Resenha – A fantástica vida breve de Oscar Wao – Junot Díaz

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José Leonardo Ribeiro Nascimento

Sou daqueles que gostam de listas e sei que não estou sozinho neste mundo. Por mais que saiba que listas de melhores isso ou aquilo sempre serão subjetivas, não resisto e me vejo muitas vezes pesquisando “melhores ….. da década” ou, para universalizar mais a busca, “best … of all time”, “best … of 2016 so far” e assim por diante.

Na maioria dos casos, os pontinhos são substituídos por “novels”, “jazz albums”, “movies”, “short stories” e vários subtipos. E lá vou eu explorando as listas e concordando aqui, discordando ali e, principalmente, criando, aos poucos, o meu cânone imaginário, aquela relação de livros/filmes/músicas que quero ler/ver/ouvir.

Como o assunto no momento são os livros, atenho-me a eles. Puxando da memória, lembro rapidamente de pelo menos cinco livros que eu nem tenho (com exceção desta ora resenhado), mas que fico só pensando em quando poderei ler:

– A fantástica vida breve de Oscar Wao – Junot Díaz

– As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay – Michael Chabon (esgotado em todos os fornecedores, difícil demais de encontrar)

– Submundo – Don DeLillo

– Dentes brancos – Zadie Smith

– A visita cruel do tempo – Jennifer Egan

Como falei, estes são apenas cinco livros que lembrei rapidamente, mas há muitos, muitos outros. Eventualmente resgato um destes livros do limbo canônico em que os coloquei e passo então à difícil e prazerosa tarefa de confrontar a expectativa que criei com a real impressão que eu tive com a leitura.

E esse tipo de busca já me rendeu resultados muito interessantes. Foi por meio deste método que descobri Cormac McCarthy, um dos favoritos na lista de Harold Bloom no seu Como e por que ler?

Mesma coisa em relação a Lolita, Matadouro 5, Faulkner, Philip Roth, Nathanael West, 2666 e tantos outros que sempre estão presentes em listas de melhores livros de todos os tempos e coisa que o valha.

Por que toda essa longa introdução para falar de A fantástica vida breve de Oscar Wao?

Ora, porque este era um dos livros mais bem posicionados no meu cânone imaginário, por figurar em várias listas de melhores livros da década. Para citar brevemente, o livro de Junot Díaz figura num top 10 dos anos 2000 da revista Time e a BBC fez uma lista dos doze melhores livros do século XXI e adivinhe quem está em primeiro lugar?

Além disso, para mostrar o pedigree do livro, A fantástica vida breve de Oscar Wao arrebatou simplesmente o National Book Critics Circle Award e o Pulitzer de Ficção em 2008, além de vários outros prêmios pelo mundo.

É ou não é de impressionar?

Que história o livro conta?

O que eu sabia antes de ler o livro é que, como esperado, “A fantástica vida breve de Oscar Wao” conta a fantástica história de Oscar Wao. Ele é um jovem dominicano gordo, completamente nerd, apaixonado por RPG, mangás, animes, histórias de ficção científica e… bem, creio que você saiba bem o que significa ser um verdadeiro nerd. Mas não é só isso. Oscar Wao é completamente sem jeito com as mulheres, uma verdadeira negação e, para piorar o cenário, ele é simplesmente louco pelo sexo feminino. Vive se apaixonando e, claro, não sendo correspondido. Sua situação é tão desesperadora que ele se convence de que as histórias antigas que contam a respeito da sua família são reais: ele é mais uma vítima do Fuku, uma espécie de maldição própria da República Dominicana que leva muito azar para quem dela for vítima.

A história de um nerd azarado com as mulheres e que acredita ser vítima de uma maldição? E esse livro ainda ganha o Pulitzer de Ficção e é selecionado em várias listas de melhores livros da década? Minha expectativa em torno dele estava elevadíssima, o que é SEMPRE, SEMPRE um grande erro. Pode anotar isso aí, por favor.

Li muito rapidamente A fantástica vida breve de Oscar Wao. A prosa de Junot Díaz é provavelmente o principal motivo do sucesso do livro. O narrador, que mais tarde se revela um dos personagens da história, é irreverente, brinca o tempo todo com gírias, mistura termos em inglês com termos em espanhol, insere o tempo todo piadinhas nerds, como por exemplo quando alguém sofre um acidente e ele quer dizer que foi muito grave, diz que fulano sofreu 18d de dano. Se você não entende essa gracinha, esse não é um livro pra você.

Ao mesmo tempo em que a narrativa é um dos grandes chamarizes do livro, para mim acabou sendo um dos dois pontos que reputo como sendo frágeis, e que fizeram com que eu considerasse o livro apenas “ok”, quem sabe faltando 100 de xp para chegar ao próximo nível.

O primeiro ponto, que ainda não tem a ver com o estilo da narrativa, é que o livro não é exatamente sobre Oscar Wao, mas sobre a família de Oscar Wao. Acompanhamos histórias de três gerações dos Cabral, uma maneira de o autor demonstrar como o Fuku, a tal maldição, antes de chegar até o jovem protagonista causou estragos em toda a sua família. Os capítulos são intercalados: ora acompanhamos o avô de Oscar Wao e sua tragédia pessoal ao se deparar com Trujillo, ditador dominicano descrito pelo livro como um dos homens mais perversos que já existiram; ora acompanhamos a história da mãe de Oscar, Belicia Cabral, que também passou por muitos percalços durante sua vida; por fim, acompanhamos as histórias de Oscar e de sua irmã, Lola.

O título do livro fala da vida breve de Oscar Wao, e este título é meio enganador, já que o livro dá muita atenção não só à história do avô e da mãe de Oscar, como à história de Lola, sua irmã. Claro que isto não é um problema do livro, mas acabou sendo uma pequena decepção para mim porque eu esperava uma coisa e encontrei outra.

Quanto ao segundo ponto, considerando a premissa do livro, eu esperava uma história divertida. Acontece que a NARRATIVA é, de fato, muito divertida, muito bem humorada, mas a HISTÓRIA de Oscar Wao e de sua família não tem nada de divertido; pelo contrário, é uma tragédia, uma sucessão de grandes tragédias. O Fuku é cruel demais.

O problema, pra mim, foi a incoerência entre a narrativa divertida e a história pesada, que envolve tortura, morte, abandono, estupro e tantas outras situações negativas.

Eu já tinha visto isso antes, e enquanto lia, lembrava-me de três livros:

– O Pintassilgo, que tem uma narrativa não tão irreverente, mas que me pareceu ser leve demais, descontraída demais para o tema barra pesada que o livro aborda. No livro de Junot Díaz esta sensação foi ainda mais forte;

– Jaime Bunda, livro de Pepetela, um dos livros mais divertidos que já li na vida. A narrativa é fantástica, com direito até ao autor “demitir” e substituir o narrador no meio do livro por considera-lo relapso com a narrativa. Apesar de haver situações graves na história (denúncia da cultura do estupro, pobreza, corrupção), o tempo todo fica claro que o livro vai andar na linha do humor. Pepetela acerta na mosca, na minha opinião;

– Matadouro 5. O narrador aqui usa de um humor desesperado, insano, inquietante para denunciar algumas das maiores tragédias da história da humanidade. Kurt Vonnegut consegue um feito dificílimo ao acertar o tom, porque o riso que se segue às suas piadas é nervoso, culpado.

Na minha opinião, Junot Díaz deveria ter escolhido entre o caminho de Pepetela e o de Vonnegut: ou não se levar a sério, ou ser insano em seu humor. Ele não conseguiu o equilíbrio, e você se vê rindo de uma piada quase inocente num momento para em seguida se deparar com a descrição de uma tortura ou uma tentativa de suicídio que nada (obviamente) tem de engraçada.

Há ainda um terceiro ponto, um bônus, no quesito não achar o livro genial como insistem em rotulá-lo: sim, a vida de Oscar Wao foi breve; não, não vi nada de fantástica nela.

É um drama, uma história sofrida, especialmente quando somada à história da sua família, mas efetivamente não há nada de fantástico, de maravilhoso, de espetacular. Talvez se o título não fosse tão enviesado e se não houvesse tanto hype em torno deste livro eu tivesse gostado mais.

Ao final da leitura, eu me perguntava: por que este livro arrebatou tantos prêmios e é tão exaltado assim?

A única resposta razoável na qual consegui pensar foi formulada a partir de algumas informações:

– Segundo autor latino americano a vencer o prêmio Pulitzer de ficção;

– História com gosto exótico, já que boa parte dela se passa numa República Dominicana de décadas atrás, cheias de pobreza, superstições, cultura estranha aos padrões americanos;

– A força motriz das tragédias que ocorreram na família de Oscar Wao tem nome: Rafael Trujillo, ditador sanguinário apoiado historicamente pelos EUA. Creio que rola um sentimento de culpa aí;

– O nerd Oscar Wao acaba fugindo para os EUA e tudo que ele idolatra, a base e o caldo da cultura nerd são americanos.

Pra mim, enfim, A fantástica vida breve de Oscar Wao acabou sendo beneficiado, mesmo que não intencionalmente, pelas questões políticas e sociais que o cercam. É como se, grosseiramente falando, a comissão do Pulitzer tivesse achado que estava na hora de um autor latino americano ganhar…

Sinceramente: não dá para entender como tantos críticos podem dizer que A fantástica vida breve de Oscar Wao seja melhor que livros como Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro (2005), Reparação, de Ian McEwan (2001), A estrada, de Cormac McCarthy (2006), 2666, de Roberto Bolaño (2004), Onde os velhos não têm vez, de Cormac McCarthy (2005), apenas para citar livros que eu li.

Mas essa é minha lista, e lista é questão de gosto, afinal de contas.

Não se deixe frustrar por meus comentários decepcionados: apesar de eu não achar A fantástica vida breve de Oscar Wao um livro genial, ainda assim ele é um livro bom. Tem suas limitações, mas eu certamente não perdi meu tempo lendo.

Arrisque-se e me convença de que estou errado, de que é realmente o melhor livro da década. Aguardo ansioso pelos seus argumentos. De verdade.

3 Respostas para “Resenha – A fantástica vida breve de Oscar Wao – Junot Díaz

  1. Bom… Eu também não entendo como ele ficou em primeiro lugar na lista, mas eu tenho uma teoria. O romance é cheio de teor politico, com um santificação para establishment da esquerda – inclusive a Fidel Castro – e a demonização dos Estados Unidos. Tem algo que agrade mais aos críticos do sec. XXI do que isso hoje em dia? Acho que não.

  2. Gostei muito de sua critica. Achei também o livro bom, mas peguei para ler devido a uma indicação tão animada, que talvez a expectativa tenha sido alta demais para suprir.
    Como eu tenho uma veia nerd achei extremamente engraçada as referências a video game, Duna, Senhor do Anéis, etc, mas enquanto lia já percebia que o humor do livro não vai ser para todo mundo, algumas partes vão passar em branco pra muitos leitores.
    Acho um livro interessante, mas também não ficaria na lista dos melhores livros do sec. XXI.
    Devo notar, ainda, que a ”Visita cruel do tempo” da Jennifer Egan foi pra mim no mesmo caminho, ou pior. Não entendi a comoção ao livro, gostei só de partes, mas achei no geral bem fraco.
    Enfim, também adoro procurar listas, mas já aprendi que as vezes é um acerto, as vezes um chute bem fora.

  3. Bem, apreciei relativamente sua resenha e considerações. Porém, acredito que lhe faltou uma pequena perspectiva, que você não deveria ter deixado de lado para realizar a leitura da obra, bem como na hora de escrever suas considerações: a ironia. Tenho certeza que te daria um outro olhar, ou pelo menos, espero!

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