A neve estava suja – Georges Simenon

a neve estava suja

Por Eduardo

Começo já afirmando: esse livro mexeu comigo. Ele provavelmente não é o livro mais psicológico que eu irei encontrar na minha vida como leitor, sendo na verdade bem direto no que quer contar, entretanto talvez eu tenha lido ele no momento certo, fato é que assim que eu parava de ler o livro, e como é de costume, ficava a pensar sobre ele, acabava estressado, irritadiço… não sei bem explicar. Bem, sem mais delongas, vamos ao que interessa.

O livro fala sobre um jovem, Frank, 19 anos, que vive com a mãe em um prédio na França ocupada pelo nazismo no início dos anos 1940. Sua mãe, sobre a fraca máscara de manicure, administra um bordel que oferece serviços aos oficiais alemães. Frank é, sem sombra de dúvidas, um criminoso, ladrão, assassino. Não apenas por aliciar jovens para a atividade de sua mãe, mas pelo simples fato de que não tem nenhum apreço por nada. Logo no início do livro, e não é spoiler, ele comete seu primeiro assassinato apenas por vontade, por achar que estava na hora de matar alguém.

Na primeira parte do livro, que é dividido em três partes, o personagem central me lembrou muito Joe Christmas, personagem de Luz em Agosto, de Faulkner (e não digo isso pra querer fazer uma análise profunda desse personagem, tampouco de Faulkner, posto que só li este livro do autor até a presente data). No sentido estrito de ser calculista, frio, não ter o menor sentimento de culpa, ou sensibilidade para com o próximo, cultivando apenas relações práticas ao seu objetivo, independente de qual ele seja. No caso de Frank, já voltando para Simenon, seu motivo seria uma questão de orgulho. Frank tem como principal influência um criminoso chamado Kromer, mais velho e experiente. Todos os seus passos e crimes cometidos no livro têm sempre a sombra de Kromer, não como mandante, já que Frank é independente e mais inteligente que ele, nem como parceiro, mas talvez por querer se firmar aos olhos do amigo, e de outras pessoas da mesma estirpe.

Frank não dá a mínima para a mãe, ou para as putas de seu bordel. As possui quando assim deseja, e as despreza logo em seguida. Ao conhecer Sissy porém, algo desanda em sua “vida”. Apesar de trata-la como a todas as outras, Sissy acaba por despertar alguns sentimentos que ele não interpreta muito bem.

No desfecho do livro Frank acaba na prisão (também não é spoiler, está na orelha do livro), e começa a definhar sua existência, cujo valor já lhe não era alto, vivendo com raciocínios frios, e sofrendo, não pelo remorso, mas talvez por não conseguir entender tudo como ele achava que entendia. Nessa parte o livro me lembrou Kafka. Frank se julgava o mais esperto e inteligente, mas a situação fugiu de seu controle, e ele se vê preso por um motivo que, por mais que ele desenhasse estratégias e buscasse respostas em sua mente, não conseguia prever, e muito menos entender o sistema ao qual ele estava à mercê. A loucura, a deficiência da mente, tratada por Kafka pela incapacidade do indivíduo diante da sociedade, do estado, da própria vida, é tratada por Simenon para estudar o funcionamento da mente criminosa, presa a um sistema do qual não mantém referências, nada sabe de seu funcionamento. Afinal, o que busca um criminoso? Que tipo de recompensa, realização, prêmio, busca um assassino frio?

Simenon faz aqui um estudo da mente criminal. Ao ler esse livro talvez você entenda um pouco mais sobre esse assunto, ou talvez não. Porém, ao menos no caso de Frank Friedmaier, fica evidente que, antes mostrando-se poderoso e senhor de si, sua mente, por conta de uma simples situação, fato ou pessoa, pode revelar muitas fraquezas, e perder totalmente o fraco equilíbrio que mantinha.

Livro muito bom, como disse no início, mexeu comigo. Eu comprei pela capa, e pelo título. Imaginava algum assassinato a ser investigado, como os clássicos de Maigret. Me surpreendi. Livro super recomendado.

4 estrelas em 5.

2 Respostas para “A neve estava suja – Georges Simenon

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