômbia não é a de Shakira fazendo dança do ventre, mas de traficantes armados, de cartéis, de Pablo Escobar. Este livro é um amargo testamento de uma geração que viu tudo começar. Que viu seu país tornar-se um reino do terror. Gente que teve sua vida transformada (muitas vezes destruída) sempre por motivos diretamente ligados ao tráfico de drogas.

O assassinato de Laverde é só um dos milhares que ocorreram. A tragédia pessoal de Antonio Yammara é apenas mais uma. Mas é esta que nos é contada de maneira magistral por Vásquez.

A primeira coisa que me chamou a atenção deste livro foi o belo título, que imediatamente me remeteu a lembranças auditivas. Que ruído fazem as coisas ao cair? Penso logo em talheres caindo no chão. Depois em panelas. Penso numa bola quicando. Penso em uma câmera caindo da mesa, ou num copo cheio de suco sendo estilhaçado pelo contato violento com o piso duro da sala. Apesar de a prosa de Vásquez ser linear, simples, “ortodoxa” – e preciso ressaltar que nenhum desses adjetivos foram empregados com sentido pejorativo – ela chamou a minha atenção e me conquistou por este forte apelo aos sentidos, em especial à audição. Mas volto daqui a pouco a este ponto.

Eu disse que O ruído das coisas ao cair é o testamento de uma geração que viu o demônio do narcotráfico dominar a Colômbia e transformá-la num inferno. Este é um ponto em relação ao qual o autor foi muito bem sucedido. Apesar de ser um livro cujo leitmotiv é o tráfico e seus efeitos, Vásquez nos apresenta a dimensão macro e a dimensão micro: acompanhamos a história de Yammara e sua busca por explicações, ao mesmo tempo em que vemos ser-nos desvelados elementos sobre a origem do tráfico e suas implicações na história da Colômbia e nas vidas dos colombianos de forma geral. Para citar um exemplo, vemos o autor revelar que a Fazenda Nápoles, uma das casas de Pablo Escobar, era um endereço conhecido de todos e até mesmo visitado por crianças por conta de seu zoológico particular. Compreendemos que isto era motivo de vergonha para o povo colombiano, uma evidência do poder quase infinito do traficante. Ao mesmo tempo, o autor mostra como a Fazenda acaba se revelando fundamental na história que Yammara investiga.

Voltando ao ruído, ao som, ao barulho, O ruído das coisas ao cair é, apesar da flagrante impossibilidade prática, um livro para ser lido de olhos fechados.

Achou estranho? Infelizmente não tenho o livro em minhas mãos – ele é do meu irmão, e li-o no último final de semana que estive na casa dos meus pais – por isso não posso citar uma das inúmeras passagens em que se faz necessário “ler com os ouvidos”. Enquanto acompanhamos a angústia de Yammara por conta das sequelas herdadas pelo assassinato de Laverde (Como assim? Não vou explicar para não estragar a surpresa. Leia o livro e descubra.) nós vamos ouvindo o que ele ouve. Um momento impactante é quando ele está sozinho em casa, após uma briga com a esposa, e ele acompanha os movimentos dela pelos barulhos que ela faz ao se levantar e arrastar os pés até a cozinha, abrir a geladeira, encher um copo d’água… Impossível não ouvir o que Yammara ouviu, e isto por si só já é uma evidência da grande conquista de Vásquez ao nos entregar este livro.

Quando cheguei ao momento que certamente batizou o livro (não vou dizer qual foi, não se preocupem) senti um estremecimento. Todo o livro passou a ter seu sentido a partir do significado da cena à qual me refiro e, consequentemente, a partir do ruído que fazem as coisas ao cair. E este ruído é algumas vezes literal, mas é também metafórico. Um país que desaba, uma vida que desaba, sonhos que despencam. O livro é, assim, todo feito de ruídos – metafóricos e literais.

Esta é uma legítima história colombiana, e com isso quero dizer que seu sentido completo somente pode ser encontrado por quem tenha sofrido com aquela realidade, ainda que nós, brasileiros, soframos com uma mais do que generosa fatia da violência nossa de cada dia. Não fui, de qualquer sorte, fisgado emocionalmente pelo livro como sem dúvida o foram os colombianos, mas trata-se de um livro pungente, cujos méritos vão além da história que conta e além das acertadíssimas escolhas narrativas de Vásquez.

O ruído das coisas ao cair é um livro para ser lido preferencialmente num cantinho silencioso. Se possível, de uma só vez. Só não se espere se sentir muito feliz quando terminá-lo.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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Uma resposta para “Resenha – O Ruído das Coisas ao Cair – Juan Gabriel Vásquez

  1. Ao término da leitura desse livro fiquei muito triste. Lembro-me que dei nota 3.0, 3.5 para cima. Gostara do livro, mas não tanto quanto ele realmente merecia. Por isso a tristeza. E acho que encontrei o motivo a partir do texto do Léo: “legítima história colombiana”. E apesar de a gente poder transportar pontos semelhantes à nossa realidade, ainda sim sentiremos um vazio. A prosa é excelente, uma aula de como escrever bem. Como me acostumei a utilizar esse adjetivo, um texto “honesto”.

    Mais um livro que terei de ler o quanto antes.

    Boas leituras para nós todos 😀

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