Resenha -O arqueiro e a feiticeira – Helena Gomes

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Por Eduardo.

Conforme falei no post sobre O espadachim de carvão, tenho buscado os autores brasileiros – de literatura fantástica, pois acredito muito no potencial destes livros, e esse é o meu tipo ou ramo de literatura preferido. Um dos primeiros livros que me chamou a atenção, neste quesito, foi esse livro de Helena Gomes, através de uma adaptação para RPG, sistema GURPS, que apareceu na extinta revista Dragão Brasil. A adaptação dava uma noção do livro, dizendo que os protagonistas eram crianças, o mundo, Britânia, era uma versão da nossa idade média, com magia, só que a magia era algo secreto, operado por poucos, e uma ameaça terrível dos Nergals, apesar de não explicar muito bem o que eram os Nergals. Na época eu deveria ter, não sei, 14 anos; isso me despertou a curiosidade, e eu reli várias vezes essa matéria na revista.

Anos se passaram, e eis que recebo, da Amazon, o e-mail diário com ofertas de e-books. E que livro está no e-mail? Comprei com desconto de 80%, e depois de um tempo, decido ler. A leitura começa naquela imersão do desconhecido, já que nada conhecia sobre a história do livro, exceto o que está no primeiro parágrafo, e já me defronto com o maior defeito do livro: a escrita da autora. Não, não há erros de português, até por quê a autora é professora universitária, e não é estreante (tem 25 livros cadastrados no skoob, vários infantis). A forma que ela decidiu usar para descrever os diálogos é que é muito chata de se ler. Um trecho para ilustrar:

“- Queres dizer que me amas? – Perguntou ela, sem esconder a ansiedade.

– Desde que me atiraste aquela bola de neve no nariz.

– E eu te amo desde que mergulhaste no rio para me salvar.

– Mas foste tu que acabaste me salvando, lembras? ”

Esse uso abusivo da segunda pessoa nas frases deixa tudo muito superficial. O livro se passa numa época medieval, e tudo bem que não precise ter a verossimilhança em questão de educação (em nossa idade média analfabetismo era a regra), até por quê várias séries de livros como A Roda do Tempo, de Robert Jordan, e até o Espadachim de Carvão do Raffael Solano, livros não são incomuns, e as pessoas geralmente são alfabetizadas; porém não tem como aceitar que todos as pessoas do mundo falem de forma tão acentuada, cheia de conjugações com “tu”, “vós” e tudo o mais. O personagem principal, Thomas, tem 7 anos no início de livro, se não me engano, e era um andarilho, vivia com um grupo circense que se apresenta de cidade em cidade, e ele fala dessa forma o tempo todo. Mesmo que se diga que essa é a forma comum de se falar nessa região, como se fosse um tipo de sotaque, ou apenas é por quê é assim e pronto, eu pergunto: pra quê? O que acrescenta ao livro, à história, aos personagens escrever todos os diálogos dessa forma? Pra mim a autora quis deixar o livro com uma linguagem diferenciada, pra dar um quê de “clássico” e de “bom gosto”, mas só tornou o livro extremamente irritante de se ler.

Quanto à história, Thomas faz parte desse grupo de andarilhos, mas é bastante hostilizado por todos, pois é filho de uma ladra que chegou ao grupo numa noite apenas para dar à luz e morrer. Esse estigma persegue o menino por toda sua vida, e ele acaba sendo levado para ser criado por monges, em um monastério, uma forma que a esposa do líder do grupo encontrou de livrar o menino dos constantes castigos que seu marido infringia ao rapaz. A partir daí o menino descobre que tem alguns poderes mágicos, e vai encontrando algumas respostas sobre seu passado e sobre a terrível ameaça dos Nergals e uma estranha tecnologia baseada em cristais.

Daí vem outra coisa que torci o nariz. Eu sou muito fã de fantasia fantástica, mas nunca aceitei bem sua mistura com a tecnologia. Parte disso vem da dificuldade para se achar a verossimilhança (essa palavra aparece bastante). Como falar de verossimilhança em um mundo com monstros, cavernas cheias de tesouro, perigos cósmicos (e não cômicos), e magia? Talvez o melhor exemplo: A terra média. Tolkien criou seu mundo detalhadamente, com a magia presente, mas sutil, com monstros com históricos bem construídos e lá tudo faz sentido. Outro exemplo muito bom: O Nome do vento: Kvothe aprende a fazer várias coisas, inclusive magia (ele tem uma obsessão em encontrar o nome do vento, para poder controlar essa força), mas a magia é descrita de forma tão excepcional, que tudo parece fazer o maior sentido, e convence de verdade o leitor. Um exemplo mais acessível: Harry Potter. Magia explodindo por todos os poros, para atacar, se defender, teleportar, voar, cozinhar, escrever e costurar. Mas a forma que foi apresentada fez e faz milhões de pessoas esperar por uma carta de Hogwarts, ou ao menos imaginar como seria…

Tive um problema parecido com O caçador de Apóstolos e sua sequência, Deus Máquina, do Leonel Caldela. Na primeira vez que a tecnologia apareceu, eu fiz aquela cara… tipo: poxa, cara, você estava indo tão bem, pra quê isso?, porém eu estava subestimando Caldela. No desenrolar da história a explicação para essa tecnologia foi muito boa, e eu acabei ficando fã do cara (seus outros livros estão em minha lista).

No caso do Arqueiro e a Feiticeira, chega-se a essa tecnologia secreta e esquecida, mas ela é apenas uma coisa que existe, e não tem explicação. É mais ou menos como: é uma tecnologia que foi dominada pelo povo tal, mas eles foram extintos, e hoje poucos conhecem, e seus segredos foram esquecidos. Tá, ok, muito conveniente. Sei que só li os dois primeiros livros de 7 no total, porém mesmo que isso seja explicado, o estrago para mim já foi feito, e parte do meu interesse pela séria se perde com isso. Podem reclamar: como ela ia parar para explicar uma tecnologia esquecida no primeiro livro? Se é esquecida, ninguém tem conhecimento profundo sobre isso. OK. Mas o leitor merece algo melhor do que eu coloquei acima. Poderia até ser: Esses cristais, que foram encontrados/criados no mundo y, funcionam como uma forma de canalizar a força z, assim o povo x conseguiu usá-la para criar esses dispositivos. Eles fluem da seguinte forma, e só pessoas capazes de entender essa energia mágica conseguem manipulá-la. Uma explicação ruim, mas ao menos não fica uma tecnologia estranha jogada lá, que funciona de uma forma potente e estranha (computador de cristais?), apenas por quê a história pede que exista uma tecnologia.

Um outro problema que tive foi com o Arcebispo, que desde o início ficou claro que seria o Boss da história. O livro diz que ele é muito poderoso, mas o desfecho do livro, no que se refere a ele, é decepcionante. É feita muita propaganda dele, mas tudo acaba sendo apenas uma fama, uma falácia. O vilão não me convenceu. Outra coisa: O protagonista é uma criança. Ela está lá no monastério, sendo criado pelos monges, tendo aulas particulares com o Abade, e daí que decide sair do monastério (acho que ele tinha na época uns 12 anos), pra seguir certo caminho misterioso. O abade simplesmente diz: queria poder fazer algo para que você não partisse. O jovem responde: tenho que ir, preciso fazer isso. O abade deixa o garoto sair assim, sem nem ao menos prestar contas do motivo. Uma criança que tem total controle e liberdade de ir e vir. A partir desse ponto minha boa vontade para com o livro já tinha praticamente acabado… isso não tem lógica nenhuma! O Abade, sendo o mais bonzinho possível, ia proibi-lo de sair, colocá-lo-ia de castigo, e tudo o mais que fosse necessário, para evitar que fugisse. Numa idade média mais verossímil, ia dar um sono quente ao menino…

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Mas claro que nem tudo no livro é negativo. A história como um todo é bacana, mas os defeitos colocam demais a perder. Eu sempre tive vontade de ler esse livro, comecei a ler com a maior boa vontade do mundo, e já começa empolgando mais, com uma apresentação escrita pelo Raphael Draccon, tinha vontade de gostar de verdade do livro, e continuei até o fim esperando que a autora me surpreendesse. Inclusive baixei o segundo livro, A Herança da Bruxa, um pequeno texto de 20 páginas, e que é grátis. Li para ver se os ares mudariam, ou se outra coisa me faria ter vontade de ler o resto da série, porém não deu muito certo. Os defeitos foram mais fortes que as virtudes. Já tinha até colocado outros livros da autora em minha lista, mas confesso que essa experiência me fez reconsiderar essa decisão. Talvez um dia eu leia o resto da saga, ou até leia outros livros da autora, pois pode ser que eles me agradem mais, mas por hora, a experiência foi o suficiente.

 1 estrela em 5.

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