Oficina de Contos – José Castello – Décima Aula

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Décima aula

José Castello lembra, em sua última aula no Literal, a estratégia de Bioy Casares para tirar o melhor de sua escrita, produzida 365 dias por ano. E ensina: a complexidade do conto está no que é contado; não na maneira de contar.

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O escritor argentino Adolfo Bioy Casares (1914-1999) tinha um método muito pessoal e, sobretudo, muito simples – para avaliar a qualidade dos contos que começava a escrever. Bioy é um contista magnífico, o que basta para avalizar a eficácia de seu método. Os que nunca o leram podem começar, quem sabe, pelas Histórias fantásticas, reunião de contos traduzida no Brasil, em 2006, pela Cosac & Naify. Não se arrependerão.

Bioy anotava a primeira versão de seus contos sempre à mão, em um caderno pautado, com espirais, do tipo escolar. Fazia isso pela manhã, logo após o café, não sem antes tomar um banho, barbear-se e vestir paletó e gravata, como se fosse a uma solenidade. Escrevia em seu próprio quarto, em uma mesinha antiga, apertada, que herdara da mãe. Conservava as cortinas fechadas, pois preferia a penumbra, que lhe parecia mais propícia aos devaneios e à aventura interior.

Não passava mais que duas ou três horas trabalhando. Todo dia, toda manhã, começava um conto diferente, uma história nova. Desse modo, produzia, a cada ano, o esboço de 365 histórias. O que, é claro, não é o mesmo que afirmar que escrevia 365 contos em um ano, já que a maior parte delas não sobrevivia, não passava por seu método pessoal de aferição, e tinha como destino, em conseqüência, a lata de lixo.

A poucos metros do edifício em que Bioy Casaras morava, em Buenos Aires, bem do outro lado da rua, havia um pequeno restaurante de bairro, desses em que os garçons usam gravatas-borboleta, paletós antigos e gumex nos cabelos. Viúvo, adoentado, preso a uma rotina regida por governantas e enfermeiras, Bioy descia diariamente, sempre ao meio-dia e meia, para o almoço. Era seu momento de liberdade. Levava consigo, sempre, seu caderno. Nas mesas do salão, isso era obrigatório, uma visita o esperava.

Bioy tinha muitos amigos – na verdade, amigas. Não apreciava a amizade masculina, e nesse aspecto sua lendária amizade com Jorge Luis Borges foi uma grande exceção. Terminado o relato da manhã, Bioy abria a agenda e escolhia, ao acaso, o telefone de uma amiga, que convidava para acompanhá-lo em seu almoço do dia. Era convite gentil, mas sustentado por segundas intenções.

Não era só uma gentileza, Bioy tirava partido da companhia. Ao aceitar o convite, a amiga tinha uma obrigação: ouvir o conto que Bioy Casares leria em voz alta, logo depois da sobremesa. E, finda a leitura, dar sua avaliação sincera: se a história prestava, ou não prestava. Dependendo dessa avaliação, mas também das reações (positivas ou negativas, de entusiasmo ou, ao contrário, de tédio e até de repulsa) que Bioy percebia em suas companheiras de almoço, ele chegava, enfim, a seu próprio veredicto. Ali mesmo, durante o café, decidia se o conto iria para o lixo, ou se voltaria para a gaveta do quarto.

A estratégia de Bioy Casares recupera os laços remotos que os contos guardam com as narrativas orais, as histórias da carochinha que contamos para as crianças e os “causos” narrados, a boca pequena, por nossos avós. Recupera o caráter vivo, direto, sedutor dos grandes contos. Um conto, Bioy pensava, ou agrada, ou desagrada. Não há meio termo, e por isso eles exigem uma avaliação objetiva e dura. E, sobretudo, definitiva.

As amigas ocupavam, uma a uma, o lugar nobre do leitor, ainda que não lessem nada, ainda que se limitassem a ouvir. Muitas vezes o próprio Bioy não lia coisa alguma, contentava-se apenas em narrar, em resumir em voz alta a história que escrevera pela manhã – como se contasse um caso real, ou reproduzisse uma notícia que acabara de ler nos jornais, ou de ouvir no rádio. Esse procedimento, acreditava, por ser mais íntimo e carregado de sentimentos, conferia força ao conto.

O que interessava a Bioy Casares era, antes de tudo, o impacto que a história causava, ou deixava de causar, em suas amigas. Não as levava ao restaurante para ouvir opiniões literárias, digressões cultas, interpretações de brilho científico. Na verdade elas sequer tinham a obrigação de falar, sequer precisavam abrir a boca. Tudo (gostar ou não gostar) se estampava em seus olhos, nas contrações de seu semblante, nas perturbações da postura, ou nas contrações labiais – ou, ao contrário, no tédio, no desânimo, na indiferença, no sono.

E era assim, pela leitura de reações físicas, pela leitura de espantos e de calafrios, ou de muxoxos e desatenções, pela análise somática, podemos dizer que Bioy Casares avaliava a qualidade de seus contos. Em conseqüência, era a partir da leitura que Bioy – ele sim, ocupando o lugar nobre do leitor – fazia da reação de suas amigas (a quem se dedicava a ler cheio de cuidados) que um conto sobrevivia, ou era abandonado.

Inevitável lembrar de Sherazade, contando uma história a cada noite, mil e uma noites, como estratégia para adiar a própria morte. Inevitável lembrar das histórias que, já no quarto de dormir, contamos para as crianças, para espantar pavores, para tranqüilizar e embalar o sono. Lembrar dos mitos antigos, e mesmo dos mitos contemporâneos, das crendices, das superstições, que nada mais são do que fantasias que construímos para substituir o que não suportamos desconhecer.

Escrever contos é, desse modo, retornar a alguns dos aspectos mais antigos e mais vitais da literatura. Retomar uma simplicidade radical que a longa e pomposa história da literatura, muitas vezes, intimidou, ou destruiu. Bioy Casares dizia que, enquanto buscava histórias cada vez mais complexas para contar, lutava também para contá-las da forma mais simples possível. A complexidade, a seu ver, não diz respeito à maneira de contar, mas ao que é contado. Lamentava que muitos escritores, sobretudo os escritores iniciantes, confundam as duas coisas, e com isso produzam obras esnobes, rebuscadas, cheias de afetação.

Em geral, tendemos que acreditar que o romance é um gênero mais complexo, e até mais sofisticado e nobre, que o conto. Bioy Casares discordava disso também. Escrever contos, ele dizia, exige que o escritor seja mais inventivo porque, para escrever um livro de contos, ele deve manipular várias histórias ao mesmo tempo e, portanto, precisa ser inventivo muitas vezes. Em um romance, em geral, a história nos parece mais real: convivemos mais tempo com ela, privamos da intimidade dos personagens, que são quase sempre os mesmos, e nos sentimos em um mundo que é mais parecido com o nosso. No conto, não: os personagens são pouco mais que marionetes que tornam a história possível, Bioy distinguia. Eles se intercambiam, as paisagens e ambientes se alternam, os enredos se anulam, os sentimentos em jogo se dissolvem.

Outra distinção importante entre o romance e o conto, dizia Bioy Casares, está na importância do desfecho. Um conto precisa terminar bem, precisa ser bem resolvido, ou toda a história narrada ao fim se esfarela. No romance, ao contrário, o desfecho em geral é secundário, é mais uma interrupção que uma solução. Bioy Casares foi um leitor entusiasmado dos contos de Robert Louis Stevenson, mas lamentou sempre que muitos contos de Stevenson terminem tão mal. No conto, o leitor precisa acreditar na história, e essa crença não pode ser abalada. Se é abalada, o leitor logo se torna indiferente ao que lê.

No entender de Bioy Casares, outra exigência feita ao conto é a de que ele seja um estímulo ao pensamento. O romance pode se alongar, pode se abrandar em digressões, se deter em descrições minuciosas, dar saltos no tempo, no espaço, dispersar-se. O conto, não: exige concisão, exige uma tensão contínua e exige, sobretudo, que o leitor seja desafiado – desafiado por idéias, por pensamentos. Um conto, ou nos leva a pensar – num desfecho, num culpado, num destino, numa causa – ou não nos interessa mais.

Ainda assim, Bioy Casares sempre alertava que os contistas não devem fazer uso de temas assustadores, ou deprimentes, só para atrair o leitor. Acreditava, ao contrário, que os contos desprovidos de grande apelo, os contos desinteressados em seduzir a qualquer preço, costumam ser os melhores contos, os que lemos com mais prazer. Por isso, dizia não apreciar muito a leitura de Diário da guerra do porco, um dos romances mais inventivos que escreveu, sombria história sobre os horrores da velhice. E preferir, ao contrário, um romance mais simples, menos ambicioso, como Dormir ao sol, novela que mistura alguma reflexão filosófica com um humor sofisticado. Nada de armadilhas, nada de truques, nada de exageros, advertia. Os leitores buscam, antes de tudo, uma boa história e querem ter prazer, muito prazer, quando a lêem.

Autor de histórias fantásticas, Bioy sempre fez questão de lembrar que o fantástico só nos interessa, só nos toca, quando se avizinha do real. “Sei o que é real e o que é imaginário, mas o imaginário existe de uma maneira tão consistente quanto o real”, disse certa vez. Por isso, escrever exige atenção, recato, comedimento, contenção. Bioy dizia que, se suas histórias pareciam verdadeiras, isso não acontecia por causa de seus conteúdos, mas sim por causa das precauções que ele tomava ao escrevê-las. O cuidado, a cautela, o equilíbrio são, a seu ver, qualidades fundamentais de um escritor, sem as quais ninguém consegue, de fato, escrever histórias convincentes.

EXERCÍCIO DE SIMPLICIDADE

Escreva um conto de no máximo 3 mil caracteres que relate uma história complexa, misteriosa, confusa, de maneira direta e simples. Escrever de maneira simples não é o mesmo que “decifrar”, ou “solucionar” a história, não é o mesmo que “explicá-la”. É, ao contrário, uma maneira de tornar a história ainda mais intricada, enigmática e perturbadora. Uma exigência: a história deve ser contada a um interlocutor fictício que, por exemplo, acompanha o autor em uma mesa de bar. Deve ser “falada” – com todas as ênfases, improvisos e liberdades da linguagem oral –, mais do que “escrita”. E deve ainda apontar, todo o tempo, para seu desfecho.

Exercício da Nona Aula – Oficina Literária

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Rememorando o exercício da nona aula da Oficina Literária de José Castello:

EXERCÍCIO DAS SINCRONIAS

Relate, em no máximo 2 mil caracteres, uma situação surpreendente que tenha vivido. Ou que alguém tenha vivido e depois lhe tenha relatado. Em seguida, escreva um conto, de no máximo 2 mil caracteres também, que tenha essa experiência como ponto de partida. Não se trata de reproduzi-la, de solucioná-la, de explicá-la. Mas, sim, de tomá-la como ponto de partida, como trampolim para a ficção que vai escrever, para que entre as duas reste, de modo quase secreto (e quanto mais secreto, melhor), alguma sincronia.

 

RELATO:

Há alguns anos, convidei alguns irmãos da comunidade católica da qual faço parte, a Canção Nova, para irmos ao cinema após um final de semana inteiro de evento religioso.

Era um domingo à noite, e, apesar do cansaço, todos se alegraram com o convite, pois ir ao cinema era uma oportunidade muito rara para todos eles. Ora, dentre esses irmãos da Canção Nova, um deles estava passando por uma situação difícil: sua mãe, que morava no Mato Grosso, estava bastante doente, e, por conta especialmente do evento do qual participamos, ele não conseguira entrar em contato com a família com a frequência que desejava naquele final de semana. Ele estava bastante tenso, de sorte que aceitou o convite também como uma forma de distrair um pouco a mente. Como eu apreciava muito a sétima arte e eles confiavam no meu gosto, me incumbiram de escolher a qual filme assistir.

A escolha já estava feita em minha cabeça: Assistiríamos a Oliver Twist, de Roman Polanski, por três motivos principais: inicialmente, eu gosto muito do diretor polonês, e vê-lo diretamente no cinema constituía uma chance imperdível; em segundo lugar, gosto muito de literatura, e, a despeito de não ter lido o livro, a história do garotinho órfão sempre me atraíra; por último, o filme se encaixava bem no tipo de película que meus irmãos buscavam usualmente: o filme “de formação”, com uma mensagem moral que pudesse ser convertida em espiritual. Assim, estaríamos todos satisfeitos ao final da sessão, imaginava eu.

Compramos pipoca e víamos o filme quando, por volta da primeira meia hora de projeção meu celular vibra. Depois da terceira ou quarta tentativa saí para atender. Era alguém da comunidade, informando que a mãe daquele meu irmão havia falecido.

Completamente sem saber como proceder, entrei novamente na sala, sentei no lugar onde estava e discretamente pedi a todos que me acompanhassem.

Do lado de fora, com todos me observando, curiosos, dei a notícia.

Após o choque inicial, enquanto caminhávamos no estacionamento, rumo ao carro, aquele meu irmão, muito espirituoso, ainda com o coração muito dolorido, me diz, num sorriso tristonho: engraçado, no dia em que me torno órfão de pai e mãe, venho ao cinema justamente para ver a história de um outro órfão.

Não terminamos de ver o filme naquele dia, e eu nunca consegui vê-lo na íntegra até hoje.

 

UM MILAGRE

 Um milagre.

Era o que diziam, olhando o pequeno, que parecia alheio. Aquele curativo no cotovelo não revelava o que se passara. Uma quedinha de bicicleta, no máximo, parecia dizer a expressão um pouco culpada do menino, como quem ouvira uma ordem clara – tome cuidado! – e desobedecera.

Sentado numa cama branca e limpa, os pés balançando, a cabeça baixa, a criança aguardava. Ao seu lado, duas enfermeiras lhe ofereciam mais um pouquinho de suco, um brigadeiro, o controle remoto.

Em frente à porta, um jovem médico parecia não mais aguentar. Seus pés não paravam quietos, suas unhas estavam sendo comidas muito rapidamente, sua respiração era pesada. Ele olhava a porta, se aproximava, recuava, olhava o teto, lembrava que não tinha um Deus a quem rezar e parava o olhar no chão, hirto por alguns infinitos instantes. Seus olhos ardiam.

Um toque em seu ombro o despertou desse estado de desordem mental. Era a auxiliar, que informava que não conseguiram entrar em contato com ninguém.

– Quer que eu vá, doutor?

– Não. Estou acostumado.

Não estava. Tinha medo de entrar na sala e não conseguir falar nada, não dar as respostas.

É só um menino de dez anos, pensou, afinal. Que de pior poderia acontecer?

Por fim, com a mão levemente tremulante abriu a porta. Com um olhar pediu para as enfermeiras saírem.

Talvez o cavanhaque ou a altura do médico tivessem intimidado o menino, talvez algum augúrio, pois manteve o olhar baixo. O homem sentou-se numa cadeira próxima à cama. Ficaram um tempo em silêncio. Na TV, muda, um gato e um rato pregavam peças um no outro. O ar condicionado emitia um som grave, vibrante. O menino engoliu saliva, acomodou-se à cama. Levantou a cabeça, encarou o médico.

É agora, pensou o homem, em agonia.

– Você sabe dizer se alguém guardou minha mochila?

Desconcertado, o médico demorou uns instantes para voltar a realidade. Aquela pergunta afastava-o por enquanto da difícil obrigação, mas ele preferiria que tudo tivesse acontecido de supetão, resolvendo logo todas as pendências. Lembrou-se da mochila. Retirou-a do armário e entregou-a ao menino, que de imediato localizou a caixa dos seus óculos.

– É que eu estava dormindo, aí mamãe sempre diz pra eu guardar os óculos pra não entortar a armação.

Abriu um outro compartimento da mochila e de lá retirou um livro. Um volume grande para um menino daquela idade, pensou o médico, que, aliás, nunca havia sido um grande leitor.

– Eu vou demorar muito tempo aqui? Se for, posso terminar de ler meu livro?

O médico olhou longamente o título da obra, até que algum mecanismo em seu cérebro fê-lo, num impulso inarredável, sair correndo da sala, com as mãos nos olhos, deixando o garoto só.