Resenha – O Castelo – Franz Kafka

o castelo

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

O Castelo é a obra prima de Franz Kafka, é o ponto máximo de sua literatura. Obra póstuma, Kafka pediu a um amigo que destruísse esse livro assim que terminou de escrevê-lo. Logicamente, ele não fez isso, e acabou nos brindando com o ápice da literatura kafkiana. Em O Castelo, temos a história de K. (não, não é o mesmo personagem de O Processo, ao menos não no modo convencional), um agrimensor contratado por um Conde para vir prestar serviços em sua propriedade. Chegando na vila, K. se vê emerso em um mundo de burocracia desesperadora, onde nada é o que parece ou deveria ser.

Logo de cara é deixado bem claro o quanto K. é inferior hierarquicamente a qualquer indivíduo daquela vila/castelo, independente de quão subalterna, ou baixa seja a colocação do terceiro envolvido. K. estará sempre abaixo de todos, simplesmente por ser estrangeiro. É-lhe dito que não terá NUNCA acesso ao castelo, e muito menos deve levar em consideração a ideia de uma entrevista com o conde. O livro então segue nessa linha, K. tentando ter acesso ao Castelo, e todos os habitantes da vila e funcionários do castelo tendo como objetivo aparente sustar esse desejo.

Kafka é complicado de ler. Suas obras não são literais, em tudo que se lê há abstração. Assim, embora a burocracia da vida em sociedade seja a primeira coisa que percebemos ao ler, se ater a isso é abrir mão de toda a grandeza da literatura kafkiana. Uma das principais interpretações sobre o livro (alvo de vários estudos literários) é de que aqui há a batalha do homem e seu inconsciente. Os seus desejos mais íntimos, suas vaidades, e como elas são destroçadas na vida real. Seguindo esse raciocínio, o Castelo é o inconsciente de K., enquanto a aldeia é o consciente. O castelo é seu maior objetivo: enquanto K. é jovem naquela sociedade, é natural sonhar alto, mas conforme a vida lhe derruba, suas aspirações diminuem, e ele acaba se rebaixando a cargos e funções aquém daquelas que ele supunha ser capaz de desempenhar. Por exemplo, no início do livro, K. tinha como principal objetivo ser agrimensor, pois foi para isso que fora chamado, e inclusive se considerava um bom profissional, mas conforme as pessoas com as quais se relacionou na aldeia lhe deixaram claro que ser um agrimensor ali era um erro burocrático, e que um ali não teria utilidade prática nenhuma, K. simplesmente desiste de sua profissão, e embarca no objetivo insano de obter acesso ao Castelo. Como esse acesso lhe fora negado veemente, seu objetivo se torna então ter uma entrevista particular com Klamm, alto funcionário do castelo, que, como lhe fora informado, era o seu superior naquela organização. Klamm não poderia ser menos acessível a K., pois é tão ou mais difícil entrar no castelo que obter simples conversa com ele.

Os personagens com os quais K. contracena dão informações contraditórias. Em um momento há certa possibilidade, em outra não há. Em um momento estão contentes, e em outro revoltados. Sempre que K. mostra certo sucesso em seus empreendimentos, há uma mudança de discurso. Alguns deles, como a estalajadeira, ou o professor, tem papéis mais influentes na trajetória de K., e acabam por minar sua vontade e sua resistência ao sistema burocrático a que ele é imposto. Nalguns desses discursos ambíguos, a própria existência de Klamm é posta a prova, pois é dito ao início do livro que Klamm estava acessível na estalagem, mas conforme K. avança menos pessoas parecem conhecê-lo, ou estiveram em sua presença, como o mensageiro Barnabás, que, apesar de ser responsável por enviar e trazer mensagens de Klamm para K., nunca esteve em sua presença, e quando acreditou estar em sua presença, foi desmentido por outro funcionário que afirmou que Klamm seria outra pessoa. Nessa linha de raciocínio, podemos até atribuir que K., nome indefinido, habitante do mundo real, é Klamm, nome definido, habitante do inconsciente, ou ao menos quem ele gostaria de ser, quem ele busca ser. Não por coincidência, os personagens d’O Castelo e d’O Processo são identificados pela letra K de Kafka. Kafka sempre foi atormentado por essa sombra do poder sobre o indivíduo, da impotência seja em relações familiares ou com o estado.

Outro ponto a considerar, é o quão K. acaba se entregando a sua situação. No início do livro ele ensaia uma revolta, mas conforme ele percebe a dificuldade do sistema, ele se submete a tudo aquilo, desiste de ser ele mesmo, e se torna mais um. É a crise existencial, não sou um indivíduo, sou mais um na massa.

Estou escrevendo essa resenha mais de um mês depois de ter terminado a leitura. Precisava de um pouco de tempo para maturar tudo aquilo que li. O romance é impressionante. É repleto de monólogos, algumas falas dos personagens se estendem por 4 ou mais páginas, sem parágrafos, isso torna a leitura lenta. Mas isso, claro, não é um defeito. Se você não estiver com paciência de dedicar tempo a esse livro, melhor nem começar a ler, pois sua experiência pode acabar sendo negativa. Para mim superou muito as expectativas, que já estavam altas. Livro sensacional, que provoca muitas reflexões. Apesar disso, aconselho a começar a leitura com a mente livre, sem esperar nada bombástico, nem surpreendente. Pegue o castelo, e sente no sofá com a mente livre, sem pressa de terminar.

5 estrelas em 5.

7 Respostas para “Resenha – O Castelo – Franz Kafka

  1. Ótimo texto, conseguiu apresentar bem o que há por trás da história, sem entregar nada. Este livro ainda está pendente na minha lista, mas certamente tenho obrigação de lê-lo. Kafka é um gênio, e acho que ninguém duvida disso. Experimentar as histórias deste louco é imperativo para quem ama a literatura.

  2. Olá, meus parabéns pela sua resenha e pelo seu blog! A resenha despertou a minha vontade de ler essa obra-prima de Kafka. Obrigada. Um grande abraço;
    Fernanda, do blog Sopa de Letras.

  3. Ótima resenha. Imagino que tenha sido o seu texto mais bem elaborado.

    Li dois romances do Kafka: Metamorfose e, recentemente, O Processo. Conversando com você, pelo visto, o primeiro romance aqui citado é mamão com açúcar comparado ao Processo, que, por sua vez, não chega aos pés do que encontramos no O Castelo. Preciso admitir que gostei mais, muito mais do que li no primeiro. O texto é mais claro – apesar das metáforas implícitas à obra e sua complexidade – e de fácil entendimento. Já O Processo, caramba, suei para terminar. A leitura, para mim, foi muito arrastada. O começo fluiu tranquilamente, perfeito. Alguns trechos, consegui ler normalmente (apesar dos momentos e situações absurdas), mas noutros pontos, como as visitas a um determinado advogado, ou mesmo os raciocínios dele sobre o que é um processo ou a utilidade de um advogado… Foram muito cansativos. Mas é inquestionável a genialidade, a criatividade. Como diria o meu irmão Leonardo: Kafka, sem dúvida, foi alguém de “alma perturbada”.

    A leitura do livro aqui resenhado entra para a minha lista… mas vai demorar um bocadin.

    Parabéns pelo texto. Gostaria que você tivesse colocado alguns trechos curiosos, acho que acrescentaria bastante na experiência de quem não leu o livro ainda.

    Abraços, e boas leituras😀

  4. Estou doido para ler este livro!

    Vi a versão fílmica do Michael Haneke recentemente e fiquei impressionado com o quanto tem a ver com os demais petardos kafkanianos que li. Digo mais: achei primorosa e mui oportuna esta tua brincadeira com o personagem K ser ou não o mesmo de O PROCESSO, visto que a obra deste tcheco como um todo é como se fosse um único livro (risos), tamanha a crítica contra os problemas absurdos da burocracia que tanto me seduz enquanto ex-trabalhador do DAA (risos). seja como for, faço coro com tudo o que foi dito antes: extraordinária resenha, meus parabéns! (WPC>)

  5. Já começo agradecendo pelos esclarecimentos kkk. Deveria ter lido sua resenha antes. Estou no meio da leitura do livro e enfrento muita dificuldade. A leitura está arrastada e cansativa, não faz muito sentido, deixei de canto e retomei a leitura recentemente. Mas agora estou mais animada para prosseguir, já tenho uma ideia de como interpretar a história. Obrigada!

    • Opa, Denise, que bom que acabei despertando esse interesse em você com minha resenha. Uma dica é intercalar a leitura de O Castelo com a de algum outro livro mais leve. Isso diminui um pouco a carga desse livro, que é sim uma grande obra.

      Abraço.

  6. Li esses 3 livros dele, mas O Castelo bem antes de O Processo, tanto que tive que ler essa resenha para relembrar o enredo. Realmente Kafka é muito bom, pena poucos conhecerem seus livros. Interessante que, apesar de completamente diferente, A Montanha Mágica me fez lembrar vagamente Kafka.

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