O Demonologista, de Andrew Pyper.

Imagem - Demonologista

José Reinaldo do Nascimento Filho

Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces, nos apresenta 12 Passos pelos quais a Jornada do Herói se sucede, e o romance aqui comentado segue, praticamente, à risca, essas doze características. Mas só precisou chegar no segundo para a coisa toda começar a desandar.

O livro é narrado em primeira pessoa por David Ullman, professor do Departamento de Inglês da Universidade de Columbia, Manhattan, um especialista em mitologia e narrativa religiosa judaico-cristã, com especialidade na obra de John Milton, Paraíso Perdido. Nosso herói é casado com Daiane, tem uma filha de pouco mais de 11 anos, a Tess, e uma amiga inseparável de nome O´Brien.

Como havia colocado no início do texto, a história segue os famosos passos de Campbell.  O primeiro é o “Mundo Comum – O herói é apresentado em seu dia-a-dia”. Aqui conhecemos o professor no seu habitat natural, em sala de aula, lendo o último trecho de Paraíso Perdido. Na sequência, descobrimos que Ullman é ateu, cético, introspectivo e com tendência à depressão. Que sua esposa está tendo um caso, e que sua filha, bem, ela possui traços parecidos com o do pai e tem uma forte ligação com ele, quase sobrenatural.

Chegamos ao segundo passo, o “Chamado à aventura – A rotina do herói é quebrada por algo inesperado, insólito ou incomum”.

E aqui meus problemas com a obra começaram…

Certo dia, indo ao trabalho, e já se aproximando do seu escritório, o professor avista, sentada numa cadeira ao lado da porta, uma “Mulher Magra”, “velha demais para ser uma estudante. Bem vestida demais para ser uma acadêmica (…)” e que deseja conversar com ele. Ela tem uma proposta curiosa: com todas as despesas pagas, Ullman terá de ir a Veneza visitar um “Cliente” dela para ajudá-lo a desvendar ou mesmo tentar explicar um “fenômeno”. Segundo a magrela, só Ullman poderá fazê-lo, pois ele é um Demonologista, especialista na obra de Milton. Detalhe: a arrumada não diz quem é, e nem para quem trabalha. Ah, e mais interessante, tem esse sofrível diálogo com o professor:

“Meu nome verdadeiro é uma informação que, infelizmente, não posso lhe dar”

(…)

“Isso coloca você numa posição vantajosa.”

“Posição vantajosa? Mas isso não é uma disputa, professor. Estamos do mesmo lado”.

“E que lado é esse?”

Aqui ela não responde. Logo em seguida o professor continua:

“Seu sotaque. Não consigo localizá-lo”.

“Já vivi em muitos lugares.”

“Uma viajante.”

“Uma errante. Talvez seja o melhor termo.”

“Ser errante implica uma ausência de propósito”.

(Aqui eu já lembrei de Neo conversando com o Arquiteto).

“É mesmo” Mas não pode ser. Pois foi isso que me trouxe aqui.”

(Vergonha alheia).

Eu não tenho problemas com o chamado ou a recusa e muito menos com os demais passos, mas é como isso tudo me foi apresentado. Quando eu percebi que o início da justificativa para toda a trama, o bendito chamado, se deu de forma tão insustentável, eu pensei imediatamente no filme Por um fio, de Joel Schumacher, com Colin Farrell. A história de um transeunte que atende um telefonema num orelhão público no meio da rua e do outro lado da linha está alguém que diz “interrompa essa ligação e eu atiro em você”. E A ANTA ACREDITA!!!!! Quem, me respondam, quem nesse mundo iria continuar ao telefone? Esse chamado do herói é tão frágil, tão simplório, que qualquer suspensão de descrença por parte do telespectador não será suficiente para aguentar tamanha asneira. Você fica só pensando: Sério isso?!! É sério mesmo?! Sério?? É, paciência. Vamos ver no que vai dar isso…

E foi com esse pensamento de “vamos ver no que vai dar isso” que eu continuei a leitura de 317 páginas.

Por sorte, Pyper escreve bem. A escrita dele é simples, direta, honesta. Ele quer contar uma história. Você não sofre lendo. Ao contrário, é legal. Nos deparamos com momentos divertidos. O que me incomodou foram as suas escolhas narrativas e, claro, a trama.

Vou deixar esta parte para você leitor. Posso apontar algumas caraterísticas sobre ela que poderão ajudá-lo a ler ou não esse romance ou até mesmo a se interessar por ele. São elas: Não é um romance de terror, longe disso; Não é um Dan Brow. Este aqui, apesar de muito repetitivo, constrói a ação, a trama de forma mais orgânica; É um thriller de suspense. Prepare-se para mistérios, conspirações e deduções por parte da personagem principal que fariam Holmes chorar de inveja; Raros momentos impagáveis, como verdadeiramente assustador e memorável que envolve duas gêmeas idosas e um porão; e o principal: É um road-book.

E agora, vamos para os pontos que me incomodaram profundamente.

Algo que sempre me salta aos olhos nesses Best-sellers é quando o autor quer construir personagens ou descrever situações ou cenas e usa a palavra “clichê” para se justificar ou sustentar as razões escolhidas por ele mesmo. Por que isso acontece? É falta de confiança nele mesmo. Preguiça intelectual?

Segundo ponto. Qual a necessidade de a cada três páginas ficar martelando na nossa cabeça que David Ullman é especialista no poema Paraíso Perdido? Caramba, Pyper, dê um crédito aí para a gente. Seja mais discreto. Tem um instante, num encontro com O´Brien, que Ullman diz algo e ela fala: Já sei, Paraiso Perdido. Eu pensei: meu Deus, que cara chato. Só sabe falar nessa merda de livro?!!!!

Terceiro. Pyper recebeu algum dinheiro da Apple para fazer propaganda do Iphone. Eu perdi a conta de quantas vezes Ullman disse que estava pegando o Iphone, digitando no Iphone, procurando o Iphone, sentado no Iphone, apaixonado pelo Iphone…

Quarto e último. Ontem eu assisti ao American Hustle, filme de David O. Russell, e num determinado trecho da película nos é apresentado a personagem interpretada por Robert De Niro. Ficamos sabendo, numa narrativa em off, que ele é cruel, sádico, um mala. Não contente com a descrição do narrador, o que é que o diretor resolve fazer logo em sequência? Precisou mostrar 4 segundos de uma cena aleatória com De Niro indo em direção a um cara avulso e atirando na cabeça dele e o cérebro voando. Eu pensei: qual a necessidade? Você acabou de descrever como é o cara. Deixe que a gente faça o resto. E isso acontece o tempo todo no romance de Pyper. Tem um  trecho, pós fenômeno em Veneza, que Ullman está num beco e se depara com alguns porcos. Você não precisaria ser um beato, padre, coroinha para fazer as óbvias associações, concorda? Mas Pyper não acha isso. Ele é bonzinho com o seu leitor. Para que pensar. O que ele faz? Narrou a situação e citou logo em seguida a passagem bíblica sobre os porcos endemoniados pulado de um penhasco. Ele não abre o espaço para a gente brincar de adivinhações. Algumas não tem condições, como a que ele cita partes do poema, mas outras são transparentes. Num outro ponto, já nas investigações sobre o desaparecimento da filha, ele pega o diário dela (sim, ela escreve um diário sombrio) e descobre sobre um amigo secreto de no Tobe. Mais para frente na história ele se depara com uma situação com algumas crianças, e estas falam sobre uma criança de nome Tobe. O que o autor faz? Precisa dizer algo do tipo: o mesmo nome que encontrei no diário de Tess…

WTF!!!!!!!! E o livro é cheio disso!

Você leitor do romance pode dizer: ah, não exagere, ele não revela tudo. Ele não nos diz quem é a Mulher Magra, quem é o cara que fica perseguindo ele o tempo todo (O Perseguidor), e muito menos apresenta justificativas para aquele final abrupto. E eu rebato: isso não é ponto positivo. É negativo. Criar dúvida, estabelecer um mistério não é difícil. É na maneira como tudo é desenvolvido e trabalhado e, principalmente, nos é APRESENTADO, que se encontra a verdadeira força da história. Isso tudo que aconteceu foi tudo coisa da cabeça de David? Demônios existem? E o Céu e o Inferno? Ficaram essas e tantas outras perguntas sem resposta…

Em mais uma edição belíssima da Dark Side, diga-se de passagem, encontramos um thriller de suspense que se sustenta muito mais na indulgência do leitor  (eu no caso, pois gostei de ler) do que nos seus próprios méritos. Se você gosta de romances policiais, suspense com um pouco de terror sobrenatural, O Demonologista é um bom começo, apesar de suas fraquezas, situações forçadas e fragilidades narrativas.

2 em 5 estrelas.

As Wesleyanas 1

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Texto escrito em 04/10/2013

De pé, os cotovelos apoiados no balcão, aguardo a reprodução de três livros que, a despeito do gosto acre, terei que devorar com volúpia nos próximos vinte e nove dias. Ao meu lado, uma mulher de trinta anos que a) cabelos pintados e escovados, b) maquiagem impecável (porém levemente exagerada para aquela hora da manhã), c) calça jeans e blusa básica preta (uma improvável manifestação de discrição) e d) quantidade de beleza estritamente suficiente para não ter seu nome colocado na coluna “feias” em caso de ser entrevistada por um recenseador politicamente incorreto não escondem seu ar ordinário briga pelo telefone com o irmão. Ela censura-o por ter ido levar, na noite anterior, depois de horas de bebedeira, uma moça que ele nem estava comendo até o outro lado da cidade, correndo risco desnecessário. Aproveitava a ligação para justificar-se: apesar de ter dito horas atrás, com todas as letras, que queria que o carro virasse e ele morresse enquanto embarcava naquela aventura, ela amava o irmão, de verdade, e ele sabia muito bem disso. Ela também esperava a cópia de um livro, e usara o nome de uma professora para tentar apressar o funcionário.
Atrás de mim, uma bela moça negra de cabelos sou negra sim, com orgulho, espanta-se com a amiga, que está tão mais magra, meu Deus!, que magreza é essa!, ao que a moça responde alto, para que todos na fila escutem, que esteve internada, repete, esteve internada, mulher! Primeiro com uma crise de gastrite, depois com uma gripe que se aproveitou de sua debilidade. Ambas lamentam as provas que hão de vir. Continuar lendo

Música para ninguém dormir

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Pessoas que amo correm perigo. E faltam ainda 59 dias. É frustrante olhar para os lados e não encontrar perspectiva de melhora. Seis homens estão sentados ao redor de uma mesa de restaurante. Todos casados. Cinco deles relembram relações extraconjugais ou lamentam oportunidades perdidas. Era para eu ter comido aquela gostosa e você me atrapalhou. Já aprontei muito, mas nunca com uma tão gostosa. Não sei qual dos sete pecados capitais é o pior, mas sei que a luxúria é o melhor.

Lá fora, nas ruas, carros de som gritam músicas em que um candidato ofende o outro. E o povão se anima, veste a camisa, é tudo um grande campeonato. O povo é gado, o povo é gado, o povo é gado, e à força da repetição eu me convenço, a contragosto.

Continuar lendo

Um princípio de solidariedade

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

O homem ouve uma voz anasalada a tagarelar. No fundo da sala, o dono da voz é o centro das atenções. Protesta. Contra a covardia dos colegas. Contra a dureza daquela mulher, que não cederá uma vírgula. Contra o peleguismo dos ocupantes de cargos de chefia. Outra voz se levanta. E outra. E outra. Uma delas se destaca, dessa vez pelo volume. Solidariedade, ele clama. É injusto. De cima para baixo. Não podemos aceitar. Essas e outras palavras de ordem são pronunciadas, e o homem pensa no filho, que na noite anterior chorou, uma cena tocante, ao menos para o homem, única testemunha.

O homem havia se exaltado por conta de umas pilhas brancas, recarregáveis, que haviam sumido. Não levantou tanto a voz, mas falou com firmeza, condenando o descaso do filho. Minutos depois, ainda com um copo de achocolatado na mão, o filho vem, humilde, perguntar se o homem está bravo com ele. A voz trêmula, quase não sai. Eu não sabia que aquelas pilhas eram especiais, diz o menino. Não chore, diz o homem, mas é o gatilho que faltava, e as lágrimas fogem, pródigas. O homem engole seco e pede desculpas ao filho. Ele deveria ter explicado antes, ele deveria ter deixado bem claro que aquelas pilhas eram especiais, ele que se exaltou sem razão.

Continuar lendo