Resenha – O que não existe mais – Krishna Monteiro

krishna

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Volta e meia recebo propostas de envio de livros por parte de escritores iniciantes ou de agentes literários de escritores iniciantes. Volta e meia aceito essas propostas e me comprometo a ler e a resenhar esses livros. O que me leva a embarcar nesta aventura de ler livros totalmente desconhecidos e que ainda não passaram pelo crivo do mercado e da crítica literária? Uma inclinação natural que tenho pela literatura brasileira contemporânea, como já escrevi por aqui e falei no canal. O pendor que tenho para a escrita acaba me levando também a querer saber o que e como escrevem os novos autores brasileiros que conseguem sua (normalmente) primeira publicação.

Como supõe este parágrafo introdutório, O que não existe mais, de Krishna Monteiro, chegou às minhas mãos por meio do expediente citado. Demorei bastante a ler porque havia uma enorme fila de grandes livros (OS Miseráveis e Moby Dick, apenas para citar dois) e fui empurrando com a barriga, sempre arranjando outro livro para ler antes. Até que a consciência pesou (afinal eu havia me comprometido) e investi algum tempo neste pequeno volume de contos escrito pelo diplomata Krishna Monteiro, que segundo a orelha do livro é atualmente cônsul adjunto do Brasil em Londres.

São oito contos em 107 páginas, todos orbitando o tema do primeiro conto, que também dá nome ao livro: o que não existe mais. São páginas cheias de saudade, de memórias mais amargas que doces, de um gosto às vezes sutil, às vezes mais pronunciado de arrependimento e remorso.

Sim, esta era a sensação que eu tinha à medida que lia e este foi o gosto que ficou ao final da leitura. Agradeci intimamente por terem sido apenas oito contos, porque a tristeza presente nas páginas vai se acumulando e ao final você se sente um tanto esgotado.

O primeiro conto, O que não existe mais, começa assim:

“Na primeira vez que te vi depois de tua morte, tu estavas na sala, de pé em frente à minha estante e aos meus livros.”

É um conto que mistura sonho, devaneio, memórias, saudades que um filho sente pelo pai. Há algo de pendente na relação entre os dois, alguma situação não pacificada, e esta sempre foi uma sensação que me incomodou bastante, porque vivo buscando não sofrer com remorso, sempre tentando deixar todas as situações às claras, bem resolvidas, especialmente no que diz respeito aos meus familiares mais próximos.

O segundo conto, As encruzilhadas do doutor Rosa, é ainda mais onírico e surreal e foi, para mim, ligeiramente inquietante, e não num sentido positivo. Já o terceiro conto, Quando dormires, cantarei, é um dos mais criativos e, apesar de o leitmotiv se manter, a originalidade ao misturar dois narradores de espécies distintas faz com que a história seja das mais interessantes.

O quarto conto, Um âmbito cerrado como um sonho, é outro conto bem surreal, que deixa a nítida impressão de ter sido composto a partir de um sonho cuja trama foi anotada às pressas tão logo o autor se viu desperto. Aqui, mais uma vez o personagem central é um bicho.

Monte Castelo é o conto mais longo do livro e, apesar de sofrer de uma “crise de identidade”, acabou sendo o conto de que mais gostei. Um homem recorda a sua infância, as viagens para a casa de seus avós, os passeios com seu avô, a intimidade silenciosa entre os dois, o convívio dificílimo entre sua mãe e sua avó, as crescentes brigas, o rompimento, as tentativas de reconciliação. Em meio a essas lembranças, ele tenta reconstruir o perfil de seu avô e aí entra o problema da crise de identidade: um dos capítulos do conto simplesmente esquece a narrativa da memória da infância e volta anos no tempo para o período em que o avô lutou na Segunda Guerra Mundial. Um conto deve contar uma história, mesmo que haja múltiplas camadas. Não há espaço para mudanças bruscas, tudo é muito ligeiro, muito curto. Ao viajar para a Europa, o conto sofreu uma desagradável quebra no ritmo. Apesar disso, como falei, foi o conto que mais gostei, por conta dos outros capítulos, que são mais pé no chão que os outros contos do livro. O onírico, o surreal não estão presentes aqui. São memórias não lineares, mas o autor conseguiu me convencer de que um garoto, muitos anos atrás, viveu tudo aquilo.

Sudário é um conto de duas páginas, e nem sei se é exatamente um conto. Parece mais ser um desabafo nascido a partir de uma cena de suicídio, um exercício (muito bem sucedido) de argumentação e de visualização.

Alma em corpo atravessada fecha o livro e mais uma vez a estrutura onírica se faz presente. São memórias muito fragmentadas de uma velha, talvez uma avó, talvez uma mãe, que contava histórias de maneira quase ritualística à beira de um fogão de lenha.

É importante ressaltar que o que dá o caráter onírico/surreal aos contos, mais que a estrutura, é a prosa de Krishna Monteiro. Ele escreve muito bem, numa prosa que me remeteu a algumas passagens do difícil Lavoura Arcaica. O que não existe mais não é, portanto, um livrinho de contos para se ler enquanto ouve música ou enquanto se está distraído, apenas para passar o tempo. Se você fizer isso, terá que fazer como eu, que tive que reler alguns dos contos para saber o que eu realmente tinha lido. A prosa de Monteiro exige atenção e dedicação, e claramente a mensagem que ele quer passar por meio dela é muitas vezes mais importante que a narrativa per si.

Termino com as últimas palavras do livro, que mostram a habilidade do autor com as palavras e dá pistas do que ele pretende com seus contos:

“Amanhã, quando findar esta sessão, quando vocês que compõem minha audiência forem embora, fecharem a porta e estas páginas, escreverei; tomarei nota; darei sequência à luta herdada; apoiado por volumes, livros; absorto como os que exploram pergaminhos; como uma ave que levanta, bate as asas e alça o peito, canta e renasce; como uma pele dura e descarnada, esfolada como um veio que se escava e do qual se extrai a seiva que nos nutre.”

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