Resenha – Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski

crime

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O que esperar da releitura de um clássico absoluto, considerado um dos maiores romances já escritos? Acrescento: o que esperar da releitura de um clássico absoluto, quando na primeira leitura você teve a clara consciência do tamanho da obra, mas não sentiu “aquilo” que achava que deveria sentir quando leu? Mais ou menos como finalmente comer o famosíssimo (e delicioso) Baião de Dois que um casal amigo seu faz, só que no dia que você comeu você estava meio ruim da barriga porque tinha tomado sorvete demais na noite anterior. Não é que o baião de dois estava ruim, você é que não estava devidamente preparado para comê-lo.

Foi com este espírito que comecei a reler Crime e Castigo, na edição da Editora 34 que comprei para meu irmão. Eu sabia que não tinha lido como deveria e queria resolver esta pendência. Ao mesmo tempo, eu temia não encontrar prazer no processo. Nas minhas lembranças, a história do livro era confusa, como confuso era Raskólnikov, seu protagonista.

E então comecei a ler.

E aqui preciso esclarecer algo, que já vai entregar exatamente em que consistiu a minha experiência de releitura. Você achou que a comparação que fiz de Crime e Castigo a uma comida “básica” e “grosseira” como o baião de dois foi, de alguma forma, inadequada? Se achou, é porque você não comeu o baião de dois que Dete e Júnior (meus amigos) fazem. O baião de dois é uma comida que desperta os mais básicos instintos alimentares, como se seu paladar estivesse dizendo pra você: finalmente estou comendo comida de verdade. É como um alimento atávico, que leva você dezenas de milhares de anos no passado. O ser humano passava dias e dias sem se alimentar e quando finalmente encontrava e matava a sua caça, cada bocado mastigado tinha gosto de vida e de futuro e de esperança. Estou sendo hiperbólico? Claro. Sem dúvida. Com certeza. Indubitavelmente.

Mas Crime e Castigo é isso. É uma experiência literária primária, básica, original, como se estivesse dizendo o tempo todo: para isso a literatura foi criada, para entregar mensagens e emoções como estas.

Antes de começar a releitura, eu estava pensando comigo mesmo: este ano foi um ano de vários bons livros, de alguns ótimos livros, mas ainda não tinha encontrado o meu O Som e a Fúria (resenha aqui), que foi o meu momento transcendental de 2013 (e que, aliás, eu li no finalzinho do ano). Eu ainda aguardava por isso. Depois de Crime e Castigo, o que vier é lucro. Já tive o meu momento. E, para ser bem sincero, o que experimentei com a história de Raskólnikov me remeteu a 1997, quando entrei na UFS e li Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz, uma dos pontos-chaves da minha vida literária (está lá no meu vídeo sobre os livros que marcaram a minha vida). Eu não queria terminar o livro! Quando cheguei lá pela página 400 (o livro tem 561), fiquei com o coração apertado com o fato de que já estava acabando.

Sim, sei que pareço um fanboy aqui, só elogiando,elogiando, elogiando. Antes de explicar os motivos que me fizeram ter essa impressão, deixe-me dar um mínimo de informação sobre o enredo do livro, apesar de o mote de Crime e Castigo ser mais do que conhecido:

Um jovem estudante de direito, Raskólnikov, vive na pobreza em São Petersburgo. Sua mãe e sua irmã moram numa cidade no interior e fazem todo tipo de sacrifício para pagar sua educação. Entretanto, eles são mesmo muito pobres e Raskólnikov não tem conseguido arcar com os custos da faculdade. Até para se manter alimentado e sob um teto, ele tem recorrido constantemente aos empréstimos de uma velha usurária e cruel, que não dispensa um copeque dos juros devidos.

Raskólnikov desenvolveu há algum tempo uma teoria, que consiste basicamente no que segue: há os homens comuns e os homens extraordinários. Para os homens comuns foi criada a lei. Os homens extraordinários reinventam, estabelecem a lei. Estes se tornam os Napoleões de sua época, e estão acima de todo conceito mundano. Se eles cometem um crime, este é justificado pelo grande bem que daí resulta. Assim, Napoleão, para construir seu império, assassinou muita gente, e isso sequer foi levado em conta pela história.

Claro que se Raskólnikov elaborou esta teoria, ele mesmo se inseriu no grupo dos extraordinários. De fato, ele tem uma inteligência acima da média, e guardava em si um enorme desprezo pelas pessoas.

A partir da sua teoria, ele elaborou um plano simples para conseguir terminar seus estudos: mataria Alena Ivanovna, a velha usurária e roubaria a fortuna que ela guardava em sua casa, pelo menos três mil rublos.

Segundo a sua própria teoria, seu crime seria plenamente justificado, já que serviria para possibilitar eventos muito maiores, que se tornariam possíveis a partir do momento em que ele terminasse seu curso de direito. Ademais, a velha sequer poderia ser considerada humana. Nas palavras do próprio Raskólnikov, ela não passava de um piolho. Era insignificante, cruel, mesquinha. Ninguém lamentaria a sua morte.

Ele põe seu plano em prática (não se preocupe, não estou entregando nenhum spoiler aqui, estes eventos acontecem todos no início do livro), mas algo dá errado: Lisavieta, a irmã bondosa e simples de Alena Ivanovna, estava no apartamento e acaba sendo também assassinada por Raskólnikov.

O livro tem início praticamente a partir deste fato, lançando ao leitor a seguinte pergunta: Raskólnikov será capaz de ir até o fim com sua teoria?

Até o fim do romance, o estudante enfrenta uma terrível crise psicológica e encontra muitos personagens que marcam sua vida e levam-no a refletir sobre o que vale e o que não vale a pena nesse mundo: uma prostituta quase santa, um juiz de instrução, um estudante de bom coração, um bêbado fraco e deprimente, uma viúva sofredora, um homem rico e desalmado, um homem cínico e sem moral.

Só nesta minha releitura percebi claramente como se estrutura Crime e Castigo, o que, na minha opinião, é responsável em boa parte pela força tremenda do romance.

Enquanto lia, eu me perguntava: o que chama a atenção neste livro? Qual a jogada de mestre de Dostoiévski, para fazer de Crime e Castigo o que ele é? Não é a prosa, competente, mas muito “formal”, quase técnica. Não são os diálogos, nem a ação. Não são os personagens – apesar de Raskólnikov e Sónia serem estupendos, e os outros serem todos bem construídos.

Aí me dei conta de algo que “estava ali o tempo todo, só você não viu”: são os encontros. Crime e Castigo é estruturado de uma maneira que lembra muito uma peça de teatro. Há os momentos em que Raskólnikov perambula desorientado pelas ruas, mas a maioria absoluta das páginas é ocupada com encontros, grandes encontros, dos quais ninguém (especialmente o pobre Raskólnikov) sai incólume.

Quando percebi isso (lá pelo meio do livro) quase recomecei a leitura só para fazer o registro de cada encontro. Se você já leu, puxe da memória. São tantos, mas tantos encontros antológicos, grandiosos, que nem dá para enumerar. O primeiro digno de nota é entre Raskólnikov e Marmeládov, pai de Sónia. Mas os vários encontros entre Raskólnikov e Porfiri Pietróvitch (juiz de instrução), entre Raskólnikov e Lújin (noivo de Dúnia, irmã de Raskólnikov), entre Svidrigailov (nem adianta tentar explicar aqui no espaço destes parênteses) e Raskólnikov são todos fenomenais. Não há nada, entretanto, que se compare aos encontros entre Raskólnikov e Sónia.

Há pelo menos três encontros no livro que estão no topo da minha lista de maiores momentos da literatura:

– o encontro entre Raskólnikov e Sónia em que ele lê para ela a passagem da ressurreição de Lázaro;

– o funeral de Marmeládov, uma cena muito longa com duas partes, a primeira, completamente patética (no sentido original da palavra – que comove, que enternece) e a segunda, mágica, quando Lújin entra em cena com uma acusação contra Sónia;

– O tenso encontro entre Svidrigailov e Dúnia, um momento em que Dostoievski mostra que se ele quisesse escrever livros “simples”, com enfoque na ação e nos fatos, ele continuaria a ser um gênio.

Estes são apenas três momentos de muitos, garanto-lhe, muitos. Sequer citei o jeito absurdo (e extremamente genial e moderno) como Dostoiévski termina o livro. Os dois últimos parágrafos de Crime e Castigo estão entre as palavras mais emocionantes que já li na vida. Ponto (Desculpem-me, não sei o que está acontecendo, não gosto de usar “Ponto” depois do ponto. Estou besta porque este é um texto apaixonado).

Reler Crime e Castigo foi, disparado, a minha melhor experiência literária neste ano. O tempo todo me vinha à cabeça o que Harold Bloom, Italo Calvino e tantos outros insistem em dizer sobre os clássicos: eles são inesgotáveis.

Minha segunda leitura foi incomparavelmente melhor que a minha primeira, e não vejo a hora – sério mesmo! –  de reler esta maravilha.

Agora finalmente compreendi por que Reinaldo Filho (meu irmão, membro desse blog, mas cujas colaborações são cada vez mais esporádicas, apesar de estar lendo tanto) já leu Crime e Castigo cinco vezes e está pronto para ler mais uma vez.

Não sei se Crime e Castigo é meu livro favorito, mas sei que agora já não sei dizer qual é.

Ah! Antes que esqueça, Crime e Castigo não é para ser lido como quem lê um livro de aventuras ou de ficção científica. Creio que uma das chaves para ser possível colher mais do que o livro tem a oferecer é a imersão. Leve o livro a sério, tente entrar na cabeça de Raskólnikov e se angustiar com ele. E aproveite a jornada. O sério risco que você corre é ter a maior viagem literária da sua vida.

 

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5 (pode colocar 6?)

12 Respostas para “Resenha – Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski

  1. Acho que está na hora de reler Crime e Castigo. Lembro que em seu vídeo sobre O Som e a Fúria (que me convenceu a continuar a leitura, obrigada!) comentei que a ressaca daquele só era comparável à de Crime e Castigo.
    Realmente são duas obras primas inesgotáveis.
    Ótima resenha, José Leonardo.

    • Obrigado, Renata. Que honra saber que você leu um livro influenciada por um vídeo meu. Realmente esses dois livros provocam uma senhora ressaca.😀

      Abraços!

  2. Rapaz, gosto muito de suas resenhas, tanto aqui quanto no YouTube.
    Gostaria de te enviar um livro, se for de seu interesse.
    Abração e parabéns!

    • Obrigado, Alessandro.

      Se for um livro de ficção, eu lerei, só não dou a menor previsão de quando isso ocorrerá. Se quiser mandar, portanto, fique à vontade.

      Abraços!

  3. Eu não consigo encontrar adjetivos para qualificar Crime e Castigo,assim, prefiro dizer que é o maior passeio pela alma humana que o homem já escreveu.

  4. Crime e Castigo está tirando meu sono, literalmente. Não estou conseguindo dormir direito pois todos aqueles diálogos não saem de minha cabeça.
    Gostaria apenas de fazer uma pequena correção em sua resenha:
    Nos três encontros que você destacou em seu texto, no primeiro (entre Raskolnikov e Sonia) é Sonia quem lê a passagem de Lázaro à pedido de Raskolnikov. E não o contrário.

    Parabéns pelo blog e pelo seu canal no Youtube. Gosto muito de suas resenhas!

  5. Li “Crime e Castigo” por livre espontânea vontade ; na verdade já havia ouvido falar muito da trama que é considerada um dos maiores clássicos da literatura mundial ; não foi fácil até porque eu estava lendo outros dois livros clássicos “Madame Bovarry” de Gustave Flaubert e um outro que acabei abandonando “O guarani” ; considero ambos as melhores leituras que fiz e que tive uma visão sobre a vida em si diferente ; saber que o livro foi escrito em uma época cheia de pudores e que acabou trazendo algumas “polemicas” para seus autores foi mais interessante ainda ; mostra que pouco a sociedade mudou ; como as pessoas são ambíguas e interesseiras e no final das contas a lição que o crime não compensa .

  6. Pingback: Escritores Russos =^^= | PROJETOS NO PAPEL

  7. NO livro volume I de crime e castigo não percebi que Raskolnikov foi preso. Quem é Arcádio Ivanovich Svidrigailov?

    Grata Ilidia

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