Resenha – A Origem do Mundo – Jorge Edwards

a-origem-do-mundo

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Até aconselhar meu irmão a aproveitar uma promoção de 50% de desconto comprando este título da Cosac Naify, eu nunca havia ouvido falar de Jorge Edwards. No site da editora, entretanto, há a opção de ler um trecho do livro, o que fiz e me convenceu instantaneamente de que seria uma boa compra. Meu irmão seguiu meu palpite e quando o livro chegou à minha casa, comecei a ler e não parei até terminar no dia seguinte.

Enquanto lia A Origem do Mundo, ia lembrando de uma das mais preciosas lições de José Castello numa oficina de contos que ele disponibilizou pela internet: a boa literatura é feita de muitas camadas. Sendo assim, não é exatamente fácil dizer do que trata aquela história. Aparentemente fala disso, mas também daquilo e daquilo outro.

Isto se aplica com perfeição ao pequeno romance (144 páginas num formato pequeno, quase de bolso) A Origem do Mundo. Grosso modo, o livro narra a história de Patricio Illanes, um médico na casa dos setenta anos, e sua esposa, também médica e uns vinte anos mais nova, Silvia. Eles vivem na França nos anos noventa, depois de fugir do governo de Pinochet. Lá eles convivem com outros amigos chilenos da época da luta comunista, dentre os quais se destaca Felipe Diaz, uma espécie de Vinícius de Moraes, um boêmio com fama de conquistador que se aproxima dos sessenta anos. Patricio é um dos amigos mais próximos de Felipe, mas nutre uma desconfiança terrível: em algum momento de sua vida, sua esposa o teria traído com Felipe? Continuar lendo

Resenha – Noturnos – Kazuo Ishiguro

noturnos

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Eu gosto bastante de ler, e creio que isto está claro pelo meu blog e pelo meu canal no YouTube. Também gosto muito de música, apesar de não ser músico nem me considerar um entendedor do assunto. Sou um mero “consumidor” de música (mais ou menos como consumidor de livros) e tenho meu gosto, que é bastante abrangente, apesar de eu recusar o rótulo de “eclético”. Um dos meus sonhos secretos nada secretos é aprender a tocar um instrumento musical algum dia, preferencialmente o piano. Talvez daqui a uns trinta anos, quando eu tiver me aposentado, quem sabe.

Literatura e música, música e literatura. As duas artes juntas deve resultar em algo interessante, pensei, quando decidi pedir à Companhia das Letras o livro Noturnos, de Kazuo Ishiguro. É um livro de contos com “histórias de música e anoitecer”. Do escritor britânico (apesar de nascido no Japão, ele cresceu na Inglaterra, e seus livros são escritos em inglês), li apenas Never let me go, ou Não me abandone jamais, uma distopia de altíssima qualidade, um livro que me deixou muito, muito impressionado. Continuar lendo

Resenha – Também o Cisne morre, de Aldous Huxley

 


365-659567-0-5-tambem-o-cisne-morrePor José Reinaldo do Nascimento Filho

 

Huxley, autor de Admirável Mundo Novo e Contraponto, entre outros livros não tão conhecidos, grande erudito, pensador, filósofo, homem sempre presente na mídia, de opiniões concisas e duras a respeito do American way of life, conseguiu com este romance três feitos memoráveis: a) ter uma ótima ideia e estragá-la, b) conduzir um romance que não anda para lugar nenhum, mas que parece estar em constante movimento e, por último, c) construir um bom começo (10%), um desenrolar tedioso (80%), e um excelente final (10%).

O romance nos apresenta a história do magnata Jo Stoyte – que teve como inspiração a impressionante figura de William Randolph Hearst, também utilizado, vamos dizer assim, por Orson Wells no seu Cidadão Kane – e toda a sua incansável buscar por aquilo que, até então, o dinheiro ainda não poderia comprar: a imortalidade. Para tal, ele contrata os serviços de Jeremy Pordage, pesquisador/historiador inglês e financia as pesquisas de Sigmund Obispo sobre a longevidade. Essas duas figuras passam a conviver na mansão absurdamente luxuosa do “Jo”, juntamente com a “amante” deste, a bela Virgínia Maunciple (objeto de desejo do ajudante Pete). Para fechar o grupo, temos – nas palavras de Thomas Merton – “um dos mais tediosos personagens da literatura inglesa”, William Propter, ex-colega de colegial do Mr. Stoyte.

Como coloquei acima, o começo é muito bom. Aqui nos é apresentada a personagem de Pordage chegando em Los Angeles, percorrendo a cidade, vislumbrando-se com o luxo, a riqueza, a ostentação, tendo as primeiras impressões sobre seus moradores, uma ou outra tirada mais sarcástica, nos são apresentadas também algumas de suas características, como fazer piadas eruditas que só ele entende (o que me fez lembrar o vídeo de Leonardo sobre Ulisses, vide aqui), e, finalmente, o próprio Mr. Stoyte e todo o seu jeito rude e indiscreto. Para se ter uma idéia, a primeira pergunta que ele faz para o seu novo chegado é: “Como vai a sua vida sexual?”. Assim, do nada.

Estamos na mansão. Conhecemos um a um as personagens e por que elas estão ali e o que farão. Pordage irá pesquisar nalguns documentos antigos algo relacionado à imortalidade; Obispo, continuar suas pesquisas sobre as carpas e sua incrível capacidade de se prolongar a vida; Pepe, será o continuo; Virgínia, a safadinha; e, por último, temos o William que, assim como os demais, cada um na sua área, e sem muitos motivos aparente, sem, praticamente, ninguém perguntar ou querer saber, irá preencher parte considerável do texto com sua filosofia datada, discurso raso, enfadonho, risível e inútil. Uma representação perfeita do que seria o tal do pseudointelectual. Utilizando as palavras dos críticos ingleses da época: palavroso e inconvincente.

Uma excelente ideia, um excelente final (porque o final é sim memorável, lembrando-nos do ainda não lido por mim A ilha do Dr. Monroe), uma ótima oportunidade de realizar outra memorável ficção científica mas que se perdeu, terrivelmente, num emaranhado de silogismos pautados num nada filosófico.

2 de 5 estrelas.