Ler e abandonar Ulisses

ulisses

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Resolvi, neste ano, após muita hesitação, começar a leitura de Ulisses, de James Joyce, tido pela grande crítica literária como um dos fundadores do romance moderno, um marco na história da literatura.

Ulisses sempre me despertou curiosidade e um misto de medo e respeito. Eu imaginava que precisaria de muita bagagem literária para encará-lo, e por este motivo, ia postergando a leitura. Ganhei (pedi) o livro de presente do meu irmão e deixei-o lá, enfeitando a estante. O tempo passou, passou e decidi que era hora de arriscar. Achei que finalmente tinha conseguido a tal bagagem? De maneira alguma. Simplesmente pensei que deveria ler Ulisses não como o livro revolucionário que dizem que é, mas como um livro. Sim, um livro. Uma história de ficção feita para entreter o leitor. Afinal, não é isso que se busca num livro? Quando alguém lê O Som e a Fúria ou Garota Exemplar ou Harry Potter, o que busca senão se divertir?

Como o dia do Bloomsday se aproximava (a história de Ulisses se passa toda em um único dia, 16 de junho, que ficou conhecido como o Bloomsday), pensei que seria bom tentar terminar o livro até essa data (eu teria dois meses pela frente, tempo de sobra para tal).

Li o primeiro, o segundo, o terceiro capítulos, e a coisa ia até bem. Não são capítulos “fáceis” de maneira nenhuma, mas dá para se ter uma ideia do que está acontecendo. Ideia mesmo, porque certeza de tudo, não dá. No primeiro capítulo, você conhece Stephen Dedalus (um alter ego de Joyce?), um estudante inteligente, com espírito de artista e que faz tantas, mas tantas divagações complexas e incrivelmente chatas, que toda vez que ele aparecia em cena eu já me desanimava. Ele conversa com seu amigo Buck Mulligan e com um terceiro personagem, Haines. Há muita referência à arte, à religião, muito simbolismo. No segundo capítulo, um dos que gostei, Stephen dá aula a umas crianças para ganhar uns trocados. Ele se preocupa especialmente com um menino meio deslocado que tem dificuldades com matemática. No terceiro capítulo, Stephen caminha na praia, visita (ou não?) uns tios e pensa, pensa, pensa sobre a vida. Mas nada é óbvio, você tem que ficar adivinhando o que está ocorrendo.

No quarto capítulo fui apresentado a Leopold Bloom. Ele acorda, vai a um açougue, depois a uma farmácia. Mais tarde vai a um enterro, já no capítulo 6. No capítulo sétimo, conhecemos o jornal onde Bloom trabalha. No capítulo oitavo, mais andanças, e as coisas começam a ficar realmente ininteligíveis. Estes cinco capítulos permitiram que eu começasse a me afeiçoar com Leopold Bloom, um sujeito bem intencionado, com as inseguranças típicas de um homem comum. Acompanhar o fluxo de consciência – entrar na mente de Bloom – era sempre a melhor parte do livro, porque naqueles momentos as palavras pareciam reais e pelo menos eu conseguia identificar um fiapo de narrativa, a partir das motivações – tênues, quase invisíveis –de Bloom.

O que atrapalhou a minha leitura – na verdade não é atrapalhou, mas impossibilitou, já que eu abandonei o livro – começou a se agravar sobremaneira a partir do capítulo nono. Sim, eu estou interessado em personagens tridimensionais. Não quero ler um livro protagonizado por um personagem de novela ou de RPG, que possa ser definido com dois ou três adjetivos como “esperto”, “preconceituoso” ou “alto”. É, portanto, relevante que saibamos como os personagens pensam e agem. A questão com Ulisses é que se mostra mais o que os personagens pensam do que o que eles fazem. Mais que isso, Joyce parece muito mais preocupado em mostrar o que ele, Joyce, pensa do que o que os personagens pensam. Há momentos em que se iniciam discussões, reflexões ou divagações impossíveis de acompanhar. O capítulo nono, por exemplo, é inteiramente dedicado à discussão entre Dedalus e seus amigos acerca de Hamlet, da vida pessoal de Shakespeare, incluindo o possível adultério de sua esposa. Eu lia e me perguntava: por que eu estou lendo isso? Não é Dedalus defendendo uma tese, é Joyce usando um livro seu como panfleto de sua própria inteligência. É como se eu ouvisse a voz de Joyce dizendo: vejam que teorias geniais eu tenho! Ouçam essa!

Tudo só piora nos capítulos seguintes. O capítulo décimo primeiro, por exemplo, se passa num hotel/bar, em que uma porção de personagens interage. Eu não sabia exatamente quem narrava. Em alguns momentos, eram duas garçonetes, noutros, o próprio Bloom, noutros, um narrador onisciente. A impressão que tive é que Joyce quis emular uma “narração ébria”. E creio que ele conseguiu, porque o capítulo é ridiculamente confuso. Começa com uma série de frases soltas, como se ditas por um bêbado, e depois o capítulo é meio que desenvolvido a partir destas frases. O capítulo décimo segundo é propositadamente “mal escrito” em vários momentos, quando Joyce abusa de advérbios e adjetivos repetidos. Ele brinca com os nomes dos personagens, enchendo o livro de trocadilhos que, sem dúvida, são intraduzíveis. Também, se não me falha a memória, é neste capítulo que Joyce faz umas digressões sobre a história da Irlanda, apresentando pelo menos umas cinco listas imensas – algumas de nomes, outras de lugares, todas igualmente insuportáveis.

Quando terminei o capítulo 12, estava a ponto de desistir. Vou tentar mais um, pensei, já completamente desanimado, certo de que a leitura não estava valendo a pena. O capítulo 13 é o famoso capítulo da masturbação, e é aquele que mais me agradou, principalmente por dois motivos: a) parte da narrativa (do ponto de vista de Gerty, moça alvo dos olhares lascivos de Bloom) é clássica, lembrando muito Jane Austen ou, sei lá, Flaubert, por conta do estilo claro e elegante; b) pra mim, o capítulo funcionou como uma perfeita metáfora do que é o livro: pura masturbação intelectual. Bloom é Joyce, que olha para seu livro e fica excitado a ponto de se masturbar. O detalhe é que a descrição do seu objeto de desejo no início do capítulo mostra Gerty como uma moça de atributos praticamente irretocáveis, a beleza em pessoa. Quando Bloom termina seu “serviço” e observa a moça se afastar, nota que ele é manca e se mostra um tanto decepcionado. Não sei se estou viajando muito, mas Ulisses, enfim, é sobre viajar.

Não sei se o capítulo seguinte, o da maternidade, é o pior de todos os que li, mas se não for, chega perto. Muito, muito, confuso, até para os padrões dos capítulos anteriores. Eu sabia o seguinte: havia algumas pessoas numa maternidade esperando pelo nascimento de um bebê. Eu não sei quem estava grávida nem por que aquelas pessoas estavam ali (Stephen, Mulligan, Bloom). Eles começam a falar de medicina, literatura, religião. Mais uma vez ouço a voz de Joyce “se mostrando”.

Quando cheguei ao capítulo seguinte, o do bordel, que nem é o pior, resolvi parar.

Por que ler? Pra que ler? Por que continuar essa tortura? Em quantas das 538 páginas eu me diverti? Quantos foram os momentos que me fizeram gostar de ter aquele livro enorme nas minhas mãos?

Ler com a sensação de estar enfrentando um suplício é terrível. Não estou me preparando para um mestrado ou estudando para concurso público, para TER que ler alguma coisa. É literatura! É diversão!

Não sou iconoclasta: não pretendo diminuir o valor de Ulisses (seria muita imbecilidade minha, claro) porque não gostei dele. Sei que é um livro quebra-cabeça (de cinco ou dez mil peças). Um leitor comum como eu não conseguirá juntar mais que cem peças numa primeira leitura. Talvez duzentas na segunda, talvez quinhentas na terceira. Talvez um dia eu chegue a juntar três mil peças e se me afastar bastante consiga contemplar, ainda que parcialmente, uma bela cena. Talvez. Mas considerando quão escasso é meu tempo e quantos livros fantásticos quero ler e reler, o que penso é: não vou arriscar tudo isso por Ulisses. Não agora. Talvez volte a ele daqui a dez, quinze, vinte anos.

Pra “limpar a vista”, vou ler alguns livros escritos para mortais que estão na minha fila mais imediata: Stephen King, Umberto Eco, José Saramago.

Acabou que não conheci o famoso monólogo de Molly. Não tenho a menor curiosidade. Sério.

2 Respostas para “Ler e abandonar Ulisses

  1. Terminei abandonando o livro por motivos similares aos teus. A diferença é que: a) eu nem cheguei tão longe na “narrativa”; e b) tenho muita, muita curiosidade (e desejo) pelo quem vem pela frente… Mas, para me aventurar neste desafio masturbatório, tenho que permitir que ele monopolize as minhas atenções, tarefa árdua, infelizmente. Mas chegará o momento…

    Quanto à questão do desagrado, do despraze, etc., às vezes isso é proposital e justifica ao final do processo: estava nutrindo uma verdadeira ojeriza por O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, como bem lembras, mas, ao término do romance, tudo fez sentido, tudo era proposital!

    Espero que tu revogues a decisão e avance um pouquinho mais qualquer dia… O truque é “mortalizar” o livro mesmo, como bem adiantaste.

    Estarei aguardando…
    WPC>

  2. Sério, uma grande pena muitos abandonarem a leitura de “Ulysses”… Eu, necessáriamente, achei o livro delicioso! Eu li a tradução do Galindo, da Penguin, que é muito bem feita e pensada com carinho. Posso ser um pouco suspeito para falar do livro, pois sou fã do Joyce.
    O meu desejo maior é ler o Finnegans Wake (que dizem ser mais difícil e enigmático do que o Ulysses).
    Minha dica é vocÊ ler a Odisseia antes de ler o Ulysses, pois assim vocÊ fica mais seguro para entender grande parte.

    (Uma pena não terem chegado ao incrível monólogo da Molly Bloom, é simplesmente genial – E é o capítulo final… então, tem que ler até o fim, rsrsrsrsrs!)

    O grande problema, creio eu, que faz abandonarem a leitura é tomá-lo como algo divino… O bom é ler sem pretenção, degustá-lo pelo que ele é: um livro.

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