Resenha – Sobressalto – Kenneth Cook

sobressalto

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

E aqui estou eu, de volta ao Catálise Crítica, depois de inacreditáveis 13 meses. Isso mesmo. Escrevi o meu último texto para o blog há mais de um ano, em novembro/2014. De lá pra cá, li vários livros, mas o blog foi perdendo espaço para o canal no YouTube, e acabei abandonando a prática que eu tinha de escrever um texto para cada livro que eu lesse. O tempo foi passando, o terceiro filho veio, outras obrigações que foram aparecendo, três calhamaços lidos praticamente em sequência (Graça Infinita, Os Miseráveis e Moby Dick) e o resultado foi a ausência não só dos textos no blog, mas também de vídeos no canal.

Confesso que cheguei a tomar a decisão de abandonar ambos, já que não estava conseguindo “produzir conteúdo”. Ocorre que eu havia assumido alguns compromissos: recebi alguns livros ou de agentes literários interessados em promover jovens autores, ou dos próprios jovens autores ou, como é o caso deste aqui, de pessoas que acompanham o blog ou o canal e queriam saber minha opinião a respeito de um livro pelo qual elas nutrem grande apreço.

Túlio Oliveira, a quem agradeço mais uma vez, entrou em contato comigo perguntando se eu leria este livro, se ele mo enviasse. Ele garantiu que se tratava de um livro rico, com uma história bastante interessante. Resolvi aceitar e recebi o livro ainda em outubro do ano passado, quando estava me aproximando do final da leitura de Os Miseráveis. O tempo foi passando e fui adiando a leitura até que resolvi conferir, e ao final eu voltava à velha pergunta que me faço sempre que me deparo com uma belíssima leitura inesperada:

Quantos excelentes livros eu nunca lerei simplesmente por não saber que eles existem?

Sobressalto, de Kenneth Cook, é um caso típico de livro que provavelmente eu nunca leria. Nunca havia ouvido falar do autor, nem sabia da adaptação para o cinema, de 1971.

Para explicar em poucas palavras qual a impressão que tive ao ler o livro, é como se eu estivesse lendo O estrangeiro, de Camus, e depois, como um pesadelo louco, visse o livro se transformar em um Se beber não case sem a parte da comédia. Entendeu? Não? Então corra e vá ler esse livro.

John Grant, um professor recém-formado, terminou seus dias de aula numa cidadezinha ridiculamente pequena chamada Tibonga, no outback, o deserto australiano, e, tendo juntado um suado dinheirinho ao longo do ano, viaja agora rumo a Sidney, onde há o mar, gente civilizada, água filtrada, onde não hã tanta poeira e tanto calor, para passar seis semanas de férias. No caminho até Sidney, contudo, ele precisa passar por uma cidade um pouco maior que Tibonga chamada Bundanyabba, ou Yabba, para os locais. É uma cidade de mineradores e de gente muito orgulhosa do seu jeito de levar a vida. John Grant, que se sente um verdadeiro estrangeiro, um ser superior a todos os caipiras ignorantes que o cercam, evita a todo custo qualquer contato, mas um policial insistente que ele conhece num bar convence-o a ir comer o melhor filé de Yabba. Depois disso e de muitos goles de bebida, eles vão conhecer outro ponto da noite de Yabba: o local onde se joga o Two-Up, um jogo que acaba enfeitiçando John Grant.

O que se segue é uma insanidade regada a muita cerveja. Grant passa quatro ou cinco dias numa “bad trip” que pode arruinar sua vida, com direito a uma indescritível caçada a cangurus que só lendo mesmo para crer.

Nestes dias de loucura, Grant descobre-se incapaz de seguir o que ele acreditava ser seu código moral. É como se todos os freios éticos e morais fossem desligados pelo forte calor e pela cerveja quente de Bundanyabba. O autor quer dizer que mostramos quem somos de verdade quando submetidos a situações limite e que, no fim das contas, o ser humano é um animal que beira a irracionalidade.

O autor tem uma prosa simples, mas muito forte, conseguindo criar cenas marcantes. É um livro que você quer reler assim que termina, e, no meu caso, sei que será um livro para o qual voltarei de tempos em tempos ao longo da minha vida.

Por isso mesmo, mais uma vez, obrigado, Túlio. Como você escreveu na dedicatória, o livro tem conteúdo de sobra.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5.

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