Resenha – História do Pranto – Alan Pauls

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Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

Escrito pelo não muito conhecido (por mim) romancista argentino Alan Pauls, História do Pranto é mais um daqueles livros que merecem ser lidos totalmente longe do automático. Precisei fazer duas leituras para poder conseguir entender um pouco mais do seu texto. Não, o que nos é contado, os fatos, a história em si, não é complicada, a dificuldade está na forma empregada pelo narrador, e é preciso adiantar: ela sufocou a narrativa.

A melhor maneira de me fazer entender perfeitamente é exemplificando com um trecho:

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Não conheço muitos autores que se utilizaram dessa técnica, na verdade, sei de apenas dois: Paul Harding, no A restauração das Horas, único livro dele que li e, aqui posso dizer com maior segurança, Thomas Mann. Este ama o aposto, venera a vírgula, é obcecado por esse tipo de construção frasal digressiva, de maneira que, se não estivermos totalmente concentrados no raciocínio inicial, estaremos perdidos antes de finalizar a frase, e quando assim o fizermos faremos a pergunta: ele falou o que mesmo no começo? Então, estimado leitor, esteja ciente dessa “dialética dos apostos”: todo o livro é assim.

A narrativa nos traz um emaranhado de lembranças, reminiscências, que perpassam da infância à vida adulta do protagonista (cujo nome, aliás, não nos é apresentado). Sabemos que ele foi um garoto filho de pais esquerdistas divorciados, classe-média argentina, extremamente sensível e peculiar, que não conseguia chorar se não na presença do pai (ponto chave do livro, para mim, essa relação dele com o pai), e que tinha pelo herói Super-Homem um particular fascínio. Assim como na infância, já na adolescência, gostava muito mais de ouvir a falar. Frequentava, com seu pai, um “pub” no qual um artista, estilo Chico Buarque, cantava suas peças contra o sistema político do seu país. Apaixonou-se por uma guria vinda de uma família dita, politicamente, de direita (entenda-se aqui direita não pelo viés exclusivamente econômico, mas sim seguindo o pensamento que nos foi ensinado nas escolas e pela mídia: burguês, cristão, conservador, reacionário, a favor da família tradicional e pelos valores ditos também cristãos – ah, e no caso do romance em especial, a favor e/ou fiel aos militares). Entenda que essas informações nos são transmitidas no decorrer das 85 páginas de forma não linear, no estilo labiríntico que falei, de idas e vindas, em enormes parágrafos e num único fôlego, já que o livro não foi dividido em partes ou capítulos.

E reiterando um pouco mais sobre os aspectos estruturais dessa obra, não nos é apresentada um história clássica com seu início, meio e fim, e sim momentos da vida da protagonista. Pense num quadro, uma pintura de algum artista que resolveu representar uma cena do cotidiano de uma cidade grande de décadas atrás, um centro urbano, num dia de “feira”. O pintor visualiza você diante do quadros horas a fio, aproxima-se e pergunta: e então, o que achou? E você, após pincelar de forma minimalista o painel, e de eleger um dos figurantes da tela o seu protagonista e imaginar a partir das pistas como foi a vida dele, conclui: de certa maneira o senhor conseguiu representar perfeitamente o que foi aquele década. Parabéns!

Vale a leitura? Sim, sem dúvida. A experiência da total dedicação a um narrativa é recompensadora. Conhecer um pouco dum momento histórico dos nossos vizinhos é valiosíssimo. Deparar-se com reflexões sobre a esperança, sobre a dor, sobre filmes (vide a parte em que o narrador faz uma relação entre “Invasores de corpos”, de Philip Kaufman, e a perseguição aos esquerdistas) é de encher os olhos. Fica a crítica aqui apenas dessa impressão de sufocamento. Imagino que o estilo, a forma é essencial, claro, mas ele não pode suplantar, se sobressair à história.

Bons livros. Boas leituras!!!

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