Resenha – A Origem do Mundo – Jorge Edwards

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Até aconselhar meu irmão a aproveitar uma promoção de 50% de desconto comprando este título da Cosac Naify, eu nunca havia ouvido falar de Jorge Edwards. No site da editora, entretanto, há a opção de ler um trecho do livro, o que fiz e me convenceu instantaneamente de que seria uma boa compra. Meu irmão seguiu meu palpite e quando o livro chegou à minha casa, comecei a ler e não parei até terminar no dia seguinte.

Enquanto lia A Origem do Mundo, ia lembrando de uma das mais preciosas lições de José Castello numa oficina de contos que ele disponibilizou pela internet: a boa literatura é feita de muitas camadas. Sendo assim, não é exatamente fácil dizer do que trata aquela história. Aparentemente fala disso, mas também daquilo e daquilo outro.

Isto se aplica com perfeição ao pequeno romance (144 páginas num formato pequeno, quase de bolso) A Origem do Mundo. Grosso modo, o livro narra a história de Patricio Illanes, um médico na casa dos setenta anos, e sua esposa, também médica e uns vinte anos mais nova, Silvia. Eles vivem na França nos anos noventa, depois de fugir do governo de Pinochet. Lá eles convivem com outros amigos chilenos da época da luta comunista, dentre os quais se destaca Felipe Diaz, uma espécie de Vinícius de Moraes, um boêmio com fama de conquistador que se aproxima dos sessenta anos. Patricio é um dos amigos mais próximos de Felipe, mas nutre uma desconfiança terrível: em algum momento de sua vida, sua esposa o teria traído com Felipe?

Esta desconfiança ganha vida – e contornos patéticos – quando o casal está numa exposição vendo o quadro A Origem do Mundo, de Gustave Courbet. Por motivos de cunho pessoal, não postarei o quadro aqui, mas para quem não conhece, é um quadro polêmico, pintado em 1866, que mostra uma mulher nua, com as pernas abertas, com seu sexo em primeiro plano. Google it. A tela somente foi exposta publicamente em 1995, o que aliás, é o marco temporal para a história do livro, já que o casal está nesta primeira exposição Musée d’Orsay. Patricio brinca com sua mulher, dizendo que ela se parece com a mulher da pintura. A brincadeira acaba descambando para o nome de Felipe Diaz, que eles não veem há um mês e que, segundo Patricio, costumava tirar fotos de suas amantes nuas.

Não vou entrar nos detalhes da trama, mas um acontecimento trágico, logo no início do livro, vai fazer Patricio mergulhar cada vez mais nesta obsessão, dando início a uma investigação estranha e humilhante. “Houve momentos”, diz o próprio Patricio, “em que senti o sopro da demência atrás da orelha”.

A primeira camada do livro, portanto, é uma história de ciúmes da terceira idade, o que pode parecer nada atraente. Não há como não lembrar de Dom Casmurro, o que não é coincidência, pois li que Jorge Edwards é fã de Machado de Assis e até já escreveu um ensaio bem detalhado sobre o escritor brasileiro. Esta camada, por si só, já valeria o livro, pois é muito bem contada, com personagens bastante críveis e uma prosa muito agradável.

Há, contudo, bem mais. Minha capacidade cognitiva não é espetacular. Eu diria que é razoável. Dito isso, tenho certeza de que não consegui captar todas as camadas da história. Mesmo assim, percebi três outras camadas bem distintas, das quais pouco ou quase nada falarei, para não estragar a surpresa da descoberta de quem for se aventurar neste belo livro:

Há uma camada que fala da velhice, do fim dos sonhos, do ocaso da vida. Patricio é um médico que sempre foi bastante preocupado sua saúde e vê no seu amigo Felipe Diaz uma espécie de antítese de sua própria vida: um boêmio muito mais novo que ele, porém muito mais envelhecido pelos abusos, pela vida sem regras. Ao longo do livro ele reflete, a partir de um determinado acontecimento, o que é envelhecer, o que o mantém ligado à vida. Lembrei-me, por conta desta dimensão, de A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, e do belo filme Amor, de Michael Haneke.

A camada política é bastante presente: Patricio e Silvia são meio que dissidentes do socialismo que eles defendiam anos atrás, como o é o próprio Jorge Edwards. Para eles, as pessoas erraram a mão e subverteram os ideais socialistas, a exemplo de Fidel e dos seus abusos em Cuba (Aqui entra a experiência pessoal de Jorge Edwards. Ele era diplomata no governo de Salvador Allende e foi enviado para morar em Cuba. Lá ficou chocado com o autoritarismo e as injustiças de Fidel. Tentou expressar sua opinião e foi proibido pelo ditador cubano. Quando deixou a ilha, publicou Persona non Grata, livro que o tornou famoso e, obviamente, uma persona non grata entre os socialistas). Assim, eles não são bem vistos nem pelos seus ex-colegas esquerdistas, nem pela direita. O livro deixa escapar um desencanto com toda essa realidade política, e nos momentos em que as velhas diferenças ideológicas entre Patricio e seus amigos vêm à tona, é como se todos eles rejuvenescessem.

A última camada é a mais relevante, e por isso falarei bem pouco dela. Diz respeito à importância da ficção, da fantasia na vida das pessoas. Pode-se depositar a esperança de uma vida numa ficção? Esta camada dialoga com todas as outras, mas “entregarei” apenas uma, e que é uma percepção bem pessoal, que pode estar equivocada. Há uma analogia entre a história principal e a maior fantasia que eles teriam vivido no passado (e para a qual precisariam voltar, mesmo sabendo que continuava a ser uma fantasia, para se manterem vivos): a utopia socialista.

A Origem do Mundo é um daqueles livros que você termina e fica louco para encontrar alguém que tenha lido para começar a debater alguns pontos. É um livro rico, como tentei deixar bem claro ao longo deste texto. E olhe que nem falei da prosa de Jorge Edwards, das excelentes escolhas narrativas que ele fez (como o fato de que quase todo o livro é narrado em primeira pessoa, com exceção de dois capítulos em terceira pessoa e do capítulo final, narrado por… bem, leia o livro). Um pequeno livro, do qual eu não esperava nada, mas que se revelou uma das minhas melhores leituras deste ano.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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