Rosto de caveira, os filhos da noite e outros contos – Robert E. Howard

capa rosto de caveira

Por Eduardo

Robert Ervin Howard foi um grande escritor americano, criador e ainda hoje maior representante do gênero de literatura fantástica “sword and sorcery”, ou “espada e feitiçaria”. Esse gênero é simplesmente sensacional. Dentro do sub-gênero de literatura fantástica de fantasia, encontramos a fantasia épica, onde há grandes heróis capazes de feitos morais e às vezes físicos além do humano para realizar grandes missões de salvar o mundo (Senhor dos Anéis), realistas/políticas (como As crõnicas de gelo e fogo), e aqui nesse meio incluímos o gênero de Howard, onde os personagens principais não almejam a paz mundial, e o bem estar de todos (geralmente os objetivos são egoístas ou simplesmente particulares – enriquecimento ou vingança, por exemplo), e a magia é tratada como algo realmente sobrenatural, e muitas vezes perverso. Conan é a principal obra do gênero.

Infelizmente ainda não tive a oportunidade de ler contos ou o romance de Conan (que deu origem ao filme); na verdade essa coletânea de contos é o meu primeiro contato com Howard, que é bem pobre em questão de obras traduzidas pra pt-br… Essa edição da Martin Claret é muito bonita, a capa com a caveira ficou bem legal, e a diagramação interna, com cores em laranja, ficou linda. Some-se a isso o preço acessível do livro, e não há desculpas para não adquiri-lo e conhecer mais sobre esse grande autor e sua obra.

Continuar lendo

Anúncios

Hellraiser e Psicose – Leituras do carnaval

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

resenha

Eu sempre tive medo do escuro. Parece até risível ler isso de alguém com quase 30 anos, mas é verdade. Lembro-me quando ainda criança e adolescente, ao lado de minha casa tinha um terreiro, um espaço onde eu e irmãos e amigos jogávamos futebol, e desse espaço era possível acessar um caminho escuro que dava até um chiqueiro sombreado por uma grande jaqueira – que, na época adequada, podia estar cercado por um milharal. Pois bem. Não bastasse apenas o medo do escuro por ele mesmo, eu ainda peguei o tempo em que a quaresma trazia consigo não só as cinzas na testa como também Lobisomens no percurso ao colégio, Mula-sem-cabeça em descampados e Luzerna nas colinas. E mesmo envolto pelo sobrenatural :D, eu sempre fui daquele tipo de “ver para crer” mas nunca de provocar. Explico. Eu nunca desafiei alguma entidade fantasmagórica com a frase: se for verdade, apareça agora na minha frente!!! E por que eu não fiz isso? Simples: vai que o bendito resolvesse confirmar a sua existência logo comigo 😀

O tempo foi seguindo seu percurso natural, fui ficando menos frouxo e com o tempo resolvi enfrentar essa quase “patologia”. Para tal, pensei, nada melhor do que assistir a filmes de terror como tratamento. E desse raciocínio extremamente lógico, enfrentei O Exorcista.

“Por que começar com um meia-boca? Vamos logo para o mais casca-grossa de todos”, pensei.

MEU IRMÃO, foi traumatizante!!!

(para saber como foi essa experiência única, leia toda a saga na minha resenha sobre o livro de mesmo nome aqui).

Depois de confrontar o próprio satanás, daí para as demais películas foi relativamente mole. E numa dessas sessões, resolvi dar seguimento no meu tratamento, acompanhando a cinematografia das grandes personagens do terror: Hannibal, Drácula, Alien, Jason, Leatherface, Fred, Pânico e, finalmente, Pinhead.

Foi assistindo a um especial no canal “Pipoca e Nanquim” sobre o aclamado Wes Craven (1939 – 2015), criador de Freddy Krueger, que terminei por relembrar e me interessar pelo excelente filme B, gore, Hellraiser – Renascido do Inferno, agora de outro autor, o Clive Barker.  A película conta a trágica historieta de Frank, um rapaz bonito, galanteador, viciado em sexo e todo tipo de prazer carnal – e das consequências de se brincar com o cubo de Lemarchand (um artefato mágico capaz de levar, quem descobrisse a sua combinação, a um cenário hardcore do “quarto vermelho da dor” de Cinquenta tons de Cinza 😀 e ao eterno encontro com Os Cenobitas, um deles o Pinhead).

Muito embora o filme gire em torno de Frank, passamos boa parte dele acompanhando o dia a dia de Lerry e Julia, sua esposa e madrasta da gracinha Kirsty. O casal está de mudança e resolvem estacionar numa antiga residência onde, ficamos sabendo pouco tempo depois, Frank fez o ritual com o famigerado cubo. Num determinado momento, Lerry se machuca e deixa cair uma quantidade considerável de sangue no assoalho (que serviu de ambiente para os paranauê de Frank), e desse resíduo surge uma ligação entre a Terra e a dimensão dos Cenobitas, permitindo assim o retorno de Frank.

Assisti ao filme, e agora? Vamos ao livro. E foi então que nesse carnaval resolvi fazer a leitura das minhas recentes e belas aquisições: Hellraiser, de Clive Barker e Psicose, de Robert Bloch, ambos livros belíssimos da editora Darkside, e A Sangue Frio, de Truman Capote, da Companhia das Letras (cuja resenha virá num futuro não muito distante).

Primeiramente, preciso confessar que comprei o romance de Barker apenas pela capa, pela composição primorosa dessa “EDITORA BRASILEIRA INTEIRAMENTE DEDICADA AO TERROR E À FANTASIA” e num segundo momento em razão da declaração apaixonada de Stephen King: “Eu vi o futuro do Horror… E seu nome é Clive Barker“; e assim também foi com Psicose, mas com um detalhe, para este eu tinha a ligeira impressão (acertada) de que o seu texto, estilo e trabalho do autor na construção da narrativa seria muito superior àquele.

Espero que você leitor tenha lido a minha resenha sobre o romance O Exorcista, se não, basicamente, o que aconteceu neste se aplica à obra Hellraiser. Em que sentido? Quanto ao quesito necessidade de assistir ao filme (também do Clive Barker) para poder sentir e preencher o vazio deixado pela escrita – muito simples (vou me arriscar e dizer: pobre). Isso talvez tenha acontecido em razão do porquê da origem do livro, que foi, basicamente, a tentativa última do autor em fazê-lo virar filme após uma série de negações por parte dos estúdios. Isso mesmo. O livro somente passou a existir quando Clive resolveu transformar o roteiro num romance. Tendo-o feito, vendeu muito bem. Veio o sucesso e em seguida a feitura da película.

E o que adveio disso tudo? 1 A boa “adaptação” para o cinema, com pouquíssimas mudanças na historieta, sendo a mais gritante (e afirmo, muito bem vinda) “Kirsty, friendzone” transformou-se em filha de Lerry, 2 Os conceitos sobre o cubo, Os Cenobitas (a concepção artística do Pinhead é fascinante) e toda essa mistura de Sadomasoquismo, sexo, luxúria, inferno, dor, prazer e muito, muito sangue. Ah, e a trama, ela é legal :D. Fora esses conceitos, desculpem-me amantes do livro, apesar de eu ter a consciência de que isso era esperado, a escrita do Clive é muito fraquinha, muito rasteira. É preciso muito esforço de nossa parte para conseguir tirar mais do que nos é apresentado. Não é ruim, mal escrito, é apenas escrito.

Seguindo um caminho diferente, Psicose já nos traz aquilo que faltou no Hellraiser: profundidade. Claro, não vamos exagerar, não é um Faulkner, mas, à sua maneira, não deixa devendo para nenhum romance de suspense/policial, sendo este recente ou não.

Em suma, o livro conta a história da secretária Mary Crane e o que ela resolveu fazer com os 40 mil dólares roubados de seu chefe. Após planejar o golpe, ela decide fugir e levar o dinheiro com o intuito de ajudar seu namorado a saldar umas dívidas e finalmente poderem se casar. Já na autoestrada, o tempo vira e tem-se início uma forte tempestade. Mary decide, então, passar a noite no velho Motel Bates e seguir viagem ao raiar do dia. Quando ela se preparava para tomar banho, é atacada, e o romance pula uma semana no tempo, quando passamos a seguir os passos de Lila, irmã de Mary, do noivo desta, Sam Loomis e do detetive Arbogast.

Narrado em terceira pessoa, a estrutura se alimenta daquilo tão batido por Dan Brown, capítulos curtíssimos em que cada parágrafo final nos instiga a continuar lendo, mesmo com a gente relutando para encostar o livro e ir fazer outra coisa. Mas enquanto a escrita do Clive resume-se ao básico para se construir uma história com início, meio e fim, Bloch traz uma linguagem mais bem elaborada, urdida e provocadora. Ele saiu do lugar comum. Procurou nas entrelinhas deixar vestígios de que seria sim possível adivinhar o twist da história. Eu, por exemplo, tinha visto primeiramente o filme e estava procurando, logo nas primeiras páginas, os rastros deixados pelo autor. E posso dizer que sim, eles estão lá, da mesma maneira que no filme Ilha do Medo, O sexto Sentido e Clube da Luta. As metáforas indicavam o caminho verdadeiro, as piadas e, claro, nos memoráveis diálogos entre mãe e filho.

Como mencionar Psicose sem falar sobre o filme, não é? Como o próprio adaptador da obra para o cinema afirmou certa feita (pelo menos é o que consta na contracapa da minha edição), ele tirara tudo para o seu filme do romance. E pelo que pude perceber, Hitchcock foi muito honesto com essa declaração, porque a adaptação cinematográfica é fidelíssima, perpassando a trama, os diálogos, momentos-chave e, obviamente, os confrontos entre Norman mãe e Norman Filho.

Mas fico por aqui sobre quanto da riqueza do romance foi capturada, porque a versão fílmica é superior. Vide, por exemplo, a famosa cena do banheiro. A maneira como o Bloch descreveu a situação perdeu e muito para as escolhas e a genialidade de Alfred, quando este conseguiu mesclar a trilha sonora mais a forma e os ângulos e os cortes da câmera para montar esse instante único na história do cinema. É pungente. Memorável. Já Bloch, em três parágrafos meramente descritivos, resumiu toda a situação; e, com isso, os movimentos rápidos da faca perderam o brilho e impacto.

Outra escolha acertada de Hitchcock foi mudar a figura de Norman Bates. No livro, temos um senhor beirando os 40 anos, gordo, óculos redondos e de lentes grossas, taxidermista, o estereótipo do nerd fracassado. Enquanto que no filme, Anthony Perkins – magro, alto, bem afeiçoado – faz as vezes do esquisito, mas gente fina, Bates. Mesmo você conhecendo o mistério que envolve a trama, sua reviravolta, é muito complicado imaginar Perkins fazendo o que ele viria a fazer; já, por sua vez, é fácil atrelar a imagem daquele “nerd fracassado taxidermista” ao ator Laurence R. Harvey (sim, aquele do Centopeia Humana) e a possibilidade de ele cometer alguma barbaridade.

Posso concluir meu texto dizendo duas coisas: 1. Não tenho mais medo do escuro 😀 (mas continuo sem desafiar as figuras fantasmagóricas); e 2. Fui muito feliz com as minhas aquisições para esse carnaval :D. Sobre meu tratamento, recomendo a você que faça o mesmo, enfrente logo o capiroto e depois as suas crias em forma de filmes. Agora, quanto à sua forma escrita, no caso de Hellraiser, antecipo a necessidade de você se interessar pela temática e de curtir filmes B de terror e ser um pouquinho indulgente. Caso esses pré-requisitos sejam preenchidos :D, vale sim ler o romance. Para Psicose, aí não tenho contraindicações. Caia matando. Leitura prazerosa, divertida e descompromissada.

Bons livros. Boa leitura.

Hellraiser – Nota 3 em 5.

Psicose – Nota 3.5 em 5.

Resenha – O Exorcista, de William Peter Blatty

capa do livro Exorcista

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Eu ando um pouco relutante para escrever resenhas. Li recentemente algumas boas obras, como é o caso de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, a coletânea de Contos de imaginação e mistério, de Edgar Allan Poe, mais recentemente O professor do desejo, do Philip Roth, o surpreendente O rei de amarelo, de Robert W. Chambers (este o meu irmão fez um vídeo no nosso canal literário, O lugar do livro (vide link aqui)), e por último, O Exorcista. Acho que esse capricho, de não resenhar mais, se deve ao simples fato de eu não querer apenas apresentar um resumo (sem spoilers) da obra, porque gosto de escrever textos mais pessoais, sobre como o livro me impressionou, me marcou. Nos outros livros citados, teria pouca coisa a relacionar comigo.

O que não é o caso desse livro aqui.

Provavelmente, você leitor, nalgum momento da vida, deve ter visto alguma cena, referência, ou, simplesmente, visto o filme, ou lido o livro. A minha primeira experiência com essa obra – e olhe, sou muito, mais muito covarde para filmes de terror -, foi de assistir sozinho, em casa, durante o inverno, tendo como companhia aquele silêncio sepulcral, os uivos do vento sob a porta e o canto da rasga-mortalha sobre o telhado. E para piorar ainda mais, tive de vê-lo com o som beeeeem baixinho, tendo de aproximar o rosto da televisão (justamente para não acordar a minha mãe, que acorda com simples toque de uma pena ao cair no chão). Continuar lendo