O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA – Mário Faustino

O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.

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Soneto da Enseada – Lêdo Ivo

Sou sempre o que está além de mim
como a ponte de Brooklyn ao pôr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?

Se houvesse degraus na terra… – Herberto Helder

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Língua Portuguesa – Judas Isgorogota

 Quando vieste de além, entre a incerteza

E o destemor dos teus, vestida vinhas

Da mais bela roupagem portuguesa!

Ah! quem te vira o talhe puro, as linhas

Esculturais e a excelsa realeza

De rainha de todas as rainhas!

Vinhas do Tejo múrmuro… Trazias

Na voz magoada o som das melodias,

No olhar, a queixa dos que lá se vão…

E a tristeza de todas as cigarras,

E a saudade de todas as guitarras

A soluçar, dentro do coração!

Vinhas radiante! Sob os céus pasmados,

A Cruz de Cristo nas infladas velas

Te indicava o caminha do Ideal!

E mar em fora, recordando fados,

Eras a alma das próprias caravelas

Universalizando Portugal!

E que entontecimento e que vertigem

Quando chegaste, enfim, à terra virgem,

E nela ergueste os braços teus, em cruz…

E que emoção, quando o imortal Cruzeiro

Pôs a teus pés, diante do mundo inteiro,

Sua coroa esplêndida de luz!

Depois, rendendo humilde vassalagem,

Todos te deram as pepitas de ouro

Que enfeitaram teu seio juvenil.

De então, onde fulgisse tua imagem,

Fulgia às tuas mãos o áureo tesouro,

Imensurável, deste meu Brasil!

E, certa noite, ao pé da Guanabara,

Surges envolta só na tule rara

De amor e sonhos, que te deu Jaci…

E, armas à mão, morena entre as morenas,

Tendo à cabeça teu cocar de penas,

Te lançaste à conquista de Peri!

Ah! quem te visse, após, em pleno dia,

Desnuda, ao sol, não te conheceria…

Qual irmã gêmea de Paraguassu,

Desafiavas uma raça inteira

Com teus coleios de onça traiçoeira

E com o feitiço do teu colo nu…

Mas, quem te olhasse, a sós, na noite quente,

Ah! como te acharia diferente

Ao ver-te, olhos molhados, a chorar,

Tua guitarra amiga dedilhando,

O teu fado liró, triste, cantando

E os dois olhos perdidos lá no mar…

Se me alegra o te ver brasileirinha,

Oh! lusitana e doce língua minha,

Não me envaidece, entanto, essa ilusão…

Que hás de ser portuguesa, na verdade,

Enquanto houver no mundo uma saudade,

Uma guitarra, um fado e um coração!