Resenha – Noturnos – Kazuo Ishiguro

noturnos

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Eu gosto bastante de ler, e creio que isto está claro pelo meu blog e pelo meu canal no YouTube. Também gosto muito de música, apesar de não ser músico nem me considerar um entendedor do assunto. Sou um mero “consumidor” de música (mais ou menos como consumidor de livros) e tenho meu gosto, que é bastante abrangente, apesar de eu recusar o rótulo de “eclético”. Um dos meus sonhos secretos nada secretos é aprender a tocar um instrumento musical algum dia, preferencialmente o piano. Talvez daqui a uns trinta anos, quando eu tiver me aposentado, quem sabe.

Literatura e música, música e literatura. As duas artes juntas deve resultar em algo interessante, pensei, quando decidi pedir à Companhia das Letras o livro Noturnos, de Kazuo Ishiguro. É um livro de contos com “histórias de música e anoitecer”. Do escritor britânico (apesar de nascido no Japão, ele cresceu na Inglaterra, e seus livros são escritos em inglês), li apenas Never let me go, ou Não me abandone jamais, uma distopia de altíssima qualidade, um livro que me deixou muito, muito impressionado.

Eu esperava, portanto, por ótimas histórias, e não sei por que razão, enquanto pensava em escrever esse texto, a primeira ideia que tive é de que eu não havia gostado tanto assim dos contos, que eles seriam meramente “ok”. Quando peguei o livro para relembrar cada um dos cinco contos (eu li o livro em julho ou agosto, creio eu, e fiquei me amarrando para escrever a resenha), meu cérebro começou a trabalhar e eu só conseguia pensar: Acho que li esse livro rápido demais!

Por que pensei isso? Porque à medida que fui relembrando cada conto, eu via que tinha gostado bastante de todos eles, mas que eu havia passado correndo por cada uma daquelas histórias. E se há uma trilha sonora que casa bem com este livro é aquele jazz lento, pungente, como este April in Paris, cantado por Sarah Vaughan, citado em um dos contos:

Adianto, portanto, que Noturnos é um livro que eu preciso reler logo, porque não o li “adequadamente”, não o li como o autor, penso eu, queria que eu o lesse, como o próprio subtítulo sugere: histórias de música e anoitecer. É preciso deixar-se envolver pelas histórias como o dia deixa-se seduzir pelo anoitecer, sem pressa, sem violência, como um lento fechar de olhos.

O primeiro conto, Crooner, conta um episódio envolvendo Tony Gardner, um dos grandes crooners americanos, uma lenda viva da música. Ele está em Paris com sua esposa, com quem ele está casado há bastante tempo, para algo que parece uma segunda (ou terceira, ou quarta) lua de mel. Ele contrata um músico que encontra na rua para fazer uma serenata para a mulher. O conto é narrado por este músico, que revela, dentre outras coisas, que Tony Gardner é muito importante na sua história porque sua mãe era simplesmente louca por ele. O conto toma um rumo imprevisível e de certa forma cru, revelando uma dimensão bastante desagradável do show business. Muito, muito bom.

O segundo conto é Chova ou faça sol. Nele, Charlie e Emily, um casal em crise recebe em sua casa um antigo amigo, Raymond, que é visto como fracassado. O casal está quase se separando e Charlie, que está viajando a negócios, pede que Raymond fique com Emily e apenas seja ele mesmo durante alguns dias, meio que para convencer a esposa de como tudo deu errado para ele e como a esposa está melhor deixando de lado as velhas paixões e abraçando com mais força o pragmatismo. A situação absurda fará Raymond e Emily relembrarem a paixão que tinham em comum anos atrás (mesmo contra toda as recomendações de Charlie): a música. Um conto um tanto incômodo, que deixa um gostinho amargo na boca. Muito bom.

No terceiro conto, um músico que ainda não encontrou o sucesso vai passar uns dias num café que sua irmã mais velha mantém com o marido numas colinas turísticas. Lá ele ajuda nos afazeres enquanto tenta reencontrar sua inspiração. Ele conhece um casal de músicos, que o ajuda a refletir sobre a vida. Sim, a sinopse está péssima, mas foi um dos contos que mais gostei (e olhe que gostei muito de todos, percebi isso revendo os contos).

O quarto conto, Noturnos, é meu preferido, mas não vou falar quase nada dele, além do fato de envolver um músico muito talentoso, mas muito feio, que resolve, por pressão do seu empresário, fazer uma plástica numa clínica frequentada por muita gente famosa. Nesta clínica ele conhece uma atriz famosíssima e decadente, e vive uma aventura meio surreal com ela. Conto precioso.

O último conto, Celistas, conta a história de Tibor, um jovem celista cujo grande potencial é muito admirado pelos seus colegas músicos, e Eloise McCormack, uma famosa celista que decide orientar Tibor. É também um conto de desenvolvimento estranho, quase improvável, mas o talento de Ishiguro é em fazer-nos crer mesmo na mais improvável das hipóteses.

Repito: só ao rever os contos percebi que corri demais na leitura de Noturnos. É um livro para se ler como se ouve Nina Simone, sem pressa, sem esperar movimentos bruscos. Se isto lhe atrai, não perca tempo: você vai encontrar belíssimas histórias, que ficarão ainda melhores se lidas enquanto você ouve uma boa música.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s