Resenha – Também o Cisne morre, de Aldous Huxley

 


365-659567-0-5-tambem-o-cisne-morrePor José Reinaldo do Nascimento Filho

 

Huxley, autor de Admirável Mundo Novo e Contraponto, entre outros livros não tão conhecidos, grande erudito, pensador, filósofo, homem sempre presente na mídia, de opiniões concisas e duras a respeito do American way of life, conseguiu com este romance três feitos memoráveis: a) ter uma ótima ideia e estragá-la, b) conduzir um romance que não anda para lugar nenhum, mas que parece estar em constante movimento e, por último, c) construir um bom começo (10%), um desenrolar tedioso (80%), e um excelente final (10%).

O romance nos apresenta a história do magnata Jo Stoyte – que teve como inspiração a impressionante figura de William Randolph Hearst, também utilizado, vamos dizer assim, por Orson Wells no seu Cidadão Kane – e toda a sua incansável buscar por aquilo que, até então, o dinheiro ainda não poderia comprar: a imortalidade. Para tal, ele contrata os serviços de Jeremy Pordage, pesquisador/historiador inglês e financia as pesquisas de Sigmund Obispo sobre a longevidade. Essas duas figuras passam a conviver na mansão absurdamente luxuosa do “Jo”, juntamente com a “amante” deste, a bela Virgínia Maunciple (objeto de desejo do ajudante Pete). Para fechar o grupo, temos – nas palavras de Thomas Merton – “um dos mais tediosos personagens da literatura inglesa”, William Propter, ex-colega de colegial do Mr. Stoyte.

Como coloquei acima, o começo é muito bom. Aqui nos é apresentada a personagem de Pordage chegando em Los Angeles, percorrendo a cidade, vislumbrando-se com o luxo, a riqueza, a ostentação, tendo as primeiras impressões sobre seus moradores, uma ou outra tirada mais sarcástica, nos são apresentadas também algumas de suas características, como fazer piadas eruditas que só ele entende (o que me fez lembrar o vídeo de Leonardo sobre Ulisses, vide aqui), e, finalmente, o próprio Mr. Stoyte e todo o seu jeito rude e indiscreto. Para se ter uma idéia, a primeira pergunta que ele faz para o seu novo chegado é: “Como vai a sua vida sexual?”. Assim, do nada.

Estamos na mansão. Conhecemos um a um as personagens e por que elas estão ali e o que farão. Pordage irá pesquisar nalguns documentos antigos algo relacionado à imortalidade; Obispo, continuar suas pesquisas sobre as carpas e sua incrível capacidade de se prolongar a vida; Pepe, será o continuo; Virgínia, a safadinha; e, por último, temos o William que, assim como os demais, cada um na sua área, e sem muitos motivos aparente, sem, praticamente, ninguém perguntar ou querer saber, irá preencher parte considerável do texto com sua filosofia datada, discurso raso, enfadonho, risível e inútil. Uma representação perfeita do que seria o tal do pseudointelectual. Utilizando as palavras dos críticos ingleses da época: palavroso e inconvincente.

Uma excelente ideia, um excelente final (porque o final é sim memorável, lembrando-nos do ainda não lido por mim A ilha do Dr. Monroe), uma ótima oportunidade de realizar outra memorável ficção científica mas que se perdeu, terrivelmente, num emaranhado de silogismos pautados num nada filosófico.

2 de 5 estrelas.

Resenha – Crônica da Casa Assassinada – Lúcio Cardoso

cronica

Por Thereza Cristina

A história de “Crônica da Casa Assassinada” se passa no interior de Minas Gerais, no desenrolar do século XX. Naquele momento as famílias tradicionais estavam começando a temer o desenvolvimento urbano, pois tinham receio que essas novas construções oprimissem o brilho e a soberania dos casarões. E por falar em família, a história gira em torno dos Meneses, uma família que praticamente rege a cidade, sendo considerada a “realeza” local. Apesar do jeito petulante, eles estavam em decadência; suas propriedades já não tinham tanto valor. Com isso, uma coisa se torna muito importante para compreender o que Lúcio Cardoso desejava transmitir com sua Crônica: desconfiar de tudo o que você lê, pois a velha chácara dos Meneses contém segredos inimagináveis.

Em meio às fragilidades do momento, Valdo, membro da família Meneses, retorna do Rio de Janeiro. Porém, ele não estava sozinho, trouxe consigo a bela Nina como esposa, para ser a nova habitante da Chácara. Dona de gostos extravagantes e uma beleza extraordinária, ela rapidamente vai atraindo a atenção dos habitantes da região, também devido o seu jeito mais “liberal”. Os Meneses estavam um tanto quanto preocupados, pois manter as aparências de uma família real era imprescindível.

Crônica da casa assassinada fala, de forma não linear, da decadência e fragmentação de uma família mineira burguesa e tradicional. É narrado por várias vozes, incluindo membros da família Meneses e habitantes de Vila Velha, cidade onde vivem. O romance é construído através de cartas, recordações saudosas, diários etc. Com esse tipo de narração, é preciso analisar os detalhes da obra e não acreditar em tudo que se vê/lê. Por exemplo: quando Nina narra a Chácara onde os Meneses vivem, a impressão que se tem é de que está caindo aos pedaços. Os Meneses são descritos como gente que ficou presa no século passado e o local onde vivem também. Mas é preciso levar em conta que Nina estava acostumada ao Rio de Janeiro, uma cidade grande e urbanizada. E como num passe de mágica, ela se vê numa cidade do interior de Minas Gerais, onde tudo parecia enferrujado e empoeirado, sem contar nas recusas dos Meneses para realizar e fazer parte dos raros eventos sociais que ocorriam na cidade. Continuar lendo

Resenha – O Exorcista, de William Peter Blatty

capa do livro Exorcista

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Eu ando um pouco relutante para escrever resenhas. Li recentemente algumas boas obras, como é o caso de O Poderoso Chefão, de Mario Puzo, a coletânea de Contos de imaginação e mistério, de Edgar Allan Poe, mais recentemente O professor do desejo, do Philip Roth, o surpreendente O rei de amarelo, de Robert W. Chambers (este o meu irmão fez um vídeo no nosso canal literário, O lugar do livro (vide link aqui)), e por último, O Exorcista. Acho que esse capricho, de não resenhar mais, se deve ao simples fato de eu não querer apenas apresentar um resumo (sem spoilers) da obra, porque gosto de escrever textos mais pessoais, sobre como o livro me impressionou, me marcou. Nos outros livros citados, teria pouca coisa a relacionar comigo.

O que não é o caso desse livro aqui.

Provavelmente, você leitor, nalgum momento da vida, deve ter visto alguma cena, referência, ou, simplesmente, visto o filme, ou lido o livro. A minha primeira experiência com essa obra – e olhe, sou muito, mais muito covarde para filmes de terror -, foi de assistir sozinho, em casa, durante o inverno, tendo como companhia aquele silêncio sepulcral, os uivos do vento sob a porta e o canto da rasga-mortalha sobre o telhado. E para piorar ainda mais, tive de vê-lo com o som beeeeem baixinho, tendo de aproximar o rosto da televisão (justamente para não acordar a minha mãe, que acorda com simples toque de uma pena ao cair no chão). Continuar lendo