Resenha – O Exorcista, de William Peter Blatty

capa do livro Exorcista

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Eu ando um pouco relutante para escrever resenhas. Li recentemente algumas boas obras, como é o caso de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, a coletânea de Contos de imaginação e mistério, de Edgar Allan Poe, mais recentemente O professor do desejo, do Philip Roth, o surpreendente O rei de amarelo, de Robert W. Chambers (este o meu irmão fez um vídeo no nosso canal literário, O lugar do livro (vide link aqui)), e por último, O Exorcista. Acho que esse capricho, de não resenhar mais, se deve ao simples fato de eu não querer apenas apresentar um resumo (sem spoilers) da obra, porque gosto de escrever textos mais pessoais, sobre como o livro me impressionou, me marcou. Nos outros livros citados, teria pouca coisa a relacionar comigo.

O que não é o caso desse livro aqui.

Provavelmente, você leitor, nalgum momento da vida, deve ter visto alguma cena, referência, ou, simplesmente, visto o filme, ou lido o livro. A minha primeira experiência com essa obra – e olhe, sou muito, mais muito covarde para filmes de terror -, foi de assistir sozinho, em casa, durante o inverno, tendo como companhia aquele silêncio sepulcral, os uivos do vento sob a porta e o canto da rasga-mortalha sobre o telhado. E para piorar ainda mais, tive de vê-lo com o som beeeeem baixinho, tendo de aproximar o rosto da televisão (justamente para não acordar a minha mãe, que acorda com simples toque de uma pena ao cair no chão).

Assisti. Passei dias e dias sem me esquecer daquelas feições deformadas da menina possuída. Não, não, não me refiro às cenas finais, falo daquelas primeiras “apresentações” da endemoninhada, como na cena X com um crucifixo ou quando ela fica de joelhos na cama e dá um tabefe na mãe. Nessas cenas ela ainda resguarda um semblante infantil, meigo, mas com aqueles traços sutis, mas demoníacos no rosto. Pois bem, assisti e falei com meu amigo, naquele tempo, colega de trabalho, Wesley, do site (vide link). E, como toda criatura impressionável, me ative apenas às cenas de possessão. Ele, cinéfilo, comentou, mais ou menos assim: “E quanto ao drama da mãe, atriz, ou mesmo do Padre Karras e todo seu dilema com a mãe?”. E eu, com aquela cara de tacho, pensei: éeeeeee mesmo, rapaz!!!

Trocentos anos depois, meu irmão vai a um sebo e compra o livro e eu, em seguida, compro-o dele. Então eu li. Em suma o romance conta a história de Chris MacNeil, atriz renomada, e que agora é convidada para dirigir um filme, um dos seus sonhos. Ela tem uma filha de 12 anos, a Regan (quando eu li 12, pensei: Lolita. Esse número deve ter algum significado relacionado à inocência, passagem do ser criança para adolescência, enfim, quem souber me diga), uma pacata guria que, num determinado momento é possuída (ou não) pelo demônio. E por que o “ou não”? Porque, justamente, o autor, apesar de eu achar que ele não foi muito feliz, tenta não deixar essa certeza para o leitor. Temos páginas e mais páginas com a mãe levando a menina para ser analisada por médicos, psiquiatras, psicólogos, e todos eles com uma série de exames e teorias e exemplos e mais exemplos de casos semelhantes para, na medida do possível, procurar entender o que está acontecendo com a Regan.

As primeiras páginas do livro (e do filme) começam com uma escavação num determinado lugar e um achado. Os pesquisadores encontram uma figura de pedra que representa um demônio. Daí, desse prólogo, passamos a conhecer o dia-a-dia da mãe da futura “endemoninhada”, e mais à frente ainda conhecemos o padre Karras (de longe, a figura mais bem construída da trama). Por último, o detetive Kinderman, que está investigando um culto satânico e uma morte X (figura chata, detestável, inútil, irritante). E aqui vai o primeiro ponto curioso a respeito do romance. Todo o livro, ou melhor, 80% dele é puro diálogo. As partes destinadas a Chris e Regan se resumem a, basicamente, simples descrições do que elas estão fazendo e onde estão, sem diálogos. Contudo, quando entramos nas partes vividas pelo Pe Karras, o autor, aparentemente, pretendeu ser um pouco mais complexo, mais “estiloso”, na medida do possível, imagino, para representar assim o quão complexa é a figura do padre e futuro exorcista da história. Mas não passa de uma tentativa, Não vemos nenhum Faulkner não.

A trama vai se desenrolando como num romance policial. Melhor, nós estamos diante de um romance policial e não um de terror. Podemos perceber isso não só pela forma como é contada, principalmente centrada nos diálogos, como pela falta de construção do clima de terror. E aqui vai a crítica. Conversando com um amigo, Artur, tentei passar para ele como a estrutura do livro era simples demais. Como, por exemplo, diferia demais, demais, de qualquer conto de terror do Edgar Allan Poe ou mesmo de algum de O Rei de Amarelo, e ele me vem com a pérola:

“É como se fosse um livro baseado num filme

Ao invés de um filme baseado no livro”.

Perfeito. Essa foi justamente a impressão que ficou comigo. Para quem assistiu primeiramente ao filme, e preciso dizer que todas as cenas do livro estão lá no filme (é tudo muito fiel), será, provavelmente, impossível não ler o livro e, simultaneamente, não pensar no filme. Mais do que isso. Quando você chegar aos trechos X e você se pega pensando: caramba, se eu não tivesse visto o filme, eu teria me assustado ou mesmo achado tais cenas tão assustadoras? E por que digo isso? Por que o autor, apesar de construir ao poucos o suspense, colocando aqui e ali algumas mudanças gradativas, detalhes, cenas, como, por exemplo, logo no início de tudo, os barulhos de “ratos” no sótão, ele não preencheu as páginas com palavras. Entenderam? Se é para ele dizer que as personagens subiram as escadas e lá viram um fantasma, pronto, ele faz exatamente assim. O romance se alimenta muito mais daquilo que possivelmente nós imaginamos, ou como imaginamos, do que pelo que ele realmente é como obra literária. Será um defeito? Bem, se a intenção dele foi a de criar cenas chocantes sem precisar escrever muita coisa, ele teve sucesso. Mas independente desse feito, intencional ou não, como obra policial/terror, a construção do suspense, do clima, ficou, para mim, muito refém do nosso conhecimento prévio do filme.

Prosseguindo. Mais do que um romance de terror, a obra, na sua humildade, procura também apresentar um embate entre fé e religião, mas mais do que isso, O Exorcista é sobre Cura Interior.

Não cometamos o mesmo erro que eu e fiquemos presos às cenas de terror e ao exorcismo, mas pensemos na trajetória da mãe de Regan e Karras. Ela, ateia convicta, que se aborrece quando a tia meio que apresenta a figura de Deus para a filha; ele, figura representativa da figura de Cristo, perdendo aos poucos sua fé, vivendo em constante autojulgamento, autocondenação, devido à crise que alimentou com a sua idosa e doente mãe. Ela, novamente, descrente, procura somente na Ciência as respostas para a doença da filha, e chega ao ponto, quando não encontra mais caminhos, desesperada, histérica, de procurar a Igreja para que esta realize o exorcismo na filha; Ele, por sua vez, também muito racional, é o retrato daquele que fica em cima do muro, e isso o incomoda. Ela cede, abre espaço para a dúvida, pelo menos; ele, num determinado trecho X, pareceu estar sorrindo, quando finalmente percebeu que fez o que achou certo para a alma dele.

E agora eu me vejo aqui pensando, como concluir esse texto? Vale a pena ler esse livro. Eu recomendaria. Assusta? Se você assistiu ao filme, vai lembrar de todas as cenas. O livro assusta por ele mesmo? Não. Eu posso chegar aqui e escrever sobre fantasmas e não será por isso que irei assustar você, caro leitor. Como texto, obra literária, estrutura, estilo, ele é simples demais. Então, por que ler, já que, pelo visto, o romance, como obra independente, pare ser tão dependente do filme? Simples. Não o leia pensando somente nas cenas de terror. Não busque esse livro com essa intenção. Como Wesley me fez pensar melhor a respeito do filme, aqui posso dizer para vocês a respeito do livro. Este trata de pessoas e suas crises e dúvidas e tristezas.

Conselho? Leia o livro, assista ao filme. Assista ao filme, e leia o livro.

Ps: o autor desse romance foi roteirista do filme, dirigido por William Friedkin, que mais recentemente dirigiu o incrível e perturbador Killer Joe (2011).

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