Resenha – A visita cruel do tempo – Jennifer Egan

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Se tem um livro de ficção recente que rivaliza com A fantástica vida breve de Oscar Wao (resenhado aqui) no que toca ao prestígio junto aos críticos, este livro é, sem dúvida, A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan. Como não poderia deixar de ser, ele estava na minha lista, no meu cânone imaginário, e, aproveitando uma compra de livros para meu filho na Amazon brasileira, comprei o meu exemplar e coloquei-o na frente de tudo que planejava ler.

Queria tirar a prova, ver se com este aqui eu também iria me decepcionar.

Uma diferença fundamental que eu tive na experiência de leitura dos dois livros é que enquanto eu sabia muito bem do que tratava o livro sobre Oscar Wao (o que, de fato, não impediu que eu me surpreendesse com o teor da obra), sobre A visita cruel do tempo eu não sabia nada mais além do frisson que ele causou e do que sugere fortemente seu título: arrependimento, remorso, sensação de perda, enfim, o que quer que você imagine que acontece quando você recebe (ou percebe) a visita cruel do tempo, a mostrar tudo que você deixou de fazer ou não conseguiu fazer ou fez, só que se arrependeu etc.Sendo bem franco, eu não sou fã de livros ou filmes com essa temática. Por conta dos meus valores pessoais, religiosos e familiares, busco evitar o cinismo e o pessimismo, ter “sempre e em tudo um olhar de esperança”, apesar de ser bastante difícil, seja qual for o prisma pelo qual você olhe. Assim, normalmente acho cansativas as narrativas que insistem em mostrar pessoas que estão sempre à beira da depressão, adultos frustrados que se enchem de autopiedade (e de drogas) para suportar a dor pelo que poderiam ter sido, famílias pretensamente felizes, mas que, quando vistas de perto, deixam entrever amargura e fingimento, mentiras e infelicidade.

Por que raios então eu fui ler logo um livro que fala justamente disso?

É um livro que venceu o Pulitzer e o National Book Critics Circle Award e está presente, assim como o Oscar Wao, em várias, várias listas de melhores livros da década ou do século XXI so far.

Embarquei na leitura receptivo a tudo o que o livro pudesse me entregar. Não sou um cara que se emociona com facilidade – minha lista de livros que “me deixaram arrasado” ou que me levaram aos prantos é vazia como a minha resposta à pergunta “que livro mudou a sua vida?”. Apesar disso, esforcei-me para deixar minha empatia funcionar e captar tudo o que o livro tivesse de doloroso a oferecer.

Talvez a essa altura você já esteja cheio de tanta enrolação, de tanto chove não molha. Vamos ao que interessa então, ao livro, para que eu não perca meu último leitor.

A visita cruel do tempo é um livro que flutua entre o romance e o conto ou, para usar a terminologia original, mais adequada, na minha opinião, entre “novel” e “short story”. Há treze capítulos distribuídos em pouco mais de trezentas páginas, mas pode-se dizer também que há treze contos que se relacionam entre si. Cada história, apesar de poder ser lida independentemente, conecta-se com as outras. Acompanhamos alguns personagens em diversas fases de suas vidas: Bennie, um produtor musical de sucesso; Sasha, sua assistente há bastante tempo; Lou, produtor musical no passado e mentor de Bennie; Scotty, amigo de Bennie, guitarrista da banda punk que os dois tinham, The Flaming Dildos; Stephanie, primeira esposa de Bennie; Dolly, uma publicitária de sucesso e sua filha Lulu; Jules, irmão de Stephanie, um jornalista que acabou de sair da prisão; Rob, amigo de Sasha na época da faculdade e vários outros. Pensando bem, não são alguns personagens; são muitos, a ponto de você se sentir num filme de Robert Altman.

Uma das muitas coisas incríveis desse livro é que mesmo com tantos personagens, a narrativa flui muito bem. Cada capítulo/conto, como falei, se dedica a algum personagem em uma determinada fase da sua vida. No capítulo seguinte serão narrados fatos acerca de algum personagem que apareceu como coadjuvante no capítulo anterior, muitas vezes em outra época. Aos poucos, você vai conhecendo um pouco mais de cada personagem, com foco em alguma frustração ou dor que ele carrega, fruto da visita cruel do tempo.

No primeiro capítulo, a título de exemplo, acompanhamos a luta de Sasha para controlar a sua cleptomania. Ela conversa com seu terapeuta recordando o último caso em que ela cedeu ao impulso de roubar uma carteira e vai analisando seu próprio comportamento, às vezes com autoindulgência, às vezes sendo cruel consigo mesma. No primeiro capítulo você tem muito pouca informação para fazer qualquer juízo de Sasha. E as informações demoram a chegar, porque como são treze capítulos e muitos personagens, não se falará tanto assim de Sasha até o final do livro. Não lembro direito, mas serão talvez mais dois ou três capítulos em que recebemos informações em quantidade razoável sobre ela. Ao final do livro, contudo, sabemos o suficiente para compreender as dores, limitações, tristezas, alegrias e angústias de Sasha.

Isso acontece com cada um dos personagens, alguns com mais espaço – Sasha e Bennie, em especial – e outros com pouco “tempo em cena”, o que não impede que nos identifiquemos sobremaneira com seus sofrimentos, como é o caso de Rob, amigo de Sasha.

As histórias de todos estão sempre ligadas de alguma maneira à música, afinal, Bennie e Lou são produtores musicais e ao redor deles orbitam praticamente todos os outros personagens. São também histórias de perda, como você já deve ter entendido. Você lê e vai sentindo um nó na garganta, como se a tristeza que permeia as páginas pudesse contagiar o leitor pelo tato. Há problemas (sérios, muito sérios) com drogas, solidão, desencanto, traição, abandono, exploração sexual, perda da inocência, temas que não são fáceis nem agradáveis, mas que nos inquietam e provocam muita reflexão.

Ao final do livro, eu tinha duas certezas: a primeira é que eu estava diante de um livro quase que absolutamente perfeito, de narrativa impecável (não, não estou exagerando), que me envolveu numa história muito bem contada e me deixou aprisionado até terminar a leitura; a segunda é que eu gostei do livro, mas diante de todas as suas qualidades evidentes, eu deveria não apenas ter gostado, mas ter gostado muito, a ponto de ele ter se tornado um dos meus favoritos, só que isso não aconteceu. Eu apenas gostei. Bastante. Por quê?

Demorei a digerir essa sensação ao final da leitura, e depois de muito refletir, a conclusão a que pude chegar foi a seguinte: o livro realmente é de uma prosa irretocável. É como se tudo que pudesse ser ensinado em todas as melhores oficinas de escrita criativa do mundo tivesse sido condensado naquelas páginas. Ritmo perfeito. Prosa perfeita. Ligação entre os capítulos perfeita. Desenvolvimento dos personagens perfeito. Surpresas perfeitas. Final perfeito etc. etc. etc. Então lembrei de algo que Roberto Bolaño escreveu em 2666, algo sobre os livros imperfeitos dos grandes escritores:

“Que triste paradoxo, pensou Amalfitano. Nem mais os farmacêuticos ilustrados se atrevem a grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminhos no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou o que dá na mesma: querem ver os grandes mestres em sessões de esgrima, mas não querem saber dos combates de verdade, nos quais os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que atemoriza a todos nós, esse aquilo que acovarda e põe na defensiva, e há sangue e ferimentos mortais e fetidez.”

E aí caiu a ficha: se uma equipe de programadores tivesse desenvolvido um software superpoderoso, capaz de escrever um romance impecável, A visita cruel do tempo certamente poderia ter sido escrito por esse software. Ele não parece obra de uma mente humana, é uma luta de esgrima perfeitamente coreografada, mas nunca é um combate de verdade. Não há uma imperfeição, tudo está no seu lugar, até o vaso derrubado está perfeitamente derrubado. Sei que é muito filosófico, mas faltou vida, faltou humanidade, faltou cheiro de suor. Quando leio Faulkner ou Dostoievski, meus dois escritores favoritos, há inúmeras passagens mesmo nos livros que eu mais gosto em que acho essa descrição excessivamente pormenorizada, ou aquela digressão excessivamente longa. São esses excessos, essas imperfeições que me lembram: É Faulkner! É Dostoievski!

Em A visita cruel do tempo eu não ouvi a voz de uma escritora, só um trabalho impecavelmente pensado e executado. Claro que tudo isso é uma impressão tremendamente pessoal. Gostei da leitura e sinal disso é que pretendo voltar ao livro. Quem sabe da segunda vez eu encontre o que estou procurando.

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