Resenha – Dias Perfeitos – Raphael Montes

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Ouvi falar de Raphael Montes pela primeira vez há uns dois ou três meses. Na verdade, vi um vídeo do próprio Raphael Montes se apresentando como escritor de romances policiais no canal do YouTube do Literatortura. A partir daí, vi seu nome aparecer em todo lugar: destaque nos sites da Saraiva, da Companhia das Letras, entrevista no Jô Soares, resenhas em alguns blogs. Em todos os casos destacava-se o talento deste jovem escritor, com especial destaque para “jovem”. Não é para menos, já que Raphael Montes sequer completou 24 anos e já tem um dos seus livros publicados por uma das maiores editoras do país e, segundo consta, com ótimas vendas.

Como o blog tem parceria com a Companhia das Letras, decidi pedir o Dias Perfeitos. Gostei bastante de todos os vídeos que o Raphael fez no Literatortura: sem frescuras, sem afetações, falando diretamente, sem medo de se definir como pertencente ao gênero policial.

O livro chegou e eu confesso que não tinha lá grandes expectativas em relação a ele. A história não me chamava muito a atenção – um estudante de medicina psicopata conhece uma menina cabeça, meio “banda voou”, como se diz por aqui, fica obcecado por ela e, não correspondido em seu “amor”, resolve sequestrá-la para convencê-la de que eles foram feitos um para o outro.

Esta trama me trouxe à memória o filme Ata-me!, de Pedro Almodóvar, que possui uma premissa praticamente idêntica. Praticamente idêntica é também a história de O colecionador, de John Fowles, livro que não li. Cito estes dois exemplos apenas para ressaltar que não é pela originalidade que o livro pretende se destacar, apesar de que um bom livro de literatura policial pode apostar num clichê e mesmo assim ser bem sucedido, dependendo apenas de a história ser bem contada.

Antes de começar a falar do que achei do livro, uma observação importante: li Dias Perfeitos depois de ter lido e gostado demais de dois livros de Stephen King: On Writing, onde ele fala sobre seu processo de criação literária e dá dicas sobre o que é necessário para um bom escritor se tornar um escritor competente, e Quatro Estações (Vídeo sobre Quatro Estações e Dias Perfeitos aqui e aqui), com quatro histórias magistrais em que ele coloca em prática tudo que disse no On Writing. Enquanto lia Dias Perfeitos, portanto, era inevitável lembrar-se da caixa de ferramentas, do uso dos advérbios, da importância dos diálogos…

 E já que falei dos diálogos, minha primeira decepção com Dias Perfeitos foi justamente com o diálogo inicial entre Téo e Clarice. Ora, o sujeito é um psicopata, disso sabemos desde o início. Mas, pelo que consta, ele nunca havia sequestrado ninguém, certo? Esta paixão avassaladora precisa mesmo ser muito forte para levá-lo a fazer esta loucura, correto? Como nasceu esta paixão? Já no primeiro diálogo. Téo e Clarice conversam, e o jovem estudante sai dali certo de que conheceu a mulher da sua vida. Este diálogo, portanto, precisa ser forte, contundente, precisa convencer o leitor. Não que seja poético ou dramático ou surreal. Pelo contrário, ele precisa ser real o suficiente para que eu, leitor, acredite que um sujeito pudesse mesmo cair de amores por uma garota.

“Está fugindo da música ou das pessoas?”, é a primeira frase proferida no diálogo. Depois perguntam amenidades um ao outro, e o narrador vai descrevendo as reações de Téo, que se deslumbra com qualquer coisa que Clarice fale ou diga. Não é que seja um diálogo ruim. Ele tem só um momento realmente constrangedor:

“E você? O que está bebendo?”, ele perguntou.

“É gummy. Uma porcaria que alguém fez com vodca e suco de limão em pó. Está com gosto de água sanitária.”

“Como você sabe o gosto de água sanitária?”

“Não preciso provar as coisas pra saber que gosto têm.”

Ela acreditava no que dizia, como se a frase fizesse sentido em si mesma.”

Ehhh… Bem, esse diálogo pareceria razoável entre adolescentes de quinze, dezesseis anos QUE JÁ SE CONHECESSEM. Um garoto com um mínimo de bom senso jamais perguntaria a uma menina com quem ela conversa pela primeira vez (e por quem ele está interessado) se ela já bebeu água sanitária, sob o risco de ela considerá-lo uma criança chata. E me parece que qualquer um que tenha um pensamento similar ao de Téo diante da óbvia resposta de Clarice tem sérios problemas. Talvez seja isso, então.

Sei que parece (e é, um pouco) injusto pinçar trechos do livro para analisá-los. Mas estou aqui mostrando por que não gostei do livro, e este diálogo foi o primeiro indicativo. Ele não me convenceu, e o que se seguiu continuou não me convencendo.

Outro ponto negativo que acompanha todo o livro – na verdade, faz parte da estratégia narrativa de Raphael – é a sua preocupação didática em explicar tudo que Téo sentia e pensava. Uma das lições que Stephen King ressalta em seu livro – não é uma lição original sua – é o “diga, não mostre”. Basicamente, significa que, se você quer dizer que o personagem João é antipático, não diga simplesmente “João é antipático”. Mostre isso por meio dos seus atos. Nós, leitores, chegaremos a esta conclusão sozinhos. Raphael não precisava ficar dizendo o tempo todo que Téo era louco (ele não diz isso expressamente, mas mostrando a incoerência dos seus pensamentos). Ele só precisava nos mostrar seus atos, e logo seríamos convencidos disso. O conto Aluno Inteligente, presente no livro Quatro Estações, de Stephen King, mostra dois personagens também psicopatas. Mas King não precisou dizer isso. Ele nos mostrou por meio das ações insanas dos dois.

Agravando esta situação está o fato de Raphael Montes, não sei se propositadamente, retratar o processo mental de Téo como altamente infantilizado. Numa cena, por exemplo, Clarice diz algo “legal” para Téo, e ele pensa que a ama, e que ela é a mulher de sua vida. Em seguida, ela o desaponta, com alguma ação desagradável. O autor diz mais ou menos assim: Téo ficou triste, e deixou de gostar dela. Um segundo depois, outra ação positiva, e Téo fica feliz e gosta de Clarice novamente. Provavelmente Raphael pesquisou sobre as patologias da mente para compor Téo, e nada no livro é aleatório, mas fruto da intenção do autor de retratar a doença de Téo. Mas o leitor precisa ser convencido. Para ser convencido, o personagem precisa viver fora do livro. Por fora do livro, quero dizer que eu tenho que imaginar como foi a vida de Téo até o momento em que Raphael Montes escreve as primeiras linhas de Dias Perfeitos. Tenho que imaginar também como será a vida dele a partir do momento em que o autor escreve o fim da história (considerando que ele continue vivo, algo que vocês só vão saber se lerem o livro, já que não vou entregar um spoiler tão grande). Fato: eu não consigo imaginar como foi possível para alguém tão irregular, imprevisível, inconstante e irreal como Téo viver antes do livro. Ele começa o livro parecendo muito inteligente, mas protagoniza momentos de extrema burrice; ele começa o livro como autossuficiente, um verdadeiro sociopata, avesso totalmente ao convívio social, que mal tolera a mãe e seus semelhantes, para se mostrar carente e até arriscar gracinhas quando conveniente. Téo, enfim, é um personagem de livro que não consegue viver fora de Dias Perfeitos.

Não é que Raphael Montes não saiba escrever. Ele escreve com competência, sabe criar algumas situações tensas, os diálogos, no geral, são bons, as descrições são adequadas, mas a impressão que eu tive é que ele se preocupou tanto em dar credibilidade à loucura de Téo, que acabou não sendo bem sucedido nisso.

Não vou nem me deter nos “furos do roteiro”. Há pelo menos dois gravíssimos: um que cheira a preguiça do autor, quando um determinado personagem escapa de uma situação limite porque, convenientemente, a chave para sua fuga literalmente fica ao alcance das suas mãos, e outro ainda mais absurdo, que envolve o uso perverso das habilidades cirúrgicas de Téo.

Dias Perfeitos não me agradou. Há algum tempo, comprei o livro de um autor que se promove pelo Facebook. Era um livro policial, e eu não esperava muito dele. Acabou se revelando um livro péssimo. Para mostrar como Dias Perfeitos acabou sendo uma decepção, eu esperava que o livro do autor do Facebook (confira minha resenha aqui) fosse um Dias Perfeitos um pouco melhor. É isso.

Talvez eu leia um próximo livro de Raphael Montes, mas só se eu ler que ele amadureceu muito como escritor, e que seu novo livro é muito melhor que Dias Perfeitos. Mas ele é jovem, e tudo indica que tem um longo e alvissareiro caminho a percorrer como escritor de literatura policial, a despeito da minha desfavorável opinião.

Minha Avaliação:

2 estrelas em 5.

5 Respostas para “Resenha – Dias Perfeitos – Raphael Montes

  1. Tai um romance que provavelmente n lerei🙂 nós conversamos um pouco sobre as nossas expectativas sobre esse livro, e pelo visto acertamos nos palpites🙂 mas como vc disse, ele parece realmente ter talento, é jovem, e amadurecerá.

    Enfim, boas leituras🙂

  2. O livro é fantástico! Ele tem final aberto a muitas interpretações, o personagem principal é extremamente desequilibrado e complexo, não é psicopata – o que pode ser confirmado fazendo uma pesquisa sobre psicopatia na internet. Raphael escapou às definições fáceis e apressadas, como psicopata ou louco. Como se sabe, “louco” pode ser um termo pejorativo para aquilo que não se compreende, e não é, de maneira alguma, um diagnóstico da Psicologia, para a qual não há também a “normalidade”, como o senso comum imagina.

    Não há uma preocupação didática em explicar tudo o que o personagem diz e faz, o que temos é a narrativa segundo o ponto de vista de de Téo, única e exclusivamente. Nunca sabemos qual a perspectiva dos outros personagens, senão quando a dizem. É apenas um dos tipos de “narrador” possíveis em romances, e este é um romance de supense psicológico – Virgina Woolf, por exemplo, foi umas das grandes mestras em narrar abundantemente o estado psicológico de uma personagem.

    Não me convenceu o argumento em cima do trecho retirado. Primeiro, ele foi deslocado de contexto; segundo, Téo, naquele momento, não estava interessado em Clarice; Terceiro, Clarice é abusada e intrusona, e a fala dela deu a deixa para a pergunta que eu, considero, perfeitamente plausível.

    É legal ver uma crítica distoante das que eu tenho encontrado – porque este livro está fazendo um sucesso absurdo. Ele vendeu 10 mil exemplares na primeira semana – a tiragem inicial. Já está sendo reimpresso. Raphael publica ele pela Companhia das Letras, a melhor editora do país – segundo autores, professores e intelectuais – depois do sucesso do primeiro livro, “Suicidas”, indicado a dois prêmios.

    Grande abraço!

    • Bom ver uma opinião diferente da minha, xará. Fico muito feliz pelo sucesso do livro, sem dúvida. Sou um eterno torcedor da literatura nacional, tanto que vivo lendo novos autores. Quero que Raphael Montes escreva muito, venda muito e viva da literatura, abrindo caminhos para outros jovens escritores. Mas isso tudo, na minha opinião, não tem nada a ver com a qualidade do livro. Bons livros e maus livros fazem sucesso, isto é um fato.

      Obrigado pela visita no Blog e pelo comentário. Abraços!

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