O indigno – Jorge Luis Borges

Hoje é o aniversário de nascimento de Jorge Luis Borges, um dos maiores contistas de todos os tempos e, certamente, um dos escritores mais apaixonados pela literatura. Para homenageá-lo, um conto seu:

A imagem que temos da cidade é sempre um pouco anacrônica. O café degenerou em bar; o vestíbulo que nos deixava entrever os pátios e a parreira é agora um corredor escuro com um elevador no fundo. Assim, acreditei durante anos que a determinada altura da Talcahuano me esperava a Livraria Buenos Aires; uma manhã constatei que fora substituída por uma casa de antiguidades e me disseram que dom Santiago Fischbein, o dono, falecera. Era propriamente obeso; lembro-me menos de suas feições que de nossos longos diálogos. Firme e tranqüilo, costumava condenar o sionismo, que faria do judeu um homem comum, preso, como todos os demais, a uma única tradição e a um só país, sem as complexidades e discórdias que agora o enriquecem. Estava compilando, disse-me, uma volumosa antologia da obra de Baruch Espinosa, aliviada de todo aquele aparato euclidiano que trava a leitura e dá à fantástica teoria um rigor ilusório. Mostrou-me, e não quis me vender, um curioso exemplar da Kabbala denudata de Rosenroth, mas em minha biblioteca existem alguns livros de Ginsburg e de Waite que trazem seu selo.

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Uma banana como merenda – Nelson Rodrigues

Homenagem do blog aos cem anos de nascimento de Nelson Rodrigues. Numa crônica (presente em O Óbvio Ululante) em que deveria falar sobre a banana que comia por merenda, ele nos brinda com sua paixão por Dostoiévski e com o conselho de reler, reler, reler…

Eu e o Hélio Pellegrino temos um amigo que é o que se chama um erudito. E o pior é que se trata de um caso recente e diria mesmo de fulminante erudição. A princípio suspeitei de uma deslavada escroqueria intelectual. E aqui começa o mistério que desafia todo o meu raciocínio e toda a minha intuição. Do dia para a noite o semi-analfabeto aprendeu não sei quantos idiomas.

Já não digo francês, que todos falam, menos eu. Não. O rapaz declamava Goethe em puríssimo alemão. E, certa noite, passei pelo seu quarto, na praça Onze (ele mora no alto, junto à clarabóia, como no tempo de Paulo de Koch). Entro e o surpreendo, no meio de três ou quatro, em pé, recitando o padre-nosso em grego. Saí dali e fui ligar para o Hélio Pellegrino. Disse-lhe, sinceramente esmagado: — “Hélio, nós somos dois analfabetos!”.

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A árvore de Natal na casa de Cristo – Dostoiévski

Conversava ontem com um amigo do trabalho e ele mencionou este conto, que li há uns quinze anos e que me marcou pelo amargor. É uma historinha de Natal na pena angustiada de Dostoiévski. Vale cada linha:

Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. Continuar lendo

A Criança Teimosa, um conto de fadas (?) dos irmãos Grimm

Li no The New Yorker um post de autoria de Joan Acocella, no qual ela discute as lições dos contos de fada, reproduzindo na íntegra o conto “A criança teimosa”. Esse pequeno conto é suficiente para imaginarmos como realmente são as versões originais dos clássicos contos de fadas que julgamos conhecer.

Eis o conto numa tradução livre:

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